Juntar as letras do alfabeto

O livro existe com diversas finalidades e é assimilado de diferentes maneiras. Não há dias marcados para a leitura, mas há uma data especial. O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor celebra-se a 23 de abril. Um pretexto para viajar pelos leitores e seus feitios.
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O verbo parece tão óbvio que poucas vezes deve ser procurado no dicionário. Mas a definição está lá, na bíblia das palavras. Ler é "enunciar ou percorrer com a vista, entendendo um texto impresso ou manuscrito; interpretar o que está escrito". Ou ainda "compreender o sentido de; prelecionar ou explicar como professor". Há mais verbos sinónimos: "perscrutar; adivinhar; descobrir".

E a explicação mais deliciosa desse velhinho dicionário - herança de família que passou por várias gerações - surge no fim. "Conhecer as letras do alfabeto juntando-as em palavras". Ler é, portanto, absorver as letras que formam palavras que constroem textos. E acionar o cérebro para que tudo faça sentido. E partilhar essa "refeição" dos olhos que não tem dia nem hora marcados.

Ler livros, ler legendas, ler manuais de instruções, ler romances, ler sinais de trânsito, ler nas entrelinhas, ler histórias. Ler para compreender o mundo. O leitor dedicado tem consciência de que a leitura é um meio importante para assimilar a realidade, interpretar o que se passa, compreender o futuro, perceber-se a si e aos outros. Dedica algum do seu tempo a abrir os livros que escolhe com cuidado, a mergulhar em textos que lhe foram recomendados, a escolher as notícias dos jornais. Lê para que essas letras encostadas ganhem um significado maior.

Leitor dedicado que se preze gosta de partilhar as suas leituras. Há ideias, conceitos, realidades, mundos, pormenores, sentimentos que se introduzem nas conversas quase sem querer. As palavras fazem sentido e estimulam a curiosidade, o pensamento, o querer saber mais, a análise crítica, a vontade de falar desses momentos absorvidos pelos olhos, vividos pelo coração e pensados pelos neurónios.

Do lado oposto, do outro lado de um espelho opaco, está quem não quer ou não gosta de ler. Pode ter experimentado a sensação de abrir um livro, de pousar os olhos pelas palavras e ter descoberto que não valia a pena continuar. Há experiências que condicionam o futuro. Não ler por opção, por desencanto, por não querer desassossegar a alma. Não ler e ponto final.

É possível viver sem ler? Há quem suspeite dessas vidas desprovidas de palavras, textos e histórias dos livros que nascem para abrir janelas para o mundo. E há os velhos ditados que dizem que quem não lê não pensa e que quem não pensa não se liberta. E que quem não lê não alimenta a imaginação e o espírito.

E há quem absorva tudo o que lhe aparece à frente. Os jornais para estar a par da atualidade, os livros que ocupam o primeiro lugar das listas das livrarias, os textos mais "frescos" e aconselhados pelos críticos da matéria, a publicidade que chega à caixa do correio sem pedir licença, os editais afixados nas instituições públicas, as letras mais pequeninas dos manuais de instruções.

Tudo o que surge à frente dos olhos e tudo o que se faz questão de procurar, comprar, ter em casa. É o leitor obsessivo-compulsivo. Ler para engolir o mundo sem paragens, ler por ler, ler para dizer que se lê. Ler, ler, ler sem parar. Um vício que ocupa todas as prateleiras de casa. Uma mania que convém domesticar para se transformar num hábito saudável.

As exigências também entram nesse mundo das leituras. O leitor snob não é como os outros e faz tudo por tudo para não o ser. Quer ser diferente e quer que as pessoas percebam que assim é. Lê o que é chique, o que os outros dizem que é a altura de ler.

Lê determinados autores e chega a desdenhar das leituras dos outros. Lê de nariz empinado. E quanto mais emaranhadas as leituras, melhor. O leitor snob arranja maneira de partilhar o que absorve desses momentos. Sem nunca perder a compostura, claro está.

As modas também chegam às leituras. A globalização tem destas coisas e o mundo já não se mede em quilómetros ou milhas. Tudo está mais próximo. Há leitores que leem o que a moda estipula. Se o livro do momento é este, é esse que o leitor que segue a moda à risca vai querer ter.

Se a televisão recomenda a compra de um determinado livro é preciso tratar da aquisição, se um programa junta escritores que sugerem o tal texto então é urgente saber onde o encontrar. Se a revista da especialidade fala daquele livro é porque está na moda.

Ler para viver. Ler para pensar. Ler para refletir. Ler o que se compra. Ler o que se pediu emprestado. Ler o que é recomendado. Vincar o topo das páginas, sublinhar as frases que, naquele momento, fazem sentido e ganham um significado especial. Ler para partilhar. Ler para crescer. Ler para respirar. Ler para ser. Cada leitor, sua sentença.
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