PEDIATRIA

Porque não deve beber álcool durante a gravidez

O consumo de álcool numa mulher grávida pode produzir alterações físicas, cognitivas e comportamentais permanentes e irreversíveis na criança que está para nascer.
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Não existe uma quantidade mínima segura de álcool, nem qualquer momento em que seja seguro beber durante a gravidez. Quando uma mulher grávida bebe, o seu bebé também o faz.

O que é o síndrome alcoólico fetal?
O síndrome alcoólico fetal é a causa mais comum de atraso mental infantil não hereditário e caracteriza-se por:

- dismorfia da face, mais evidente entre os 8 meses e os 8 anos: fissura palpebral (espaço entre as 2 pálpebras) pequena, ptose palpebral (queda da pálpebra superior), região média da face achatada, narinas (orifícios nasais) mais anteriores, filtro do lábio superior (região por cima do lábio superior) liso e fino;

- deficiente crescimento intrauterino e após o nascimento;

- lesão e disfunção do sistema nervoso central: atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, défice de atenção e/ou hiperatividade, dificuldades de aprendizagem, comportamentos inapropriados e imaturos, problemas na fala e audição, etc.

Os distúrbios comportamentais, como por exemplo o síndrome de hiperatividade e défice de atenção e as dificuldades de aprendizagem só se tornam aparentes em idade escolar.

Qual é o mecanismo patofisiológico?
O álcool atravessa livremente a membrana placentária, uma vez que as suas moléculas são pequenas e rapidamente solúveis na água e nos lípidos.

A passagem do álcool vai fazer-se então facilmente e na dependência, somente, do fluxo de sangue e segundo um gradiente de concentração, isto é, da zona de maior concentração para a de menor concentração.

Quando a mãe bebe, a concentração do álcool no seu sangue sobe rapidamente, enquanto que no feto a concentração máxima tem lugar algum tempo mais tarde, embora nunca atinja valores tão elevados.

Como a mãe metaboliza o álcool, a concentração no seu sangue vai descendo. No feto, pelo contrário, a concentração de álcool no sangue manter-se-á elevada durante mais tempo, uma vez que o feto não é capaz de metabolizar esta substância.

Quais as mulheres grávidas que estão em risco?
National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism Guidelines recomenda que qualquer mulher que beba mais de 7 bebidas por semana ou mais de 3 bebidas no mesmo dia deve ser tratada, dado o risco de problemas relacionados com o álcool.

O álcool tem efeitos tóxicos diretos no processo de divisão das células. O risco de malformações é mais elevado, quando a alcoolização da grávida se faz por episódios agudos, nos primeiros meses de gravidez.

O aconselhamento de mulheres em idade fértil que bebem pequenas quantidades de álcool antes de saberem que estão grávidas é um problema complexo mas muito importante, já que cerca de 30% das grávidas portuguesas se encontram neste grupo.

A criança cuja mãe ingeriu bebidas alcoólicas de forma regular no primeiro trimestre de gestação possui risco aumentado de lesão do sistema nervoso central.

Qual o tratamento?
Não existe uma abordagem terapêutica direta para o síndrome alcoólico fetal.

È, no entanto, importante estabelecer o diagnóstico antes dos 6 anos de idade, de forma a ser possível uma intervenção atempada.

Existem alguns fatores protetores contra as complicações sociais e psicológicas, como, por exemplo, a ausência de privações sociais, o acompanhamento especializado, relacionamentos familiares e rotinas estáveis, evitando mudanças periódicas de residência ou de cidade.

Medicar um distúrbio psiquiátrico, tratar alterações oftalmológicas, procurar uma escola especializada ou proporcionar à criança um atendimento psicológico é fundamental, mas só é eficaz se for realizado de forma concertada e concomitantemente.

O limiar mínimo de álcool necessário para o desenvolvimento de malformações no feto de causa alcoólica não está bem estabelecido, pelo que se deve: "evitar qualquer ingestão de bebidas alcoólicas durante a gravidez".

O síndrome alcoólico fetal é 100% evitável!

Liliana Pinheiro
Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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