PSICOLOGIA

Filhos da violência doméstica

A violência vivida pelas crianças como alvos diretos ou como testemunhas é, frequentemente, guardada silenciosamente, pois o medo impede-as de partilhar.
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A escola é o palco do mundo! Todos os que nela trabalham diariamente contracenam com atores que, dada a reduzida idade, arrastam para a sala de aula e para o recreio a sua vida pessoal, frequentemente entrincheirada entre múltiplos conflitos familiares! Recentemente uma criança de 4 anos dizia num atendimento:

– A minha mãe é uma vaca.
– Uma vaca?
– Sim, uma vaca!
– Por que dizes isso?
– Porque é o que o meu pai diz.

Apesar de a mãe desta criança ter posto fim a uma situação de violência doméstica, o ex-marido, inconformado com a distância imposta, usa o filho como mensageiro da sua revolta porque definitivamente perdeu a mulher/objeto que ele achava ser seu. Pergunto-me como é que a lei poderá pôr fim a esta forma de violência, atendendo a que a própria mãe define o pai desta criança como um bom pai, pois, quando o deixa aos seus cuidados, ele trata bem dele, na sua perspetiva. Ela própria excluiu da equação violenta o filho, considerando que o ex-marido, apesar de a maltratar constantemente, nomeadamente através de mensagens ameaçadoras de telemóvel, e de denegrir a imagem da mãe perante a criança, não pode ser considerado um mau pai!!! Sei que este homem é um animal ferido que poderá, durante muito tempo, impor o seu domínio usando esta criança como refém da sua perturbação mental/emocional! A criança gosta do pai, o pai gosta da criança e, por isso, o afastamento entre ambos não será de todo benéfico. No entanto, a desorientação deste homem, obcecado por uma relação que teima em não querer terminar, deixará marcas no filho que, com 4 anos, ouve o pai incluir a mãe no grupo dos bovídeos! Falo de um homem que já fez ameaças de morte a esta mulher e que, por isso, tem a polícia e o tribunal por perto!

Uma outra criança, bastante mais crescida que a anteriormente referida, relatou-me recentemente a violência de que ele e a mãe são vítimas. O padrasto há já muito tempo dirige a sua agressividade para eles e, por isso, a sua casa é sentida como um local de perigo. Comuniquei-lhe que, dada a gravidade da situação, a teria de expor à Comissão de Proteção de Menores. A esta denúncia seguiu-se o surgimento de uma mãe em fúria, porque a escola não deveria, segundo ela, ter interferido na sua vida familiar. Compreendi o desnorte desta mãe: como é que poderia ela sair deste ciclo de violência, sem casa, sem trabalho e com vários filhos para alimentar? A garantia de alguns alimentos e de um teto passava por este homem… Como é que as entidades responsáveis poderão ajudar efetivamente esta família a sair deste ciclo? A denúncia tinha de ser feita, não há dúvida, mas… e agora?

A violência vivida pelas crianças como alvos diretos ou como testemunhas é, frequentemente, guardada silenciosamente, pois o medo impede-as de partilhar. Os estudos mostram claramente que testemunhar violência familiar, nomeadamente interparental, deixa marcas graves e, por isso, não se pode ignorar. As vulnerabilidades decorrentes da violência, quer direta quer observada, evidenciam-se a curto, médio e longo prazo e traduzem-se em reações de externalização, tais como dificuldades de atenção, problemas de comportamento, respostas menos apropriadas às situações e maior agressividade dirigida aos pares, nomeadamente bullying. As reações de internalização são também frequentes, tais como: baixa autoestima e depressão. A exposição à violência familiar é ainda um grande fator de risco de psicopatologia no adulto, problemas de saúde mental, comportamentos de abuso de substâncias e ofensas criminais. Já que, uma vez mais, não consegui ter inspiração para abordar um tema natalício, termino com um desejo para 2017: que as mães e pais ensinem às filhas e filhos que só poderão ter alguns meios para lutar contra a violência se forem autossuficientes e independentes e isso passa inevitavelmente pelo investimento na sua vida pessoal e profissional!

Bibliografia: Sani, A. (2006). Vitimação indirecta de crianças em contexto familiar. Análise Social, vol. XLI (180), 849-864.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia, pela Universidade do Porto, na área de nnConsulta Psicológica de Jovens e Adultos, e mestre em Psicologia nEscolar. Concluiu vários cursos de especialização na área da Psicologia,n entre os quais um curso de pós-graduação em Psicopatologia do Desenvolvimento, na UCAE. Atualmente, é psicóloga no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira, para além de dinamizar ações de formação em diversas náreas.
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