EDUCAÇÃO

Não há (pequenos-)almoços grátis!

Se, como se ouve dizer, não há almoços grátis, o mesmo valerá, certamente, para os pequenos-almoços.
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O que terá levado, então, uma empresa de transportes ferroviários a oferecer pequenos-almoços (grátis, sim!) aos seus clientes, numa campanha realizada em outubro de 2016 (Público, 17/10/2016)?

O prejuízo que estava a ter por se ver obrigada a recorrentes paragens na circulação devido a desmaios e outras perturbações de saúde dos utentes que viajavam sem terem tomado o pequeno-almoço. No primeiro semestre de 2016 houve 46 episódios de doença súbita que prejudicaram a pontualidade de 51 comboios dessa empresa, ocorrendo a esmagadora maioria no período entre as 7:00 e as 10:00 e sendo certo que, em muitos casos, os utentes confirmaram não terem tomado o pequeno-almoço. A empresa fez acompanhar a oferta dos pequenos-almoços com a divulgação dos seguintes slogans: “Por favor, não apanhe o comboio em jejum.”, “Viajar sem tomar pequeno-almoço pode afetar a viagem de todos!”

Se a empresa ferroviária foi prejudicada por vários dos seus utentes não terem tomado o pequeno-almoço, que dizer da saúde dos próprios? E quando são crianças ou jovens que vão para as aulas sem o tomarem? Fica, seguramente, prejudicada a sua saúde, mas também a sua capacidade de atenção e concentração nas aulas, a capacidade de raciocinar, em suma, a capacidade de aprender e de autocontrolar o comportamento. Se a empresa referia que a falta do pequeno-almoço prejudicava todos (empresa e restantes utentes), também na escola todos saem prejudicados: a criança/jovem que não consegue aprender; os seus colegas de turma, devido à perturbação do ambiente de ensino-aprendizagem criada pela irrequietude de quem não comeu; os professores, que veem o seu trabalho dificultado.

Quantos pais/mães não começam o dia dando aos seus filhos o mau exemplo de não tomarem o pequeno-almoço? “Bem prega Frei Tomás. Olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz.” Como poderão esses pais/mães convencer os mais novos a fazerem a refeição que eles próprios desprezam?

Tomar consciência da importância e da indispensabilidade do pequeno-almoço é o primeiro passo. Segue-se a análise e a desmontagem de todas as desculpas para este jejum matinal: “Não tenho fome.”, “Não tenho tempo.”, “Fico enjoado.” A partir daí, há que contrapor argumentos e encontrar soluções: “Comer mesmo sem grande vontade, ainda que em pequena quantidade; o hábito acabará por trazer a fome, natural ao acordar, devendo a quantidade de alimentos aproximar-se gradualmente do necessário.”, “Levantar mais cedo.”, “Escolher alimentos mais bem tolerados pelo organismo.”

Se uma empresa ferroviária fica prejudicada pelo jejum matinal dos seus utentes a ponto de oferecer pequenos-almoços grátis, a que ponto chegará o prejuízo na saúde e na aprendizagem dos seus filhos se eles não fizerem essa refeição? Adaptando os slogans da empresa ferroviária, aqui deixo alguns adequados às crianças e jovens em idade escolar e seus pais: “Assegure-se sempre de que o seu filho toma o pequeno-almoço antes de ir para a escola.”, “Ir para a escola sem pequeno-almoço afeta a saúde do próprio e a aprendizagem de todos.”
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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