“Se o MEC nos quer transformar em autómatos, esta proposta facilita”

Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática (APM), critica a mecanização de procedimentos e rotinas sem compreensão do novo programa da disciplina.
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A Associação de Professores de Matemática (APM) contesta o novo programa da disciplina que está em discussão pública até 23 de maio. Lurdes Figueiral, presidente da APM, professora de Matemática na Escola Artística Soares do Reis, no Porto, explica ao EDUCARE.PT quais as razões da discórdia. Insistir na memorização assente em procedimentos mecânicos e não contextualizados, sem a componente de compreensão, é a base da contestação.

A APM prepara o parecer que reunirá a sua posição quanto ao novo programa, alertando para a desvalorização de tópicos matemáticos, para a prescrição de desempenhos fragmentados, para percursos curriculares únicos que limitam a flexibilidade. Para Lurdes Figueiral, o programa "vai dificultar muito a tarefa daqueles professores que acreditam que os alunos não devem ser treinados mas educados, capazes de atingir níveis cognitivos mais elevados, capazes de compreender em todos os níveis etários, capazes de criticar, de conjeturar, de propor, de comunicar".

EDUCARE.PT (E): A APM tem contestado duramente o novo programa de Matemática. Quais as piores notícias em relação a esta matéria?
Lurdes Figueiral (LF): São de três ordens. Em relação aos conteúdos programáticos que, face ao programa em vigor, incluem inapropriadamente tópicos matemáticos e excluem ou desvalorizam outros que consideramos relevantes. Há também alterações de ciclos onde certos tópicos estão propostos, alterações inadequadas ao nível etário dos alunos, e que revelam o esvaziamento das capacidades transversais (resolução de problemas, comunicação e raciocínio matemáticos).

Também nos merece a mais completa reprovação a perspetiva pedagógica e didática com a adoção de abordagens e ênfases no ensino que consubstanciam um enorme retrocesso, privilegiando a mecanização de procedimentos e rotinas e os aspetos mais formais da Matemática, menorizando aprendizagens de maior exigência cognitiva, prescrevendo desempenhos fragmentados numa lógica de "pedagogia por objetivos" há muito abandonada.

Finalmente, a estrutura e lógica global traduzida numa profunda rigidez do programa agora apresentado, já que estabelece percursos curriculares anuais únicos limitando a flexibilidade na gestão do programa, necessária à sua adequação às características e trajetórias escolares dos alunos,  define uma grande quantidade de micro-objetivos para cada tópico matemático que atomizam e compartimentam as aprendizagens, dificultando uma aprendizagem matemática articulada e integrada. Em muitos casos, os objetivos formulados determinam abordagens metodológicas desadequadas à aprendizagem dos tópicos em questão.

"A memória, tão importante para a aprendizagem, é estimulada se a aprendizagem for feita com compreensão. Insistir na memorização baseada em procedimentos mecânicos, não contextualizados, sem que haja compreensão, é a nossa forte contestação."


E: A APM tem alertado que o novo currículo assenta na memorização em detrimento da compreensão dos alunos. O que poderá acontecer? Quais as consequências para os alunos?
LF: A APM não se tem referido tanto à memorização - em relação à qual não se opõe - mas sim a um certo tipo de "memorização" acrítica. Mas ao que mais nos opomos, neste programa agora apresentado e às metas curriculares que o complementam, é à mecanização de procedimentos e rotinas sem compreensão. Mesmo a memória, tão importante para a aprendizagem, é estimulada se a aprendizagem for feita com compreensão. Insistir na memorização baseada em procedimentos mecânicos, não contextualizados, sem que haja compreensão, é a nossa forte contestação.

E: O que quer dizer, em concreto, com "dirigismo absoluto" que o novo programa implicará?
FG: Bom, o programa agora apresentado é dirigista, no sentido de ser um programa rígido, quer nos conteúdos quer nas metodologias como referi. Não será "absoluto" como talvez tenha referido numa resposta verbal e em direto, utilizando uma força de expressão. Mas isso só se deve ao facto de os professores serem autónomos (não porque este programa - ou outro - lhes dê autonomia). São autónomos enquanto se recusarem a ser autómatos e a transformar os alunos em autómatos. São autónomos porque estão preparados - serão porventura um dos corpos profissionais mais preparados - e são capazes de tomar decisões, de optar.

Como eu digo, não há um bom programa que faça um bom professor, nem um mau que o perverta. O que há são condições que favorecem e outras que dificultam o exercício de um ensino que seja capaz de produzir aprendizagens mais significativas e relevantes.

"Uma aprendizagem com compreensão é mais adequada à natureza da própria Matemática e atividade matemática, é mais transferível a outras situações ou momentos de aprendizagem (matemáticas ou não), é mais durável, envolve mais os alunos..."


E: Até que ponto os alunos serão prejudicados com as alterações no ensino da Matemática?
LF: Este programa que agora se apresenta é, em nosso entender, um mau programa que vai dificultar muito a tarefa daqueles professores que acreditam que os alunos não devem ser treinados mas educados, capazes de atingir níveis cognitivos mais elevados, capazes de compreender em todos os níveis etários, capazes de criticar, de conjeturar, de propor, de comunicar. Essas capacidades que os estudos internos e internacionais concluem que os nossos alunos ainda não atingem de forma satisfatória, como a compreensão ou a capacidade de resolver problemas.

Uma aprendizagem com compreensão é mais adequada à natureza da própria Matemática e atividade matemática, é mais transferível a outras situações ou momentos de aprendizagem (matemáticas ou não), é mais durável, envolve mais os alunos...

E: As máquinas de calcular poderão desaparecer das salas de aula. Concorda que assim seja?
LF: Se é verdade que o programa agora apresentado dá tanta liberdade metodológica, não sei porque hão-de desaparecer! Elas podem e devem continuar a ser usadas com as mesmas indicações que o Programa de Matemática do Ensino Básico (PMEB) ainda em vigor propõe: "Ao longo de todos os ciclos, os alunos devem usar calculadoras e computadores na realização de cálculos complexos, na representação de informação e na representação de objetos geométricos. O seu uso é particularmente importante na resolução de problemas e na exploração de situações, casos em que os cálculos e os procedimentos de rotina não constituem objetivo prioritário de aprendizagem, e a atenção se deve centrar nas condições da situação, nas estratégias de resolução e na interpretação e avaliação dos resultados. A calculadora e o computador não devem ser usados para a realização de cálculos imediatos ou em substituição de cálculo mental".

Como se pode ver o argumento de que os alunos não sabem fazer contas, porque nas aulas de Matemática utilizam a calculadora para o fazer, não corresponde em nada às indicações do PMEB em vigor que, aliás, dá grande ênfase ao desenvolvimento do cálculo mental o que não acontece com o programa agora em discussão.

"Imagino este cenário: professores com mais horas de trabalho, mais turmas, mais alunos por turma, incremento de trabalho burocrático... O que este programa facilita é que o professor, paralisado com estes condicionalismos, se limite a debitar matéria ao ritmo daquelas prescrições que o programa em discussão agora impõe. "


E: O ministro Nuno Crato garante que o novo programa terá uma estrutura curricular sequencial. Essa continuidade está, de facto, assegurada?
LF: Se se refere à continuidade interna ao próprio programa, agora apresentado, acredito que sim. O problema é continuidade em direção a quê, a caminhar para onde, com que objetivos. Penso que um dos aspetos dessa continuidade, de que pouca gente se terá já dado conta, é que desde o 1.º ano os alunos são colocados no "domínio de conteúdos", Geometria e Medida, por exemplo, numa perspetiva de formalismo e abstração que vai desembocar, no 9.º ano, numa abordagem axiomática da Geometria. Aliás, o tratamento da Geometria neste programa agora apresentado consubstancia, em meu entender, uma das alterações mais radicais, retrógradas e nefastas desta proposta.

E: A tutela assegura que o programa facilitará a tarefa dos professores. Em que medida isso acontecerá?
LF: Imagino este cenário: professores com mais horas de trabalho, mais turmas, mais alunos por turma, incremento de trabalho burocrático... O que este programa facilita é que o professor, paralisado com estes condicionalismos, se limite a debitar matéria ao ritmo daquelas prescrições que o programa em discussão agora impõe. Repito, se o MEC nos quer transformar em autómatos, esta proposta de facto facilita...

E: Quais as contribuições que a APM enviará ao Ministério no âmbito do processo de consulta pública que decorre até 23 de maio?
LF: A Direção da APM continuará a divulgar publicamente uma posição de profunda discordância com o programa agora apresentado e enviará ao MEC um parecer, aprofundando as críticas que tem vindo a fazer às metas curriculares para as quais o programa remete e que se prendem com as três ordens de razões que referi.

E: Se a APM não ficar satisfeita com a versão final do programa pondera avançar para a justiça?
LF: A APM já avançou para a justiça. A queixa para o provedor de justiça que pede a anulação do despacho que revoga o atual PMEB já foi entregue.

E: Afirmou ao EDUCARE.PT que "Nuno Crato sempre foi contra a educação para todos". Em que motivos assenta a sua declaração?
LF: É difícil reconhecer-me nessa afirmação. Não terá sido feita em termos absolutos, presumo. O que eu penso sobre Nuno Crato e a educação para todos é que ele desconhece o que isso implica na escola e na sala de aula. Nuno Crato e a equipa que elaborou o programa em discussão e as metas curriculares desconhecem profundamente a realidade do ensino básico depois da democratização e generalização do ensino neste ciclo de educação. Não percebe que os alunos com que trabalhamos hoje nas escolas têm uma multiplicidade de formas de aprender que torna muito difícil a gestão do ensino. O que não acontece, de todo, é que os alunos - a maior parte deles - consigam aprender como se aprendia nos liceus de antes. E, às vezes parece-me que é o que Nuno Crato pensa. Mesmo para aqueles que o conseguem, dá pena o desperdício que esta proposta configura, porque esses conseguem muito melhor se implicarmos na sua aprendizagem outras capacidades agora desvalorizadas.

E: A educação, neste momento, está no bom caminho? O que está bem e o que está mal?
LF: A educação é sempre um desafio difícil, nunca bem resolvido, um caminho longo para que dê frutos consistentes. Desde a aprovação unânime da Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) em 1986 (sendo primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva e ministro da Educação Roberto Carneiro) tem havido um percurso continuado de consolidação de uma educação para todos. O caminho tem-se vindo a fazer com dificuldades e com erros, sem dúvida, mas com um grande investimento - de todas as ordens - e um envolvimento que sempre se pautou pela clareza e lealdade por parte de todos os intervenientes, numa progressão que até agora resistiu às cores partidárias que passaram pelos diversos governos. E que estava a dar frutos em muitas frentes, sendo a aprendizagem da Matemática uma delas, embora outras ainda estejam longe de atingir um formato e uma implementação satisfatória, como o ensino de carácter profissionalizante, por exemplo.

"Nuno Crato e a equipa que elaborou o programa em discussão e as metas curriculares desconhecem profundamente a realidade do ensino básico depois da democratização e generalização do ensino neste ciclo de educação."


O que a atual equipa ministerial tem vindo a fazer em matéria de educação é um retrocesso naqueles âmbitos em que estávamos a progredir, ultrapassando todos os limites do respeito pelo diálogo, pelo trabalho e pelo investimento feito, nomeadamente dos professores, das escolas e do erário público. Muito haveria que denunciar de um conjunto de medidas educativas que, ao abrigo da concentração permanente das atenções na crise económica, vão aparecendo com calendários e temporizações já de si significativas e com objetivos auto-compreensíveis: privilegiar as escolas com "bons resultados", reduzir esses "bons resultados" ao que é quantificável fazendo crer que isto é rigor, medir esses resultados obsessivamente através de provas externas e transformar a educação num treino para prestação de provas.

E: Continua a valer a pena ser professor hoje em dia?
LF: Ser professora sempre foi o meu sonho, a minha vocação. Ainda antes da idade escolar gostava de "ensinar" as minhas bonecas que sentava viradas para mim e para um quadro imaginário e a quem eu dava aulas... Sempre foi o meu investimento formativo, formal e não formal.

Hoje é duro ser professor. Cada vez mais duro. Mas as convicções, as causas em que acreditamos, põem-se à prova em tempos sombrios como os que vivemos. Para mim, quando as situações se tornam muito opacas, penso antes de mais nos alunos, em cada geração de alunos que por nós passa, cada ano única, cada ano irrepetível. E retempero-me na poesia - como a de Sophia, por exemplo - nos grandes mestres da resistência intelectual e anímica. De todos os tempos. Releio aqueles autores que me são referência, revisito as ideias poderosas que nos mantêm vigilantes, uno-me mais àqueles com quem partilho estas ideias, estas convicções.

Gosto de me rever neste extrato de George Steiner retirado de "As Lições dos Mestres": "A aura carismática do professor inspirado, o romance da persona no ato pedagógico, perdurarão certamente [bem como] a sede de conhecimento, a necessidade profunda de compreender, que estão inscritas no melhor dos homens e das mulheres. Tal como a vocação do professor. Não há ofício mais privilegiado".

"Este programa que agora se apresenta é, em nosso entender, um mau programa que vai dificultar muito a tarefa daqueles professores que acreditam que os alunos não devem ser treinados mas educados, capazes de atingir níveis cognitivos mais elevados, capazes de compreender em todos os níveis etários, capazes de criticar, de conjeturar, de propor, de comunicar."
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