Literacia digital: uma questão de “sobrevivência”

No último congresso nacional sobre educação para os media, vários investigadores expuseram os mais recentes estudos sobre o modo como a sociedade, dita "da informação", está a lidar com os meios digitais.
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É impossível ficar indiferente ao modo como as crianças parecem quase nascer predispostas para as tecnologias. Desde logo a televisão é o primeiro meio a captar a atenção. E o mercado sabe bem disso. Como resposta surgem canais especificamente pensados para bebés e a partir daí até à adolescência. Depois há outros meios a entrar na competição.
Os ecrãs tácteis facilitam aos pequenos dedos fazer maravilhas nos smartphones e nos tablets. O mesmo entusiasmo contagia os mais velhos. Gerações de avós que nunca "no seu tempo" conheceram outro rato, a não ser o que caía na ratoeira. Entre uns e outros estão aqueles cuja vida já não tem sentido offline.

Mas estas são apenas as conexões mais óbvias entre a sociedade e o mundo digital. A exclusão ou inclusão social que advém do uso das tecnologias, o impacto dos computadores nos mais novos, a potencialidade para a participação cívica são outras relações a suscitar estudos por todo o mundo, como fizeram questão de lembrar os investigadores que estiveram, em maio, no segundo congresso nacional Literacia, Media e Cidadania, em Lisboa.

A "revolução tecnológica fez com que a literacia para os media seja uma verdadeira condição de sobrevivência hoje em dia", garante Pedro Berhan, diretor do Gabinete para os Meios de Comunicação Social (GMCS), e "uma das traves mestras da educação para a cidadania", acrescenta Ana Maria Bettencourt, ex-presidente do Conselho Nacional da Educação (CNE).
Promover a literacia digital implica a execução de políticas estratégicas mundiais nesse sentido, e esse tem sido o âmbito do trabalho de Alton Grizzle, especialista do Programa para a Comunicação e Informação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). Mas uma política comum impõe, antes de mais, uma uniformização de conceitos, pois são várias as designações em torno desta área.

É, precisamente, o que a UNESCO está a tentar fazer. Ou seja, a convergir num conceito as várias literacias criadas consoante a área de estudo a que se aplicam - cinema, televisão, computadores, publicidade, fotografia, jogos, etc. Da fusão resultou a sigla MIL, de Media Informati Literacy, que em português será algo como Literacia Mediática e da Informação (LMI). Ainda que as siglas não resultem muito bem quando traduzidas, o sentido não se perde.

A designação reúne dois campos essenciais: a literacia mediática, que remete para a análise crítica dos meios de comunicação e a informação onde gravitam as questões do acesso, participação e cidadania. E, se mais argumentos faltassem a favor da uniformização, Grizzle aponta uma razão prática e indiscutível: "A convergência de conceitos é essencial para que os professores nos ouçam e não fiquem perdidos no meio de tantas literacias".

Currículo MIL
A pensar nos professores, a UNESCO criou um currículo MIL com o objetivo de proporcionar uma abordagem comum não só ao conhecimento e compreensão crítica dos media como também à produção e ao uso da informação mediática.

As razões que levam vários investigadores, nacionais e internacionais, a reivindicar mais espaço nas escolas para formar os alunos para o mundo digital estão bem explícitas na recomendação Educação para a Literacia Mediática, redigida pelo CNE em 2011. Apesar disso, quem estuda estas matérias não hesita em afirmar que as alterações curriculares passaram ao lado do essencial (senão do mais básico) destas reivindicações.

Ana Maria Bettencourt, que à data do congresso ainda exercia o cargo de presidente do CNE, lançou nessa altura um último apelo ao Ministério da Ciência e da Educação para reconhecer a importância da educação para os media: "Esta área também é Ciência, agora que se fala tanto em Ciência..."

Fenómenos como a descrença na política ou a preocupação crescente dos alunos, mesmo os mais novos, com as consequências da crise económica, aliados ao "imenso poder" conferido ao cidadão pelos novos media, requerem reflexão em sala de aula. E, segundo os especialistas, encontrariam na literacia mediática e da informação (adotando o conceito da UNESCO) um terreno propício para o debate.
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