“As tecnologias sem o professor não funcionam”

"A escola não vai mudar por decreto, mas quando os melhores professores vão buscar ferramentas, experimentam e dizem aos outros que são boas!" O repto de Carlos Fiolhais resume o debate sobre "Novas Tecnologias", promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
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Uma mãe na plateia pede a palavra. Abre-se o debate à assistência da conferência "Novas Tecnologias", inserida no ciclo Questões-Chave da Educação, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O microfone chega-lhe às mãos. Sobre as intervenções de Jeroen van Merriënboer, Secundino Correia e João Paiva, os três oradores reunidos no auditório da Faculdade de Ciências do Porto, a participante não vai colocar nenhuma questão. Quer, antes, partilhar a experiência do seu filho com a tecnologia: "Usou o tablet muito antes do lápis, por isso, o que nós chamamos de nova tecnologia para ele é a antiga. O lápis é a nova tecnologia dele."

Caneta, caderno, giz, quadro preto, acetatos, retroprojetor, vídeo, televisão, computador, portátil, quadro interativo, wireless... Certamente incompleta, a lista lembra a presença, a cada tempo, de alguma "nova" tecnologia na sala de aula. Fica em suspenso a discussão sobre o velho e o novo para as crianças. Apenas uma ideia: "Quando chegam as tecnologias novas, não precisamos de abandonar as antigas", lembra Secundino Correia, investigador na área do software inclusivo.

Quem estuda a relação das tecnologias da informação e comunicação (TIC) com a escola, diz que a discussão sobre usar ou não está ultrapassada. A pergunta mais atual a ser posta é como as usar? E existem várias respostas. Para Jeroen van Merriënboer, o uso das tecnologias em contexto educacional só é efetivo se tiver por base um "modelo de ensino holístico". Ou seja, focado na relação entre as aprendizagens e não na sua mera soma.

Especialista em design da instrução, Merriënboer concebeu um modelo para a criação de ambientes de aprendizagem multimédia. O 4C/ID estabelece que "as tarefas de aprendizagem baseadas na vida real são a força motriz para aprender". Por isso, constituem o primeiro componente de qualquer ambiente de aprendizagem multimédia. Ao qual se acrescem: a existência de informação de apoio para a resolução de problemas (como livros e materiais multimédia) e de informação processual, com instruções prévias e feedback corretivo. Por último, o modelo requer como quarto componente a prática de tarefas por partes, através de exercícios adicionais destinados à consolidação de rotinas exigindo um grau elevado de automatismo.

Cada uma destas componentes pode integrar o recurso às novas tecnologias. Durante a sua apresentação, Merriënboer resume essa ligação. Mostra que as tarefas de aprendizagem podem incluir simulações do real e a criação de portefólios. Também que o hipermédia e o multimédia (com animações e vídeo) podem ser ferramentas úteis para reunir informação de apoio aos alunos. E que o recurso a sistemas de ajuda online ou às tecnologias móveis (smartphones) facilitam o acesso à informação processual. O computador, através dos programas CBT, constitui desde logo uma mais-valia na prática de tarefas.

Do lado da produção, os designers podem ver neste modelo um contributo importante para a criação de mensagens educacionais. Mas uma outra questão se coloca: em que circunstâncias estes novos ambientes de aprendizagem são ou não desejados? A investigação futura dará seguramente várias respostas.

De portátil ou com lápis?
"Continuo a gostar imenso de uma tecnologia maravilhosa que é o papel e o lápis", confessa Secundino Correia à assistência, mas o desabafo não traduz um pessimismo tecnológico. Pelo contrário, na sala de aula equipada com computadores e quadros interativos, a aprendizagem é mais fácil, defende o coautor e tradutor de software educativo. No entanto, "as novas e velhas tecnologias podem e devem conviver na sala de aula", alerta.

Ainda assim, João Paiva, professor na secção de educação do Departamento de Química, da Universidade do Porto, reconhece: "Há pessoas excessivamente reativas às TIC." "Muitos desconfiam do seu potencial educativo." Aos professores assusta o "copy/paste desonesto", escreve o orador na comunicação presente no livro editado a propósito das conferências. Ao ponto de persistirem os reptos: "Vão fazer este trabalho mas não usam a Internet". Mas a questão fundamental, alerta João Paiva, "não é não usar", antes "usar bem".

Ao abordar as novas tecnologias é incontornável uma reflexão sobre o Plano Tecnológico da Educação (PTE). Que elevou Portugal ao topo dos países com maior número de computadores por aluno. Da escalada nos rankings internacionais ao fim do programa que levou à distribuição massiva de portáteis às crianças do 1.º ciclo do ensino básico, há muita análise a ser feita. Secundino Correia aponta uma questão por esclarecer: "O que se fez com os 400 mil computadores Magalhães distribuídos?" A resposta será conhecida com a publicação do estudo "Navegando com o Magalhães", sobre a iniciativa e. escolinha, em curso na Universidade do Minho.

O entusiasmo com o uso da tecnologia na sala de aula é, muitas vezes, acompanhado pela ideia de que só ela poderá preparar as crianças para a vida adulta. Secundino Correia discorda desta última premissa: "A escola preocupa-se muito em preparar para o futuro, mas a preocupação deve ser em resolver os problemas que os alunos têm no momento." A sua proposta é uma mudança no paradigma. "E se educássemos as crianças para as suas necessidades reais e presentes?"

Numa sociedade em constante mutação, muitos pensadores questionam como será a vida adulta das crianças e jovens de hoje e qual a melhor forma de as educar para os seus desafios. A questão é colocada a João Paiva: "No ensino superior aconselha os alunos a seguir uma especialização ou uma formação de banda larga?" O investigador responde: "Tenho filhos nessa idade e aconselhei-os a optar por uma formação de banda larga que cultive o gosto por conhecer para além da utilidade." Secundino Correia concorda. Pensando nos mais novos questiona: "Preparar para uma profissão para daqui a 15 anos? Quem sabe que profissões vão ser essas?"

Carlos Fiolhais, cientista e organizador das conferências "Questões-Chave da Educação", é chamado a intervir no debate. "Vi surgir os computadores, depois vagas sucessivas de tecnologias e sempre tentei apoderar-me de cada novidade. Falava-se em realidade virtual e lá ia eu com os alunos ver o que era. Falava-se em tecnologia móvel e lá estava eu com os alunos novamente..."

Com mais de 30 anos a dar aulas, confidencia à assistência: "A conclusão a que este modesto professor chegou é que nunca encontrou soluções completas para problemas que continuam a existir. Às vezes há uma ajuda. Mas as tecnologias sem o professor não funcionam". O público concorda, ouvem-se fortes aplausos.
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