EDUCAÇÃO

O fim da Formação Cívica e a desumanização da escola

A revisão da estrutura curricular agora anunciada faz temer a machadada final, com a redução aos "conhecimentos fundamentais"* e às "disciplinas essenciais".
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Nos últimos anos, a enorme burocratização trazida à escola foi matando a possibilidade de os professores dedicarem o tempo necessário à qualidade do trabalho com os alunos e à melhoria da educação, perdendo-se entre papéis e reuniões. Muitos professores optaram por uma reforma antecipada, que nunca tinham desejado. A revisão da estrutura curricular agora anunciada faz temer a machadada final, com a redução aos "conhecimentos fundamentais"* e às "disciplinas essenciais"*. Muito se tem escrito e falado sobre o assunto, pelo que me vou referir apenas à extinção da Formação Cívica.

Durante longos anos, os diretores de turma lamentaram-se por não terem um espaço para conversarem, conhecerem melhor e trabalharem com os alunos da turma de que eram diretores.

O papel de aluno é apenas um dos muitos que cada criança/jovem assumem em cada momento da sua vida. Ao diretor de turma, entre muitas outras funções, cabe acompanhar cada aluno de forma mais individualizada, olhá-lo como pessoa e não apenas como "aluno", conhecer melhor o seu perfil e as suas necessidades, propor soluções para os problemas que encontra, monitorizar a aplicação de medidas junto dos alunos, dos professores e das famílias. Aluno na escola, a criança/o jovem é também, e sobretudo, uma pessoa. Não é um ser abstrato sempre predisponível e preparado para a aprendizagem seca de "conhecimentos fundamentais". O "aluno-colega de outros pares" com quem tem boas ou más relações sociais, o "aluno-elemento de uma família" que tem características e problemas diversos (que passam pela composição do agregado familiar, pela capacidade deste satisfazer ou não as necessidades básicas, pela possível perda de pessoas significativas, por situações de doença pessoal ou familiar de gravidade variável), o aluno como pessoa em todas as suas dimensões não é um ser abstrato, redutível a um número integrado numa lista de turmas, também designadas por números ou letras.

Em tempos idos, o diretor de turma, à falta de um tempo específico para estar com a sua turma, pouco mais podia fazer do que as tarefas burocráticas de pedir aos alunos as justificações de faltas e trocar mensagens através da caderneta, à custa do tempo disponível para as aulas da sua disciplina, ou seja, para "transmitir os conhecimentos fundamentais" desta. Era frequente, por isso, o diretor de turma não conseguir cumprir o programa previsto.

A integração da criança/do jovem na turma e na escola, a sua relação com os professores, os problemas que o apoquentam e afetam o seu desempenho escolar: eis vários dos assuntos que podem e devem ocupar as aulas de Formação Cívica e que não podem ser dispersos e continuar a manter a "relevância dos seus conteúdos de modo transversal"*, até porque não são "conhecimentos fundamentais" de nenhuma disciplina.

Em que espaço se vai poder conversar sobre as dificuldades de uma turma de 5.º ano (por exemplo), recém-entrada na escola, e, no mesmo momento, decidir partir para uma visita aos espaços que os alunos não conhecem tão bem ou temem mais, analisando formas de ultrapassar os receios? Em que espaço se vai poder dramatizar uma situação de conflito e debater formas de o resolver, contrapondo os estilos agressivo, passivo e assertivo? Em que espaço se vai poder dialogar com uma turma com alunos com necessidades educativas especiais, em que técnicos especializados auxiliam o diretor de turma, explicando as características desses jovens e como os outros os podem apoiar, promovendo-se, até, projetos de interajuda?

É com medidas como a extinção da Formação Cívica e várias outras tão ou mais graves, de que não falo, pois têm sido mais debatidas na comunicação social, que se consegue o tal "ensino moderno e exigente, tendo em vista uma melhoria dos resultados escolares dos nossos alunos", preconizado pelo Ministério da Educação e Ciência?

In "Proposta-base da Revisão da Estrutura Curricular", divulgada pelo Ministério da Educação e Ciência em 12/12/2011
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários seja o primeiro!