João Alexandre Rodrigues: "É importante desmistificar certas crenças que reforçam o consumo"

Não há diferença entre drogas leves e drogas duras, a prevenção é fundamental e são os pais que devem desmistificar falsas crenças. Quem o diz é João Alexandre Rodrigues, técnico de aconselhamento na área das toxicodependências.
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Há 15 anos que João Alexandre Rodrigues trabalha na área da toxicodependência e alcoolismo, fazendo consultas e prevenção nas escolas. Uma experiência que tem contribuído para cimentar a crença de que não há distinção entre drogas leves e drogas duras.

EDUCARE.PT: É defensor da ideia de que não há drogas leves nem drogas duras, mas apenas drogas para as quais há abordagens distintas. Que abordagens são essas?
João Alexandre Rodrigues:
O problema, em primeiro lugar, coloca-se nas pessoas, ou seja, "cada caso um caso". O ato de consumir substâncias lícitas ou ilícitas é um ato voluntário. Ficar dependente, não é. Quando se começa a usar substâncias de uma forma regular, ninguém deseja, conscientemente, ficar dependente. Ninguém escolhe sofrer as consequências negativas (individual, familiar e social) da dependência.

E.: Mas que distinções se pode fazer afinal entre os diferentes tipos de consumo?
JAR:
Uma jovem, por exemplo, que consome haxixe de vez em quando, pode não ser considerado um problema grave a curto prazo. No entanto, hoje sabe-se que o haxixe possui uma substância THC (Tetrahidrocannabinol Delta-9), que é mais potente, em termos de efeito, comparativamente com o mesmo canabinóide de há 10 anos atrás. Logo, poderá causar mais danos e permanece no organismo durante, aproximadamente, cinco dias ou mais. Considero importante desmistificar certas crenças que enfatizam e reforçam o consumo, principalmente entre os jovens e os pais, visto ser uma substância que aparenta comportar menos riscos para a saúde.

E.: Quando afirma que é importante desmistificar certas crenças, que enfatizam e reforçam o consumo, isto significa que não se deve desvalorizar os riscos de consumo de qualquer tipo de droga, nomeadamente o haxixe?
JAR:
Sem dúvida. O haxixe e também outras substâncias, como o álcool e o tabaco. Constato ao longo da minha experiência profissional que 80% das pessoas que são adictos a drogas começaram por consumir tabaco. Mais tarde, iniciaram o consumo de haxixe e depois outro tipo de drogas. Acredito que existe uma atitude neste processo que reforça e promove o consumo de substâncias aditivas, como algo inócuo. As drogas, quando ingeridas no organismo, proporcionam prazer e euforia de uma forma eficaz. Existem drogas para todo o tipo de pessoas e existem pretextos suficientes e plausíveis para se experimentar a primeira vez o consumo. Toma-se drogas para ficar mais ativo, para ficar mais relaxado e descontrair, para dormir, para ir ao cinema, para dançar, para ouvir música, para estudar, para conviver, para inibir o apetite, etc. Estas sensações de prazer e bem-estar são muitas vezes uma prioridade na forma com o lidamos com os nossas emoções mais desconfortáveis, procurando o prazer ou o alívio imediato, em vez de se adiar a gratificação. No meu contacto com pessoas, é frequente ouvir justificações como: "Se posso divertir-me melhor...", "Se consigo expressar-me melhor perante as outras pessoas e ficar mais descontraído...", "Se consigo ter a atenção dos meus amigos e cativá-los...", "Se consigo dormir...", "Se posso ter sexo e desinibir melhor...", "Gosto de ser diferente da maioria das pessoas...", "Gosto de pertencer a um grupo de amigos especiais com que me identifico...", "Se posso estudar e ficar mais concentrado com drogas porque não hei de consumir. Eu consigo controlar a situação. Não sou fraco. Qual é o problema? Toda a gente faz o mesmo..."

E.: Como devem os pais reagir perante estes casos?
JAR:
A resposta a esta questão é complexa visto não existirem garantias nem soluções imediatas. Na nossa sociedade, somos atingidos diariamente por todo um conjunto de estímulos consumistas, que por vezes acreditamos poderem preencher um vazio emocional, resolver um conflito e proporcionar uma sensação de prazer e satisfação dos nossos entes queridos.
Por vezes, como pais, adotamos comportamentos, na minha perspetiva disfuncionais, demasiado protetores em relação aos nossos filhos/jovens. Tornamo-nos seus "advogados", protegendo-os seja do que for; "banqueiros", em que eles não precisam de se preocupar com uma gestão responsável dos seus recursos financeiros; "empregados/criados", quando, por exemplo, arrumamos o seu quarto ou quando não participam nas atividades/rotinas da casa.
Com este tipo de comportamento disfuncional não se permite que enfrentem as dificuldades e problemas inerentes ao crescimento emocional saudável e realização pessoal.

E.: Voltando à diferença entre tipos de consumo: acha que consumir haxixe e heroína é igual?
JAR:
Os jovens que consomem haxixe podem adotar comportamentos de risco que incluem HIV/Sida, gravidez indesejada, problemas na escola e abuso de bebidas alcoólicas ou uso concomitante de varias substâncias, entre outros, ainda que os seus efeitos a curto prazo não sejam tão evidentes como noutro tipo de drogas.
Enquanto que se consumir heroína, o risco de se tornar dependente a curto ou médio prazo (adicto/patologia) pode ser muito elevado.
Conheço casos que atingiram a dependência de heroína ao fim de um ano, enquanto que outros só ao fim de vários anos. Também conheço casos de pessoas que consomem haxixe socialmente, mas conheço outros que recorreram a tratamento (ajuda profissional) por dependência e também por aparecimento de patologias, nomeadamente psicoses relacionadas com o consumo. Para os consumidores de haxixe, mesmo os ocasionais, o risco de um dia consumirem heroína ou cocaína é maior do que para quem não consome. Ao longo da minha experiência profissional constato que a grande maioria das pessoas dependentes de substâncias como a heroína ou a cocaína iniciaram o consumo com substâncias psicoativas com o haxixe. Contam que começaram "a fumar um charrinho de vez em quando, todos as pessoas me diziam que não fazia mal nenhum".

O risco está sempre presente
E.: É possível determinar que fatores (psicológicos, sociais, biológicos) podem contribuir para maior ou menor propensão para adotar esses comportamentos de risco?
JAR:
Já se conseguem determinar alguns fatores de risco que podem contribuir para uma maior propensão para adotar comportamentos de risco e consumir estas substâncias. Por exemplo, nos EUA, nos anos 70 ou 80, foram efetuados estudos em filhos de pais alcoólicos e/ou toxicodependentes que apresentavam uma maior predisposição (biopsicossocial) para consumirem substâncias psico-ativas e desenvolverem dependência de álcool e drogas do que os filhos de pais sem problemas de dependência.
Por outro lado, a minha experiência profissional permitiu-me constatar que os filhos de pais e de famílias saudáveis também podem vir a ser consumidores de substâncias e correr o mesmo risco (grave) de se tornarem dependentes. Como se pode constatar, este é uma matéria cujos fatores de risco estão sempre presentes ao longo da vida de uma pessoa.

E.: A linha de fronteira entre o simples prazer e o vício é muito ténue. Por exemplo, beber é um ato social, o que não significa que quem o faça esteja dependente de álcool.
JAR:
Não acho que a linha da fronteira entre o simples prazer e o vício seja ténue. Iniciam-se os consumos de qualquer substância alteradora do humor porque essa mesma substância provoca prazer e uma sensação de bem-estar imediata. Se assim não fosse, provavelmente não existiria o problema do abuso e da dependência, que tanto preocupa a nossa sociedade. Depois ninguém fica dependente de drogas ou álcool de um dia para o outro. A dependência (adicção) é um processo progressivo que ocorre na vida de uma pessoa, que a afeta física, mental e espiritualmente.

E.: Quais os sinais a levar em conta?
JAR:
Existem alguns sinais que revelam um potencial de risco. Por exemplo, baixo rendimento escolar, roubos e mentiras constantes, absentismo na escola, redução em atividades extracurriculares, desinteresse por hobbies, ignorar regras/valores familiares, antagonismo e defensibilidade extrema (justificação exagerada, "ser o dono da razão"), hostilidade e manipulação, "promessas quebradas" quanto à mudança de comportamentos, mudança do círculo de amigos. Também devem ser considerados a perda ou o aumento excessivo de peso, a fraca gestão dos recursos financeiros (gastos excessivos, pedidos frequentes de dinheiro aos pais ou aos colegas e acumulação de dívidas), perda do interesse na aparência pessoal, na higiene e na autoestima e o isolamento ou agressividade verbal/física entre pares e professores.

E.: Dado que trabalha com jovens, que tipo de mensagens acha mais eficazes para alertar para os riscos da dependência?
JAR:
A minha prioridade é informá-los e educá-los sobre um vastíssimo leque de escolhas positivas e construtivas quando à forma como se podem divertir, gerir os seus conflitos, os valores, pressão de pares, escolher amizades, lidar com as suas emoções negativas, tomar decisões e gerir o stress sem necessitarem de recorrer a substâncias. Também procuro a partilha de informação e a discussão sobre os efeitos e consequências do consumo de substâncias, onde o objetivo se centra em desmistificar mitos e falsas crenças. Os jovens fumam tabaco para se sentirem adultos e consomem substâncias, incluindo álcool, para se divertirem. São realidades que se vão manter, não existem soluções "milagrosas". Todavia, acredito que com um projeto estruturado e continuado podemos ajudá-los a fazer escolhas, no seu dia a dia, que promovam o desenvolvimento pessoal e que visem reforçar fatores protetores.

E.: A droga surge como a principal preocupação dos pais. Ao mesmo tempo, na prática, estes parecem isentar-se do papel de educadores. Como explica esta contradição?
JAR:
Concordo consigo quanto à contradição. No meu trabalho, constato que os pais manifestam a suas preocupações, reais, relativamente ao possível consumo de substâncias dos seus filhos, mas, por outro lado, quando convidados a participar ativamente neste problema parecem excluir-se. Aparenta existir uma atitude passiva e ambivalente, por um lado, rígida, controladora e austera, por outro. São os lados da mesma moeda. Este tipo de atitude, na nossa cultura, reforça e promove a discriminação, o estigma, a negação associada aos consumos de drogas. Recordo-me de pais que, após tomarem conhecimento de que o filho consumia drogas, e perante a sensação de impotência que sentiam, ficaram paralisados, deixando que a situação afetasse todo o ambiente familiar.

E.: As estratégias de prevenção nas escolas ainda são insuficientes?
JAR:
No meu contacto com algumas unidades de ensino, a grande maioria aparenta estar a atravessar um período de instabilidade e desorientação quanto à forma como abordam esta matéria e informam os seus alunos, pessoal docente e não docente. Na minha opinião, a oferta e o acesso às substâncias atingiram níveis preocupantes. Não quero com isto afirmar que todos os jovens consomem drogas, mas aqueles que decidem fazê-lo não precisam de um grande esforço para as obter. Acho que a maioria das estratégias de prevenção nas escolas são generalizadas e insuficientes.

E.: Na sua opinião, e com base na sua experiência, o acesso à droga faz-se onde e por que vias?
JAR:
Na minha opinião, o acesso a drogas ilegais é efetuado através do grupo de pares, na escola, nas zonas residenciais, nas férias, em casa de famílias, nas festas, etc. Qualquer sítio que possamos imaginar. É entre irmãos, entre colegas de escola, entre familiares e amigos. Há pais que consideram os amigos dos filhos a principal fonte do problema. Será uma meia-verdade. É importante educar os nossos filhos para que saibam escolher os seus amigos, o que significa, na prática, ensinar conceitos de amizade, lealdade, respeito e empatia nas relações entre pessoas. Esta aprendizagem é feita em casa, onde eles observam as dinâmicas existentes na família.
Por outro lado, é muito difícil para quem não está familiarizado com esta matéria conseguir identificar sintomas e sinais de alguém que esteja sob o efeito de drogas, isto porque existem drogas por exemplo o haxixe, cujos sintomas de consumo passam despercebidos ao observador comum.

E.: Um dos temores dos pais tem a ver com o consumo de ecstasy. Há quem acredite que, num bar ou discoteca, os filhos podem consumir ecstasy sem saber, diluído numa bebida. Esta é uma falsa crença ou tem algum tipo de fundamento?
JAR:
Penso que seja uma falsa crença. Todavia poderá ter algum fundamento em casos muito isolados. Por exemplo, num grupo de jovens consumidores habituais de substâncias este tipo de situação poderá ser interpretado como uma brincadeira. Por vezes, o perigo pode ser uma fonte de estímulo e atração a que os jovens recorrem para lidar com o stress e as rotinas dentro do seu grupo de pares. Também é importante salientar o ambiente eufórico, descontraído e, por vezes, agressivo das discotecas. Por vezes, os jovens competem entre si e utilizam as substâncias e atitudes negativas para testarem, manipularem e se autovalorizarem. É frequente, principalmente em grupos do sexo masculino, ver quem bebe mais, quem fica mais "pedrado" ou embriagado, quem consome mais drogas, quem consegue suportar uma quantidade significativa de drogas e/ou alcool dentro do organismo. Quem não participa nestes "jogos perigosos" corre o risco de ser afastado e discriminado no seio do grupo pelos líderes. Este tipo de situações pode conduzir a comportamentos de alto risco entre os jovens.

E.: De que forma a comunidade escolar pode ajudar na prevenção?
JAR:
A escola pode servir como mediadora e intermediária na abordagem e na discussão desta temática das dependências entre pais, alunos e professores. Os vértices deste triângulo necessitam de cooperar e reunir esforços, experiências e competências (multidisciplinaridade) nesta luta.
Só uma presença continuada e consistente de programas de prevenção pode valorizar atitudes e comportamentos que reforcem os fatores protetores.

E.: As estratégias de prevenção devem começar a partir de que nível de ensino?
JAR:
Considero que os nossos jovens e a nossa sociedade, em geral, beneficiariam se estas estratégias de prevenção se se iniciassem nos primeiros anos e se se prolongassem por toda a vida. Este tipo de abordagem contemplava todos os estágios do desenvolvimento humano. O objetivo central seria implementar e desenvolver uma cultura onde prevalecem valores e princípios morais, espirituais e éticos geradores de um maior enriquecimento e realização pessoal. É indispensável uma nova estratégia na responsabilidade, do relacionamento e da articulação da escola, da comunidade educativa, dos nossos serviços públicos. Criar novos meios de informação e apoio aos pais e novos conteúdos adaptados na formação dos educadores.
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