81,1% dos alunos do 5.º ano levam peso a mais na mochila

Sete em cada 10 crianças, com idades entre os 6 e os 13 anos, carregam mochilas com excesso de peso, com uma carga acima de 12 por cento do seu peso corporal. As raparigas levam as mochilas mais pesadas, os rapazes levam mais brinquedos e jogos para a escola. Conclusões de um estudo realizado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.
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As indicações internacionais são claras: as crianças não devem transportar um peso superior a 10 % do seu peso corporal. O que nem sempre acontece. Para verificar o que se passa no terreno, uma equipa da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa selecionou uma amostra e concluiu que 68,4% das mochilas dos alunos do 1.º e 2.º ciclos do Ensino Básico têm excesso de peso. É no 5.º ano de escolaridade que as pastas vão mais pesadas para a escola: 81,1% dos alunos desse ano suportam peso a mais. No geral, as meninas colocam mais coisas nas mochilas (70,2%) e os meninos levam mais brinquedos e consolas de jogos.

A avaliação de mochilas escolares em alunos do 1.º e 2.º ciclos chama-se O Peso do Saber e envolveu vários investigadores, ou seja, E. Andrade, V. Borges, G. Cardoso, A. Henriques, M. Mira, T. Yan. O estudo foi coordenado pelo pediatra Mário Cordeiro. Participaram 630 alunos, 305 do sexo feminino e 325 do sexo masculino, com idades entre os 6 e os 13 anos, do 1.º e 2.º ciclos do Agrupamento Escolar Dona Filipa de Lencastre, em Lisboa. As crianças foram pesadas, uma a uma, com e sem mochila ao longo de três dias e responderam a um questionário com várias perguntas sobre a matéria.

"Apesar da prevalência média de excesso de peso (68,4%) ter sido superior à documentada em estudos realizados noutros países, a relação peso da mochila/peso do aluno encontrada neste estudo foi inferior (12,3%). Assim, podemos concluir que, embora a maioria das crianças transporte excesso de peso, o valor daquela relação é próximo do limite adequado (10%)", concluem os investigadores.

Há uma explicação para que as mochilas do 5.º ano sejam mais pesadas. Trata-se de um ano de transição em que "as crianças são confrontadas pela primeira vez com um elevado número e diversidade de disciplinas, o que obriga a uma gestão do material à qual ainda não estão habituadas". Há também justificação para que as raparigas levem mais coisas na mochila, como é o caso do material de educação física. Elas são mais vaidosas com o vestuário, eles preferem levar o fato de treino vestido de casa. E são eles que levam mais brinquedos e consolas de jogos nas mochilas - "o que poderá estar relacionado com uma diferença de maturidade entre os géneros nesta faixa etária".

E o que levam nas mochilas? Além dos livros, 82,4% dos alunos levam o lanche da manhã, 53,4% o lanche da tarde, 30,3% transportam outros livros, 24,8% levam brinquedos, 7,6% levam aparelhos de música e 5% transportam consolas de jogos. É no 2.º ciclo que os alunos levam mais livros. Setenta e um por cento dos estudantes do 6.º ano levam quatro ou mais livros na mochila. Além disso, 55,5% tinham a perceção de que a mochila ia pesada para a escola, 27,2% que era leve e 38,1% que era confortável. No entanto, 38,1% afirmaram que ficam cansados e 27% com dores nas costas depois de transportarem as mochilas.
Quanto à supervisão, 67,5% dos alunos garantem rever todos os dias o recheio das mochilas e 5,4% dizem que nunca o fazem. No 1.º ciclo, 45,8% dos alunos reveem diariamente as mochilas, número que aumenta para 86,4% no 2.º ciclo. Por outro lado, 28,6% das crianças referiram que os pais reveem o conteúdo da mochila todos os dias e 19,5% disseram que os pais nunca o faziam.

Segundo vários estudos, um fator que parece influenciar o peso das mochilas das crianças é o grau de envolvimento e supervisão dos pais na preparação das pastas. Há mesmo investigações que concluíram que 96% dos pais nunca averiguavam o peso da mochila dos seus filhos, sendo que 34% nunca verificavam o seu conteúdo. Há ainda estudos que sugerem que o excesso de peso das mochilas conduz a uma significativa inclinação do tronco, à alteração no padrão da marcha, ao aumento do tempo de recuperação da pressão arterial e aumento da frequência ventilatória. Por isso, no momento da compra, é importante que a criança esteja presente para experimentar, para testar o tamanho.

Há vários conselhos para evitar que o peso a mais nas mochilas faça mal à saúde como colocar os objetos mais pesados e volumosos, como os livros, na vertical e o mais próximo possível das costas; repartir bem o peso com as alças nos dois ombros; não levar a mochila pela mão ou num só ombro. E as alças devem ser reguláveis, tal como o cinto para permitir a distribuição do peso entre os ombros e a região lombar. A mochila mais utilizada pelos alunos do 1.º e 2.º ciclos é a de levar às costas, apenas 13,7% usam mochilas com rodinhas, registando-se uma maior percentagem no 1.º ciclo. Os que não usam as rodinhas explicam que essas mochilas não dão jeito para subir escadas, andar ou usar em transportes públicos.

O estudo português deixa alguns conselhos para a comunidade escolar. Na hora de fazer os horários, os professores podem minimizar o número de disciplinas diferentes por dia. Os pais devem espreitar o que anda nas mochilas e as editoras podem tentar usar um material mais leve no fabrico dos livros e dividir os manuais em vários volumes. "É importante que as escolas deem a conhecer aos alunos as consequências do transporte de excesso de peso nas mochilas escolares, o que poderá ser feito não só durante as aulas, mas também em encontros informais e formais, e até fora do período escolar", sustentam os investigadores.

"Os pais desempenham um papel fundamental na questão da redução do peso das mochilas escolares e devem orientar as crianças na escolha de mochilas e materiais escolares mais leves, supervisionar a preparação da mochila de acordo com o horário e desencorajar o transporte de brinquedos e outros itens desnecessários, insistir numa boa colocação da mochila (assente em ambos os ombros e com as alças iguais em tamanho e sem dobras)", acrescentam. E os profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros, também podem abordar o assunto durante as consultas de vigilância e na hora da vacinação.

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