Daniel Sampaio: "O mais importante é disciplinar"

O psiquiatra Daniel Sampaio considera a permissividade dos pais um risco e acredita que é fundamental saber dizer "não".
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Lavrar o Mar, o último livro de Daniel Sampaio, publicado no ano passado, e O Pequeno Ditador, de Javier Urra, agora editado em Portugal, foram escritos em alturas distintas, mas refletem uma preocupação comum: o relacionamento entre pais e filhos.

Atualmente pais e filhos estão mais próximos. Contudo, Daniel Sampaio entende que esta proximidade «teve como reverso uma perda de autoridade em relação aos filhos». Talvez por isso ao falar-se com pais e professores sejam comuns queixas de que as crianças são "indisciplinadas", "muito exigentes" ou "agressivas". Sem saberem o que fazer, os pais procuram ajuda mas, como salienta o psiquiatra, «a solução não está no psiquiatra ou psicólogos mas sim na capacidade de educar os filhos».

O autor de Lavrar o Mar não tem dúvidas de que é preciso dar amor aos filhos e ter interesse pelos alunos, mas também é necessário ajudá-los a disciplinarem-se. Por isso deixa um alerta: «a família tem de ter regras e as crianças têm de assimilar essas regras desde muito cedo».

EDUCARE.PT: É procurado por adultos, sejam pais ou professores, que se queixam dos jovens com quem convivem, já não os "suportando" ou não sabendo o que fazer. Que problemas são estes e a que é que se devem?
Daniel Sampaio:
A maior parte da procura deve-se a falta de autoridade de pais e professores, excesso de exigência por parte dos filhos e problemas de comunicação.

E.: O que é que falhou ou está a falhar na educação destes jovens?
DS:
Os pais hoje em dia esquecem-se que a disciplina na educação é tão importante como o amor.

E.: A forma de educar mudou. Como se gere a fronteira entre o autoritarismo e a tolerância?
DS:
Não deve haver autoritarismo, não resulta. A autoridade é crucial, e deve basear-se numa relação continuada de empatia, sentido do outro e confiança. E não se pode ser tolerante com algumas coisas: tudo o que ponha em risco a segurança dos filhos não deve ser tolerado pelos pais.

E.: É importante dizer "não" aos filhos?
DS:
Claro que sim.

E.: E a palmada e/ou o castigo podem ajudar de alguma forma?
DS:
Sim, de vez em quando. O mais importante é disciplinar.

E.: Mas aos pais não basta serem firmes e consistentes. O que é preciso mais?
DS:
Se fizerem isso misturado com amor e coerência - não dizer aos filhos para não utilizarem drogas e serem os primeiros a fumar haxixe - já será muito bom.

E.: É fundamental ter a atitude certa no momento exato?
DS:
Sim, mas os pais não são perfeitos, erram muitas vezes. O que precisam é de refletir e errar menos, ouvindo muito os filhos.

E.: No seu livro Lavrar o Mar refere que os jovens se queixam mais por os pais não lhes terem dito um "não" e encolherem os ombros do que por um eventual autoritarismo paternal. Os jovens "preferem" pais mais interventivos?
DS:
Claro que sim. Os jovens precisam de regras, de orientações, de diretrizes traçadas pelos pais. Podem discordar, mas odeiam pais demitidos ou desinteressados.

E.: Uma infância sem regras e com falta de limites pode levar aos pequenos ditadores e a jovens opressores?
DS:
Sim, é esse o tema dos livros do Javier [Urra] e do meu.

E.: Os pequenos ditadores são jovens permanentemente agressivos ou só com os pais?
DS:
A agressividade é dirigida a pais e professores. Habitualmente têm boas relações com os amigos.

E.: O trabalho, os horários, as tensões pessoais dos pais podem contribuir para este comportamento?
DS:
Sim, mas não são o fundamental. O problema reside no excesso de gratificação e ausência de limites na infância destes jovens.

E.: Na sua obra fala em limite interior e exterior. Pode explicar-nos melhor no que consistem?
DS:
O limite exterior é feito de fora para dentro: por exemplo, castigos em casa e na escola, gritos ou palmadas dos pais. O limite interior é construído desde a infância e tem a ver com a autodisciplina e com a moral: o que a criança acha, por si própria, que está certo ou errado. Por exemplo, a Joana sabe que há uma lei que a impede de matar (limite exterior), mas também sabe que matar não faz sentido para si (limite interior).

E.: Os primeiros tempos, na infância, são fundamentais para a construção da relação pais-filhos e para a estruturação da personalidade das crianças?
DS:
Sim, até aos três anos, mas nunca se pode desistir.

E.: Como é que pais inseguros com adolescentes cheios de poder podem evitar o conflito frequente e desentendimentos futuros?
DS:
Falando com outros pais e outros adolescentes encontrarão soluções.

E.: Defende que são os pais quem mais precisa de ajuda. O que é que pode ser feito?
DS:
Devem procurar outros pais, participar nas associações de pais das escolas, pertencer a outros grupos que fomentam o associativismo parental, falar mais com os filhos.

E.: Que apoios há em Portugal?
DS:
Há poucos, mas não podemos estar sempre à espera do Estado. Os pais podem trabalhar na escola, na autarquia, nos media.

E.: Qual poderá ser o papel dos avós?
DS:
Os avós são o grande apoio dos pais.

E.: Que adultos serão os pequenos ditadores de hoje?
DS:
Serão adultos inseguros, vulneráveis, sem serem capazes de suportar a frustração.

E.: Em relação à violência nas escolas, acha que é possível acabar com casos de violência entre colegas ou mesmo contra professores e funcionários? Como?
DS:
Acabar não, diminuir, através de programas contra a violência na escola que mobilizem todos.

E.: Acha que os professores têm vindo a perder autoridade e poder?
DS:
Sim.

E.: A violência dos jovens é reflexo da sociedade?
DS:
Da violência da sociedade e de uma educação permissiva.
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