“Estamos a ver a crise e com medo do que nos vai acontecer”

Patrícia, Marcos, Bruna e Débora são deputados ao Parlamento dos Jovens. Esperam ser eleitos para ir à Assembleia da República mostrar o que querem mudar no país.
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Sexta-feira. Quando a campainha tocar grande parte dos alunos da Escola Básica Eugénio de Andrade, no Porto, entra em "modo" de fim de semana. Patrícia Machado, de 14 anos, Marcos Domingues, de 15 anos, e Bruna Almeida, de 14 anos, têm ainda pela frente uma tarde de trabalho. Uma última reunião com Ana Monteiro, coordenadora do projeto Parlamento dos Jovens, onde será preciso limar arestas: "Preparei um dossiê final para cada um com a documentação mais importante."

O trio foi eleito para representar a escola na sessão distrital do Parlamento dos Jovens marcada para segunda-feira. Lá, terão de convencer os restantes "deputados", eleitos pelo "círculo" do Porto, a aprovar as medidas previstas no seu Projeto de Recomendação sobre como "Ultrapassar a Crise", o tema escolhido para este ano. Se os seus argumentos prevalecerem, qualquer um deles pode ser eleito para representar o distrito na sessão nacional.

Um dia depois da sessão distrital para o ensino básico, acontece a do secundário. O tema para os alunos do 10.º, 11.º e 12.º é pertinente: "Jovens e o emprego: que futuro?" Na Escola Profissional do Comércio, Escritórios e Serviços do Porto, Raul Dória, a preparação do Projeto de Recomendação incluiu um debate com os deputados Pedro Soares, do Bloco de Esquerda, e Luísa Apolónia, do Partido Ecologista Os Verdes. Para sedimentar as informações recolhidas nesse encontro, Joana Neto, coordenadora do projeto, garantiu ainda que as suas aulas de legislação fossem centradas no tema. Agora, com os argumentos bem estudados, resta aos deputados esperar pelo dia do debate.

Concluída esta fase de norte a sul, 120 alunos vão representar todo o país na Assembleia da República, em cada uma das duas sessões nacionais do Parlamento dos Jovens, para o ensino básico e o secundário. Os temas são escolhidos entre os participantes do ano anterior. As inscrições no projeto começaram em 2012. Basta às escolas fazer um registo online no site oficial do projeto e eleger uma professora que fique responsável pela sua coordenação.

É a quarta vez que Ana Monteiro assume esse papel. Sabe que, para conseguir o envolvimento da escola, é preciso divulgar o projeto entre os diretores de turma. "Numa primeira fase, são eles que vão trabalhar o tema com os alunos." Depois é elaborar as listas e explicar como tudo funciona. Para o conseguir, a professora recorre sempre à mesma analogia: "Costumo dizer aos alunos que pensem em cada lista como se fosse um partido político, o cabeça de lista será o presidente". Ora um partido integra vários membros, ainda que nem todos concorram à Assembleia da República. Assim acontece nas listas formadas ao nível das escolas. O processo é o mesmo tanto para o ensino básico como para o secundário.

Campanha eleitoral
A sessão escolar é a primeira etapa. É preciso organizar as listas de dez elementos e propor até três medidas sobre o tema. Este será o "programa eleitoral" de cada "partido". Formadas as listas é tempo de começar a propaganda. "Os alunos fazem coisas extraordinárias na campanha eleitoral", realça Ana Monteiro, sem esconder o entusiasmo. A predileção por esta fase também se estende ao secundário, como confirma Joana Neto: "Tivemos todo o tipo de intervenções, peças teatrais, vídeos, é fantástico ver o modo como os alunos abraçam o projeto."

Cada lista elege os deputados para a representar. No momento da tomada de posse, Ana Monteiro não poupa no cerimonial: "Arranjo um livro antigo de capa dura, que vou buscar ao arquivo, e os alunos fazem um juramento: Juro por minha honra cumprir com lealdade as funções que me são atribuídas."

A sessão escolar é o primeiro simulacro da vida parlamentar e será muito semelhante ao que se passará na sessão distrital. Apenas a escala será maior, pois aí estarão representadas todas as escolas participantes de cada distrito ou região autónoma. Os alunos dividem-se por grupos, ou seja, "comissões especializadas" e discutem os programas das listas. Na Escola Básica 2+3 Eugénio de Andrade os alunos fizeram tudo "sem os professores", elogia Ana Monteiro. "Este ano, aconteceu uma coisa muita engraçada que foi chegarem todos a acordo sobre as medidas que queriam alterar e eliminar." No final só podiam restar três.

Marcos Domigues, de 15 anos, é o líder da lista vencedora daquela escola. Por isso, é quem começa por sintetizar o teor das medidas que vai defender à sessão distrital. A começar pelo investimento no setor agrícola. Segundo o aluno, não faltam exemplos de sucesso: "Os países ricos e bem desenvolvidos têm uma boa agricultura, como os EUA e a Dinamarca, por isso não pode ser esquecida." A redução dos gastos com o funcionamento da Assembleia da República é outra das recomendações. "Certas pessoas gastam muito dinheiro desnecessário", indigna-se.

Desmontando o longo dossiê a apresentar na sessão distrital, Marcos fala ainda na necessidade de "criar incentivos ao empreendedorismo". "Apostar no que é nosso e não no que é do estrangeiro. E conseguir pôr os nossos produtos no mercado de forma a serem tão competitivos como os dos outros", insiste o aluno revelando uma preocupação latente nos adolescentes. Patrícia Machado, de 14 anos, verbaliza-a: "É preciso criar mais condições para as pessoas trabalharem cá e não terem de ir para fora."

Frequentam o 9.º ano e, em condições normais, estariam preocupados com outras coisas. Mas esta aproximação ao tema da crise deixou-os apreensivos. Patrícia fala em nome dos colegas de lista e dos restantes amigos: "Estamos preocupados, porque apesar de ainda sermos adolescentes, estamos a ver a crise e com medo do que nos vai acontecer quando formos adultos, se vamos ter de ir para fora ou se vamos conseguir arranjar emprego cá!"

Desemprego. O cenário ainda distante para Marcos e Patrícia está bem mais próximo de Débora Rajão, de 19 anos, cabeça de lista da Escola Raul Dória e finalista do curso de secretariado. Por isso, esclarece: "As medidas que vamos levar ao Parlamento basearam-se nas nossas dúvidas e medos relativamente ao futuro".

Assim, as "preocupações" determinam propostas para a criação de incentivos ao emprego, também para pessoas portadoras de deficiência. E a criação de um gabinete de apoio ao emprego em cada escola "onde os alunos pudessem entregar os seus currículos e onde o Estado e as empresas pudessem recrutar", explica Débora. Num outro plano, a "deputada" insiste na importância da redução do valor das propinas no ensino superior. "Associada à atribuição de maior número de bolsas de estudo."

Outra das medidas passa pelo "incentivo estatal na atividade pesqueira e agrícola". Diz Débora que a aposta seria criar micro e médias empresas ligadas a estes setores. E, deste modo, aumentar as oportunidades de emprego dos jovens, que, como ela, vão estar brevemente à procura do primeiro emprego. "Não só se criava emprego para trabalhar diretamente na pesca e na agricultura, como ao serem criadas empresas estaríamos a promover emprego em áreas como a da contabilidade, marketing e secretariado."

Confronto de ideias
Nas sessões distritais cada escola tem três minutos para apresentar as suas medidas. O debate que se segue é sob a forma de pergunta e resposta. E destina-se a esclarecer os deputados. É preciso analisar todas as propostas a votos e encontrar os seus pontos fracos. Depois é necessário confrontar os deputados com o modo como as vão concretizar. Algo que requer uma preparação final com a coordenadora do projeto. Como a que se realiza esta tarde na escola Eugénio de Andrade, nas vésperas da sessão distrital. "Opto por não a fazer muito antes da data senão eles esquecem tudo", confidencia Ana Monteiro.

Depois da discussão, feita por grupos (comissões), é aprovado um único Projeto de Recomendação. E redigida a "exposição de motivos": as razões que levam os deputados a apresentar aquelas medidas (quatro no máximo). É ainda feita a eleição dos representantes distritais para a sessão nacional. O voto é secreto, mas para o conseguir o deputado tem de dar nas vistas.

Ana Monteiro alerta constantemente os alunos para a utilidade das competências oratórias durante a sessão distrital. "Se forem assertivos e ativos nas comissões especializadas, os colegas acabam por os eleger porta-voz, depois criam uma certa empatia que leva aos votos. É como na política", conclui.

Perceber a política
O potencial educativo do projeto é "indiscutível", sublinha Joana Neto. Porque leva jovens de todo o país a perceber o funcionamento dos órgãos de soberania. "É um exercício de intervenção cívica fantástico e a sua mais valia é a formação para a cidadania." No rol das vantagens educacionais, Ana Monteiro inclui a oportunidade de explicar aos alunos como se aplica o método D'Hondt usado nos sistemas eleitorais na Europa dos 12.

O entusiasmo, porém, não descarta alguns senãos, como alerta Joana Neto: "É um projeto trabalhoso, obriga a muitas aulas centradas no tema". Ana Monteiro não podia estar mais de acordo. "É preciso muita preparação". Mas nada que a demova, já que é a quarta vez que a escola participa na iniciativa sob a sua coordenação. E, para o ano lá estarão.

Nos alunos do básico a vivência da experiência tem outras vantagens. "Gostamos de falar e de defender as nossas ideias", remata Patrícia que vai já na sua segunda participação. Tal como a sua coordenadora, a aluna tem bem presentes as epopeias da sessão do ano passado. Talvez por isso, seja a mais "faladora" do grupo. A única que confessa ter pensado na política como carreira: "Gostava de ser deputada, mas não ia ser como os outros, digamos, corrupta!"

Sem chegar tão longe, Débora concorda que a iniciativa é uma forma de dar a palavra a quem tem algo a dizer: "Queremos mostrar o que queremos mudar no país!" Como muitos dos jovens, a aluna confessa ter andado "um bocado afastada da política". Apenas a entrada no curso profissional de secretariado e a frequência de disciplinas ligadas ao Direito e à legislação despertaram o seu interesse pela política. A participação no Parlamento dos Jovens fez o resto. Por isso, mesmo que não consiga votos para ir até à sessão nacional, Débora dá-se por satisfeita com a experiência: "Liguei-me mais a tudo isso e sinto-me uma cidadã mais esclarecida."
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