Telemóveis: uso ou abuso?

Estudo revela que mais de 50% dos alunos não têm o hábito de desligar o telemóvel nas aulas. Técnicos garantem que a proibição total nos recintos escolares não é solução.
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Os dados foram recolhidos e analisados para se compreender comportamentos específicos dos consumidores mais novos dos media em Portugal: 40,8% dos alunos asseguram que desligam o telemóvel nas aulas, 84,2% dos 9 aos 12 anos têm telemóvel, 72,1% tiveram o primeiro telemóvel com 13 anos ou menos, 80,3% garantem que são os amigos o principal alvo da comunicação, 28,6% revelam que a vida mudaria para pior se ficassem sem telemóvel durante duas semanas. Estes são apenas alguns dos resultados do estudo "E-Generation: Os usos dos media pelas crianças e jovens em Portugal", pesquisa com data de 2007, orientado por Gustavo Cardoso e Rita Espanha do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.

A metodologia usada centrou-se em dois inquéritos. Um questionário presencial aplicado a uma amostra representativa da população, com idades entre 8 e os 18 anos, e um inquérito online dirigido a jovens utilizadores da Internet, até aos 18 anos. Este questionário esteve online durante um mês e totalizou 1377 respostas, das quais 1353 foram consideradas válidas. Perceber o impacto e a importância das novas tecnologias nas relações interpessoais e nas práticas quotidianas foi também um objetivo da investigação. Há conclusões a reter. Nota-se uma clara tendência, praticamente universal, do uso do telemóvel entre os adolescentes.

Os jovens inquiridos fazem, em média, 3,56 chamadas por dia e enviam habitualmente 25,72 mensagens através do telemóvel. "A forma como o telemóvel se introduz na vida dos indivíduos é bem patente em situações em que se sentem desconfortáveis quando não têm consigo o seu telemóvel, ou quando estão impossibilitados de o usar (porque não há rede ou porque não têm bateria, por exemplo)", lê-se na conclusão do estudo. E acrescenta-se: "A sensação de estar contactável ou poder contactar alguém em qualquer lugar é reconfortante e os nossos dados são indicadores dessa situação: uma parte bastante significativa dos jovens, correspondente a 85,2%, concorda ou concorda totalmente que se sentem muito mais tranquilos quando têm o telemóvel consigo. Além disso, 74,3% concordam ou concordam totalmente que o seu telemóvel só lhes é útil se estiver constantemente ligado."

Regras de utilização
"A tentação, sobretudo após as notícias recentes relacionadas com a utilização dos telemóveis em meio escolar, é optar pela proibição total. Erradamente, quanto a mim", indica Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, que promove a utilização segura e responsável das tecnologias da informação e comunicação por crianças e jovens. Em seu entender, é necessário aprender e ensinar a conviver com esse instrumento. "Em minha opinião, em vez de optar pela proibição total, as escolas devem estabelecer regras para a utilização de telemóveis, computadores, Internet, leitores de MP3, câmaras digitais, câmaras de vídeo, etc. Essas regras podem passar pela proibição da utilização desses dispositivos em alguns espaços dentro do recinto da escola, como sejam as salas de aula, vestiários, etc.", refere. "No entanto, é importante que tenhamos bem presente que quer se opte pela proibição total ou pela criação de condicionantes, não eliminamos a possibilidade de ocorrências desagradáveis, não-éticas, irresponsáveis e indignas. Mesmo existindo regras e proibições, haverá sempre quem as viole e não as cumpra", observa.

Tito de Morais apresenta bons exemplos. No final de abril, esteve na Secundária Manuel de Arriaga, na ilha do Faial, Açores. "Esta escola, por exemplo, desenvolveu um "Concurso de Microfilmes Com Telemóvel" para os seus alunos. Um concurso deste tipo, que promove a criatividade dos alunos e que os orienta para temáticas relevantes para as famílias, para a escola e para a comunidade, é uma forma que pode ser usada para promover a utilização ética, responsável e segura deste tipo de dispositivos pelos alunos." Além disso, sublinha, o Rádio Clube Português tem a decorrer, até ao dia 9 de maio, o concurso "Quadro de honra - Dá voz às tuas imagens". "No entanto, enquanto as marcas e os operadores de telemóveis não perceberem que também têm um papel ativo a desempenhar neste aspeto, e continuar a haver operadores que promovem anúncios irresponsáveis, famílias e escolas continuarão a ter dificuldade em promover a utilização ética, responsável e segura destes dispositivos", remata.

O psiquiatra Daniel Sampaio considera que a "proibição total" do uso do telemóvel "não faz sentido". "O telemóvel é um instrumento banal nos nossos dias. Como em tudo, são precisas regras de utilização, definidas no início do ano e válidas para todas as aulas: durante os períodos letivos, devem estar desligados. Poderão ser usados nos intervalos. Em caso de utilização indevida (coação sexual, violação da intimidade, por exemplo), o assunto deverá ser discutido", defende. "A escola de hoje é caracterizada pela diversidade. Numa sala de aula existem alunos motivados e tranquilos, ao lado de outros sem controlo emocional e sem gosto pelas aulas; mas isso é que deve obrigar a um cumprimento rigoroso de regras para todos, organizado a partir de um regulamento da escola e das salas de aula, independente das normas ministeriais (que aliás só complicam: onde está o prometido `reforço da autoridade' se a expulsão desapareceu e as faltas são relevadas por uma `prova de recuperação', numa lamentável confusão entre comportamento e aproveitamento?)", escreveu Daniel Sampaio na revista Pública do jornal Público.

No artigo, o psiquiatra abordava o episódio da Secundária Carolina Michaëlis. O telemóvel como protagonista de uma história. "Que fazer? Sobretudo não partidarizar a questão nem arranjar bodes expiatórios. A solução está na resposta a estas duas linhas de análise: fazer cumprir as regras da escola (no caso dos telemóveis, proibi-los nas aulas, em caso de desobediência ir até à inibição por aparelhos para o efeito) e descodificar, junto dos alunos, esta dependência da imagem, ajudando-os a entender, com Saint-Exupéry, como `o essencial é invisível para os olhos'", acrescentava na peça.

Autonomia ou dependência?
Para Cristina Ponte, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, "as escolas não devem ignorar os telemóveis e o que representam na cultura dos mais novos e nos seus direitos de expressão e de privacidade (assuntos sobre o qual praticamente nada se fala...)". Na sua perspetiva, ouvir os jovens utilizadores do telemóvel ajuda a perceber as suas necessidades e pode conduzir a uma reflexão sobre os limites dessa utilização e mesmo os seus constrangimentos. "Sem dúvida que nas escolas, como ambientes de trabalho coletivo, devem existir regras quanto à sua utilização e os estudantes devem também participar na definição dessas regras. Dessa forma, sentir-se-ão mais responsabilizados enquanto coletivo e reconhecerão que foram ouvidos e que as regras se referem e aplicam a todos", realça. "A educação para os media, como vem referida na Carta Europeia e que em Portugal parece continuar adormecida, passa por uma atenção a estes usos e pela capacitação para usos mais conscientes e que tenham em conta os direitos dos outros".

"Fazer da escola um espaço de conversa com as famílias sobre estas tendências também poderia ser uma via interessante, discutindo como os usos violentos do telemóvel (nomeadamente como máquina fotográfica e de filmar, em conexão com a Internet) não são apenas associados aos `filhos dos outros', como muitas vezes os pais procuram pensar, e que eles mesmos precisam também de respeitar as regras da escola", sublinha a investigadora. "A compra de telemóveis, por parte das famílias, pode também ser pensada de um modo mais crítico: para que precisa uma criança de um telemóvel topo de gama? Quanto custa o seu uso? Para que serve o telemóvel? Está a criança a crescer para a autonomia ou a acentuar a sua dependência (dos pais e dos colegas que a pressionam...)?", acrescenta.

"A questão da proibição pura e simples leva necessariamente a braços de ferro e a muita disrupção. A utilização de telemóveis no espaço escolar tem de ser alvo de um debate amplo entre professores e alunos, com a participação das famílias, e cada escola poderá elaborar um 'código de conduta'", defende Margarida Gaspar Matos, psicóloga e investigadora na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. "Os telemóveis vieram para ficar... Todos sabemos disso... A rede familiar até pode ficar online com mais facilidade. Agora temos aqui um fenómeno novo que temos que gerir com serenidade e em colaboração."

Para Margarida Matos, a utilização dos telemóveis dentro da sala de aulas deve ser limitada a alunos e a professores. "Há uns tempos era sinal externo de alguma 'modernidade' (de gosto duvidoso, convenha-se), que tudo o que era profissional de elite andava sempre de telemóvel com acesso e som e interrompia reuniões vezes sem fim para atender, num sinal claro que o que se passava 'lá fora' era mais importante do que a situação presente", repara. "Víamos o mesmo em cinemas e até em palestras, onde o conferencista interrompia a conferência para atender. Hoje em dia estas situações são consideradas de muito mau gosto e falta de consideração. Com os alunos a 'cultura' do uso do telemóvel tem também de ser gerida", conclui.
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