"A escola tem de preparar os alunos para serem competentes na sociedade"

João Paulo Mineiro foi o vencedor do Prémio de Mérito Liderança, atribuído pelo Ministério da Educação em 2009. Diretor da Escola Secundária com 3.º ciclo Quinta das Palmeiras, na Covilhã, é um homem difícil de "apanhar" para uma entrevista.
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O sentimento de que numa escola "há sempre mais e mais para fazer" leva João Paulo Mineiro, vencedor do Prémio de Mérito Liderança do Ministério da Educação (ME), a multiplicar-se para dar resposta às necessidades inerentes à gestão de um estabelecimento de ensino muito galardoado. À porta da sala dos professores, alguns docentes, com uma gargalhada, avisam quem vai perguntando pelo diretor da Escola Secundária com 3.º ciclo Quinta das Palmeiras que "é preciso tirar senha" para poder falar com ele.

Nas paredes que antecedem a sala do Conselho Diretivo estão emoldurados diplomas de primeiros lugares e menções honrosas obtidos pelos alunos nos Jogos de Cidadania, Aventura do Conhecimento, Olimpíadas de Matemática, entre outros. Mas também algumas missivas do ME e da Câmara Municipal elogiando a escola pelo envolvimento em projetos e atividades de desenvolvimento local. A escola, que tem por hábito chamar os pais dos alunos para dar aulas livres e palestras, foi alvo de avaliação externa, na fase piloto (2005-2006), e obteve classificação de "Muito Bom" em todos os domínios avaliados. João Paulo Mineiro, o líder de todo este trabalho, é também um dos coautores do recente livro Escolas de Futuro: 130 Boas Práticas de Escolas Portuguesas, elaborado pela associação Empresários pela Inclusão Social (EPIS).

EDUCARE.PT: A Escola Secundária Quinta das Palmeiras foi avaliada pelo ME numa fase piloto e obteve uma classificação de "Muito Bom"... como descreve esta escola?
João Paulo Mineiro (JPM):
É uma escola dinâmica que assenta a sua ação educativa, acima de tudo, no paradigma humano e centra toda a aprendizagem na pessoa do aluno. Tentamos que o aluno se sinta bem, feliz e motivado para a vida. A partir daí, apostamos na qualidade das aprendizagens. Esta é a nossa perspetiva de escola.

E: Pode-se dizer que o ponto de viragem que levou esta escola a ser hoje uma das mais conceituadas do país foi a assinatura do contrato de autonomia em 2006 ou é abusiva esta interpretação?
JPM:
Não. O contrato de autonomia foi o culminar de um percurso que já vinha sendo construído ao longo destes últimos anos. Foi o reconhecimento de uma certa maturidade que a escola atingiu nos seus processos e dinâmicas e que nos veio dar alguma flexibilidade para atuar em pontos que considerávamos necessários.

E: Que vantagens trouxe para a escola?
JPM:
Trouxe vantagens ao nível da flexibilidade curricular, da organização interna em departamentos, das estratégias de apoio educativo, na atribuição do número de horas e na construção de um centro tecnológico, onde claramente se aposta nas novas tecnologias em prol da educação e da qualidade das aprendizagens. De uma maneira geral, foi uma mais-valia para a escola. Contribuiu também para uma tomada de consciência por parte de todos que determinados processos que se poderiam constituir como obstáculos poderiam ser ultrapassados com um contrato de autonomia. Só para dar um exemplo, torna-se mais fácil contratar um professor, desde que não colida com os normativos; já no que diz respeito à liberdade pedagógica pode ser feita muita coisa.

No entanto, para se partir para um contrato de autonomia há que ter um conhecimento profundo da escola, para assim se identificarem as áreas fortes e as que carecem de melhorias. E, então, delinearem-se estratégias em função das necessidades e objetivos da própria escola.

E: Da leitura do manual da EPIS fica bem marcada a ideia de que o sucesso ou insucesso da sua missão educativa uma escola depende de uma liderança forte personificada no diretor do estabelecimento de ensino... Concorda?
JPM:
O livro foi conceptualizado a pensar que todas as escolas podem ser escolas de sucesso, sempre na perspetiva de construir um ensino de melhor qualidade em todas e não apenas em algumas. Quer a liderança de topo quer as intermédias são fundamentais numa organização. Costumo dizer, citando Saint-Exupéry, que "é com o coração que vemos claramente, o que é essencial é invisível aos nossos olhos". Daí que o sucesso ou insucesso dependa um pouco da sensibilidade do líder e da forma como vê e sente a organização e como lida com todos aqueles que trabalham nela. Portanto, acredito que uma liderança forte torne uma escola claramente mais forte.

E: Sente saudades de dar aulas?
JPM:
Tenho a sorte de ter prazer em trabalhar tanto na função de diretor a gerir a escola como sendo professor. Dei aulas até 1997 e ainda hoje, ao longo do ano, dou aulas de substituição e, em alguns módulos, vou coadjuvar os meus colegas em sala de aula ou em laboratório. Portanto, quando deixar de ser diretor regressarei, com gosto, ao papel de professor de Biologia.

E: Face à sua experiência como docente e diretor, quais são os pontos fortes e os pontos fracos do sistema educativo português?
JPM:
As organizações com elevado desempenho não dependem de um grande líder carismático, mas da construção de uma organização visionária que possa perdurar para além do líder. E aí é que as nossas escolas...
Se há uma associação entre liderança forte, escola de sucesso, o contrário também é verdade. Depois temos de apostar cada vez mais na qualidade das aprendizagens, nas competências adquiridas pelos alunos, na organização da escola e também na forma como se gerem os processos: do diretor para com os professores, pessoal não docente, pais e restantes técnicos; e ainda os processos entre professores e alunos.

E: Mas esse é um dos pontos fracos do sistema que se pode transformar num ponto forte...
JPM:
Penso que sim. Na minha experiência, conhecendo bem a pessoa do aluno e o seu ponto de partida, podemos conceptualizar estratégias que vão ao encontro das suas necessidades. Não podemos partir do pressuposto de que estão todos no mesmo nível. O grau de construção de determinadas aprendizagens depende muito de aluno para aluno. E uma escola para todos é uma escola que respeita a individualidade e parte da situação de cada aluno para uma aprendizagem mais reforçada e de maior qualidade. Daí que seja extremamente importante que a organização conheça bem os seus alunos e quem nela trabalha.

E: "Esta não é a escola dos bons alunos, é a escola onde se fazem bons alunos" É uma frase de uma aluna e foi recolhida no vídeo institucional feito pelo ME sobre a vossa escola. Quer comentar?
JPM:
Esta escola faz com que todos participem ativamente na sua própria vida, no seu dia a dia. Daí a corresponsabilização de todos e a participação democrática dos alunos no próprio processo de ensino-aprendizagem para que também eles tomem consciência do esforço que a escola faz, ou seja, daquilo que é necessário e do trabalho que é realizado para que eles tenham sucesso. É isso que eu acho ser extremamente interessante e importante. Isto é, fazer com que o aluno faça efetivamente parte ativa da vida da escola e não deixar que ele tenha apenas um papel secundário, como tantas vezes acontece.

E: É isso que faz falta nas escolas portuguesas?
JPM:
Sim, o aluno tem de se sentir no centro da aprendizagem. Eu até costumo dizer que cada aluno é responsável pela sua própria aprendizagem, de forma a obrigar o aluno a pensar sobre o seu pensamento, a sua construção da aprendizagem e assim alicerçar melhor as competências que vai adquirindo.

E: Mais uma vez, no vídeo do ME é várias vezes mencionada por alguns docentes entrevistados uma preocupação de a escola ir ao encontro quer das dificuldades dos alunos, quer das suas potencialidades...
JPM:
Tentamos construir uma escola que potencie ao máximo cada aluno. E quando digo potenciar não é apenas centrar todas as atenções, como lhes é justo, nos alunos com grandes dificuldades, mas também não esquecer os alunos que, apesar do sucesso, querem ir mais além. As escolas também têm de dar atenção aos alunos cujo potencial permite atingir outros níveis de aprendizagem e de competências. Não se podem nivelar esses alunos pela média.

E: Nunca se falou tanto sobre os fenómenos de desilusão e desinteresse dos jovens pela escola. Que leitura faz deste tipo de atitude face à escola?
JPM:
É verdade que muitos estudos apontam para um crescente desinteresse dos alunos pela escola e isso preocupa-me. Acima de tudo, a escola deve preparar os alunos para a vida, com competências científicas e também sociais. Mas a função da escola é ensinar e a dos alunos é aprender. Dizer-se que estudar não dá trabalho e é coisa fácil, é mentira! Estudar exige esforço e dedicação. E os alunos têm de ter a consciência de que é assim. Se um aluno estiver motivado e se sentir feliz na escola tem grandes possibilidades de ter sucesso na sua aprendizagem. Mas fazer com que um aluno se sinta bem na escola não impede que se seja exigente com ele ao nível do conhecimento científico. Uma coisa não pode ser dissociada da outra.

E: Mas há alunos que simplesmente não gostam de estudar...
JPM:
A escola tem de preparar os alunos para serem competentes na sociedade. Os percursos de aprendizagem escolhidos têm de ir ao encontro de uma realização pessoal e, simultaneamente, de qualidade. À escola cabe também aconselhar e orientar o aluno para percursos alternativos tendo em vista o sucesso desta pessoa na vida. E ter sucesso significa dominar competências que lhe permitam enquanto cidadão ter um papel ativo e de qualidade na sociedade em que está inserido. É nesta procura do percurso mais adequado que a escola deve apostar. E não simplesmente constatar que o aluno não gosta de estudar. A escola precisa de questionar: Não gosta de estudar o quê? Este currículo? Ou o modo como ele é apresentado? Não se identifica com este percurso, então que respostas lhe podem dar?

A escola pode ajudar a traçar um percurso dentro da diversidade que vá ao encontro da individualidade da pessoa do aluno. Sem nunca colocar de parte a qualidade da aprendizagem. Contribuir para que um aluno tenha sucesso na vida não é mais do que encontrar o percurso certo para a pessoa certa, encontrando estratégias que motivem o aluno. E motivar significa emocionar o aluno, fazer com que tenha uma visão otimista do percurso que lhe é proposto e da vida que através dele poderá ter no futuro.

E: Falando em exigência, a avaliação do desempenho docente poderá elevar as competências dos professores?
JPM:
Qualquer tipo de avaliação, seja de professores ou de alunos, na minha ótica, é vista na perspetiva de tornar as pessoas cada vez melhores. Sempre vi a avaliação num contexto formativo para que cada um tenha um feedback do seu desempenho e o possa melhorar. Não vejo a avaliação como algo penalizador.

E: Qual a sua impressão geral sobre o estado da escola pública portuguesa?
JPM:
Tenho uma visão muito otimista. A qualidade tem vindo a aumentar e estou convicto que num futuro próximo vamos ter mais sucesso educativo.

E: No prefácio do manual Escolas de Futuro, Diogo Simões Pereira, diretor-geral da EPIS, lança uma pergunta algo retórica: "Está alguém a sonhar com a Escola do Futuro?" A Secundária com 3.º ciclo Quinta das Palmeiras é uma escola do futuro?
JPM:
É uma escola que quer que os seus alunos tenham sucesso no futuro.

As Escolhas de João Paulo Mineiro...

Citação
"É com o coração que vemos claramente. O que é essencial é invisível aos nossos olhos." Saint-Exupéry

Livro
A Mulher do Viajante no Tempo de Audrey Niffenegger

Música
Stand by me, John Lennon

Autor
José Saramago

Político
Mário Soares

Viagem
Estados Unidos da América, Florida

Memória de infância
Ceias de Natal passadas em família

Sonho por realizar
Uma viagem à volta do mundo.
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