E depois do secundário?

Quem são os alunos que terminam o ensino secundário, que expetativas determinam a escolha da área de formação ou a procura de trabalho? As respostas surgem no inquérito Estudantes à Saída do Secundário, divulgado pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência.
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A maioria dos alunos que termina o ensino secundário (71,2%) quer continuar a estudar. Depois da escolaridade obrigatória, o sistema educativo português oferece várias modalidades de ensino. Ainda assim, a universidade continua a ser a opção mais desejada para 79,8% dos finalistas.

Estes e outros dados constam do último inquérito Estudantes à Saída do Secundário, divulgado pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. Os questionários foram aplicados entre março e julho de 2012, a cerca de 47 mil alunos, de um universo de 78 mil, inscritos em 680 escolas públicas e privadas.

Não largar os livros
O alargamento do ensino obrigatório tem trazido alguma preocupação em perceber quais as aspirações escolares e profissionais dos alunos após a conclusão do 12.º ano. O estudo revela que 69% dos jovens com idade igual ou inferior aos 17 anos se dedica exclusivamente aos estudos. E no caso dos que trabalham, a profissão exercida não é a que desejam ter no futuro.

Outros dados confirmam a dificuldade das escolas em romper certas tendências que se repetem nas estatísticas da educação. A condição socioeconómica das famílias e a escolaridade dos pais permanece determinante quer no sucesso escolar dos alunos quer nas suas decisões sobre a escolha do curso a seguir ou a profissão a desempenhar.

Há uma série de decisões a tomar quanto ao futuro no final do ensino secundário. Entre elas o largar ou não os livros. Cerca de 71,2% dos alunos escolhe continuar, enquanto 15,9% opta por deixar os estudos. Apenas 1,1 % pensa em abandonar a escola sem o 12.º ano e 11,7% não sabe ainda o que fazer.

Na verdade, o percurso escolar pós-secundário é quase definido quando os alunos optam no 10.º ano por modalidades de ensino mais orientadas para o prosseguimento de estudos, como os cursos científico-humanísticos (CCH), ou o mercado de trabalho, exemplo dos cursos profissionalmente qualificantes (CPQ). Por isso, não é de estranhar que 88,8% dos alunos que frequentam os CCH e apenas 40% dos colegas do profissional queiram continuar a estudar. O oposto acontece quando a decisão é a de terminar o 12.º ano e ingressar no mercado de trabalho, com 36,9% dos alunos dos cursos profissionais face a 4,2% dos colegas da via geral a considerar essa opção.

No que respeita à natureza do estabelecimento de ensino, o estudo conclui que 76,1 % dos alunos que querem prosseguir estudos estão matriculados em escolas públicas e apenas 12,8% diz não querer. No ensino privado a percentagem dos que não querem prosseguir estudos sobe para os 26,3%; já a dos que continuam o seu percurso escolar baixa para os 55,1%.  

Assim, no total de inquiridos, 15,9% de alunos confirmou o desejo de querer deixar os estudos após o fim da escolaridade obrigatória. As razões para tal decisão estão, em 54.4% dos casos, relacionadas com a vontade de arranjar trabalho para ter o próprio dinheiro; mas também com dificuldades económicas (30,4%) e a falta de gosto por estudar (30,4%). Um menor, mas relevante número de alunos (18,3%), justifica a decisão de deixar de estudar por considerar difícil entrar no ensino superior.

Estudar - o quê?

Poucos são os que arriscam o mercado de trabalho no final do 12.º ano. Por isso, importa saber que tipo de estudos pós-secundários despertam maior interesse? A universidade continua a ser, sem margem para dúvidas, a meta estipulada por 79,8% dos inquiridos. Muito devido às próprias características desta modalidade de ensino, são os alunos dos cursos profissionalmente qualificantes que menos optam pela via universitária (60,5% face a 84,7% provenientes dos cursos científicos). No segundo lugar das preferências e constituindo uma alternativa à universidade surge o ensino politécnico. Uma opção para 8,3% dos alunos. Em ambos os casos, as áreas de formação mais procuradas são "direito, ciências sociais e serviços" (20,2%), "tecnologias" (19,9%) e "saúde" (19,6%).

A formação especializada não superior, que diz respeito aos cursos de especialização tecnológica (CET) e aos cursos de educação e formação (CEF) de tipo 7 (ver caixa), é a menos procurada. Apenas 3,1% dos alunos que concluem o ensino secundário optam por esta via. Ainda assim, quem investe num curso não superior procura áreas como a dos "serviços" (20,5%), as "ciências sociais, comércio e direito" (12,8%) e a "engenharia, indústrias transformadoras e construção" (12%).    

Analisando as diferenças por modalidade de ensino, constata-se que os alunos que provêm dos cursos tecnológicos são os que mais tendem para os "serviços" (50%); os que completam estudos secundários nos CEF voltam-se para a "agricultura" (66,7%) e a "engenharia, indústrias transformadoras e construção" (33,3%). Os alunos provenientes dos cursos profissionais optam preferencialmente pelas áreas dos "serviços" (23,3%), "engenharia, indústrias transformadoras e construção" (18,8%), "ciências" (14,6%) e "ciências sociais, comércio e direito" (14,6%).

Na hora de decidir

Questões como a empregabilidade pesam na hora de decidir por um curso ou uma área de formação. Mas numa altura em que o futuro nunca pareceu tão incerto, outros fatores determinam as escolhas. Assim, 48,5% dos alunos optam por estudar matérias que lhe permitam alcançar a profissão que desejam; 39,3% escolhem o que gostam de estudar; 30,1% privilegiam áreas pelas oportunidades de emprego que podem gerar.

No entanto, o estudo revela algumas diferenças quando comparadas as razões apontadas por alunos provenientes dos cursos científico humanísticos e dos profissionais. Os primeiros tendem mais a escolher o curso que acreditam poder levá-los a desempenhar a profissão que desejam (50,2% face a 41,7%), o que gostam de estudar (40,5% face a 34,4%) e as áreas com boas oportunidades de emprego (30,6% face a 28,0%).

Quem frequenta cursos profissionalmente qualificantes valoriza mais a qualidade (27,8% face a 23,3%) e o prestígio da formação (19,7% face a 12,7%). Com exceção dos alunos do ensino artístico especializado, que respondem escolher o curso pelo facto de ser o que mais gostavam de estudar, para as restantes modalidades de ensino a opção baseou-se, sobretudo, nas possibilidades que o curso dá para desempenhar a profissão desejada.

Onde estarei aos 30 anos?

As expectativas profissionais dos alunos das diferentes modalidades de ensino aumentaram em comparação com os dados do questionário aplicado em 2009-2010. Com um maior número de estudantes a considerar vir a desempenhar profissões intelectuais, científicas e de técnicas de nível intermédio.

Apesar de os alunos escolherem a área de formação ou o curso tendo em conta a possibilidade de poder vir a desempenhar a profissão que desejam, cerca de metade dos inquiridos (48,5%) não sabe ao certo o que estará a fazer aos 30 anos.

Dos que já definiram as suas expectativas profissionais, 30,9% considera vir a ter uma profissão no grupo dos "especialistas das profissões intelectuais e científicas", 9,8% pretende vir a desempenhar uma profissão inserida no grupo dos "técnicos e profissionais de nível intermédio". Apenas 4,8% aspira poder inserir-se nos "quadros superiores da Administração Pública, dirigentes e quadros superiores de empresas", 4,0% no grupo de "pessoal administrativo e similares ou pessoal dos serviços e vendedores" e 2,0% aponta "outras profissões".

Entre os alunos oriundos de famílias com menos escolaridade há maior preferência por profissões integradas em grupos profissionais menos prestigiados, como os "técnicos e profissionais de nível intermédio" e "pessoal administrativo e similares ou pessoal dos serviços e vendedores". O mesmo acontece aos alunos com percursos escolares mais acidentados.

Estes dados mostram, sobretudo, que persiste a dificuldade no quebrar das tendências. As condições socioeconómicas da família e as habilitações escolares dos pais são fatores que continuam a influenciar as expetativas escolares e profissionais dos estudantes. Desigualdades que a escola parece não conseguir travar.
Escola não atenua desigualdades entre famílias

Há barreiras difíceis de romper. Os alunos de famílias desfavorecidas economicamente e com baixa escolaridade continuam a ter percursos escolares mais acidentados que os colegas. Com base em dados fornecidos pelo estudo, o EDUCARE.PT traçou os perfis dos alunos que após o ensino secundário optam por continuar ou deixar de estudar e dos que tendem a abandonar a escola antes de completar o 12.º ano.

Aluno que segue estudos superiores: termina o ensino secundário num curso científico-humanístico, numa escola pública, é do sexo feminino, oriundo de uma família com nível de escolaridade superior, sendo os pais profissionais técnicos e de enquadramento, e tem uma média global entre os 15-20, sem nunca ter reprovado no ensino secundário.

Aluno que pensa acabar o 12.º ano e deixar de estudar: termina o ensino secundário num curso profissionalmente qualificante, é do sexo masculino, oriundo de uma família com nível de escolaridade igual ou inferior ao 1.º ciclo do ensino básico, sendo os pais operários, e tem uma média global entre os 10-14, com três ou mais reprovações no secundário.

Aluno que pensa em sair antes de acabar o 12.º ano: termina o ensino secundário num curso profissionalmente qualificante, é do sexo masculino, oriundo de uma família com nível de escolaridade igual ou inferior ai 1.º ciclo do ensino básico, sendo os pais operários, e tem uma média entre os 10-14, com três ou mais reprovações no ensino secundário.

GLOSSÁRIO

Cursos científico-humanísticos

Correspondem a diferentes domínios do conhecimento e têm como objetivo principal a preparação para continuar os estudos no Ensino Superior. Conferem um diploma de Ensino Secundário (12º ano), bem como o nível 3 de qualificação do Quadro Nacional de Qualificações (QNQ). Dividem-se em quatro áreas: Línguas e Humanidades, Artes Visuais, Ciências Socioeconómicas, Ciências e Tecnologias.

Cursos profissionalmente qualificantes

Designação global onde se inserem quatro modalidades de cursos: tecnológicos, de ensino artístico especializado, de educação e formação e profissionais. 

Cursos de ensino superior

Modalidade dividida em ensino universitário e politécnico.

Curso de especialização tecnológica (CET)

É uma formação pós-secundária não superior que visa conferir qualificação do nível 5, que define os níveis de qualificação de acordo com o Quadro Nacional de Qualificações (QNQ), sendo que a aprovação num CET confere um diploma de especialização tecnológica. Estes cursos são ministrados em estabelecimentos de ensino não superior.

Cursos de educação e formação (CEF) de tipo 7

Permitem concluir a escolaridade obrigatória e são orientados, para prosseguir estudos ou ingressar no mercado de trabalho. Cada curso corresponde a uma etapa de educação/formação (desde o Tipo 1 ao Tipo 7) cujo acesso está relacionado com o nível de habilitação escolar e profissional que já alcançaste. Conferem certificação escolar e profissional.

fontes: Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional, Direção-Geral do Ensino Superior

Sites de interesse:

Direção-Geral do Ensino Superior
http://www.dges.mctes.pt/DGES/pt
Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional
http://www.anqep.gov.pt/default.aspx?access=1
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