“O aroma do livro insere-se no nosso cérebro” (Parte II)

Os hábitos de leitura estão a sofrer alterações e, por isso, as propostas que desafiem a criatividade e o espírito crítico das crianças e jovens são fundamentais. As escolas devem estimular a leitura e respeitar vontades e capacidades. Jorge Ascenção, Manuel Pereira, Filinto Lima e Paulo Guinote partilham as suas opiniões sobre estes assuntos, na segunda parte deste trabalho publicado pelo EDUCARE.
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Para onde caminhamos nesta relação com os livros, nestes novos hábitos de leitura? “Os mais novos nascem agarrados ao suporte digital. Normalmente para jogos ou coisas mais supérfluas, como as redes sociais, ou mesmo para comunicarem entre si. Hoje os seus espaços de encontro são no computador, telefone ou tablet. Poderemos nós impor outros gostos ou relações? Mesmo que o pudéssemos fazer não teríamos o resultado pretendido, porque ninguém se desenvolve sem liberdade de escolha. O que precisamos é de ser capazes de descobrir e perceber como incentivar a leitura através de propostas que desafiem a criatividade e o espírito crítico das crianças e dos jovens”, refere Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP).

O que pode ser feito? Estimular a relação com a leitura, respeitando vontades e capacidades dos mais novos. Trabalhar de forma transversal as diferentes áreas do conhecimento. Trabalhar mais nas bibliotecas. Explicar a importância do livro na compreensão do dia a dia. “O aroma do livro insere-se no nosso cérebro e enraíza-se na nossa memória fixando a vontade de voltar ao seu contacto”, sublinha o dirigente da CONFAP.

As novas tecnologias vieram para ficar, facilitam o acesso à informação e às histórias, exigem pouco esforço, e os jovens não sentem a necessidade de ler. “A escola, por vezes, também mata a vontade de ler ou não seduz para a leitura. Ou a impõe, e a obrigatoriedade é meio caminho para a rejeição, ou retira o tempo necessário para o fazer priorizando outras competências, ou não seduz para ela: o docente que não lê não motiva para a leitura”, observa Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). “Atrevo-me a dizer que os fracos hábitos de leitura serão nefastos para os homens e mulheres do amanhã já que lhes vai ser exigida a criatividade, o empreendedorismo e atualização de conhecimentos ao longo da vida. Só quem dominar a leitura e souber transformá-la em conhecimento conseguirá intervir de forma responsável na sociedade”, acrescenta.

Mas há coisas a fazer. Apostar na leitura, educar as famílias nesse sentido, incutir na sociedade que é fundamental valorizar esse hábito. “Se a escola encarar a leitura como uma mais-valia para a formação global da criança ou jovem dando-lhes tempo para ler e encarar a leitura não como um enfado, mas como uma fonte de prazer e fruição, então não teremos razões para alarme porque eles voltam.” Eles voltam a ler.

Os hábitos de leitura têm vindo a sofrer alterações substanciais ao longo dos últimos anos, nota-se um certo declínio da leitura como instrumento tradicional. Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), olha para tudo isso não como problemas, mas como oportunidades. “A leitura não perdeu importância nem o livro perdeu espaço. Motivar para a leitura requer, hoje, dinâmicas motivacionais diferentes e o recurso a novos estímulos menos formais e mais próximos das vivências experienciadas de cada um”, realça.
 
“O aparecimento de novos centros de interesse também se constitui como oportunidade na medida em que o próprio livro se consegue reinventar e oferecer, ele próprio, novos caminhos. Quando até há uns anos, o livro não tinha qualquer concorrência no processo motivacional proposto por pais e educadores, surgindo como o arquétipo do conhecimento, hoje, as novas tecnologias propostas pela Internet e por todas as valências a ela associadas  oferecem um manancial de espaços motivacionais estimulantes, e mesmo viciantes, que não deixam espaço para o regresso ao livro, entendido, claro, como instrumento tradicional de leitura”. “É claro que o livro e a leitura não perderam o seu papel fundamental. Continuam a ser opções fundamentais na construção académica estruturada do conhecimento e da formação pessoal”, acrescenta o dirigente da ANDE.

Uma chave para novos mundos
Para Paulo Guinote, professor de Português, licenciado em História e doutorado em História da Educação, que durante anos geriu o blogue A Educação do Meu Umbigo, um dos mais lidos sobre temas educativos, os livros de estudos são como amigos que não magoamos, mesmo quando brincamos com eles. “Como qualquer outro ‘utensílio’ que usamos para uma função, mas não deitamos fora depois desse uso. Os livros de estudo são companheiros e, em simultâneo, cápsulas do tempo dos seus utilizadores, para quem podem constituir um inestimável e indispensável elemento de construção da memória e identidade pessoal. Os livros de estudo ajudaram-nos e ajudam-nos a sermos o que somos”.
 
Promover a leitura no suporte tradicional e tornar os livros mais acessíveis, com preços adequados, são caminhos possíveis. “O aumento dos níveis de leitura não passa por campanhas em que se anunciam futuros apenas digitais, desmaterializados e em que o objeto-livro de torna financeiramente pouco acessível. Há que adaptar o preço da oferta de forma a alargar a base da procura e não investir apenas num nicho estável de compradores recorrentes. O preço de certos livros para crianças e jovens é demasiado elevado, bastando comparar com o que é praticado em outros países (e estou a ter em conta a necessidade de pagar a tradução e os pagamentos de direitos de autor). Há livros a 12-15 euros de autores já no domínio público, quando em Inglaterra essas coleções têm preços de 3-5 euros. A inserção de algumas ilustrações não justifica a discrepância”, conclui.

Paulo Guinote olha para um livro como “uma chave que abre o acesso a um mundo novo, seja de conhecimentos sobre um dado tema, seja da imaginação dos autores”. “Um livro deve ser um ‘objeto’ que, quando aberto e interpretado, permite a transformação do seu leitor, trazendo-lhe uma mais-valia que deve ser mais do que meramente utilitária, contribuindo para o seu bem-estar e felicidade”.

Nunca gostou de escrever nos livros, a menos que fosse obrigado. Em seu entender, a apropriação do livro não passa necessariamente por sublinhar ou fazer anotações, práticas que, em seu entender, podem não interferir na relação com os livros. “Acho mais perigosa a ideia de ‘desmaterializar’ os manuais escolares, tornando-se algo imaterial e não manuseável pelos alunos. O livro foi ao longo do tempo um ‘espaço’ para o diálogo entre o seu conteúdo e o leitor, não sendo as anotações o mais importante. Acho que o ‘fim’ dos livros físicos é um atentado muito maior a essa relação de familiaridade”, comenta.
 
“O não estragar os livros nunca pode ser uma mensagem errada. O que deve sublinhar-se é uma utilização correta e responsável dos materiais escolares. Foi graças a isso que pude manter os meus livros da ‘Primária’ e ainda os ter, décadas depois. Mesmo se resolvi neles alguns exercícios. O livro não deve ser ‘sacralizado’ da forma errada. É um objeto que manuseamos, que exploramos, mas que não devemos estragar de forma desnecessária.”

O fim anunciado dos livros em suporte físico preocupa Paulo Guinote, mas, apesar da ameaça dos meios digitais, o professor verifica que a área infanto-juvenil é dos setores editoriais que mantêm maior dinamismo. “Uma coisa boa foi a promoção ativa da leitura a partir das escolas, o PNL é das medidas menos controversas na área da Educação, outra a permanência do gosto dos ‘miúdos’ por lerem num suporte tido como tradicional; por fim, uma terceira coisa boa é a qualidade média do que é editado, seja nacional ou importado. E não é apenas o fenómeno ‘Harry Potter’. O fenómeno menos bom é a insistência num discurso que parece estar sempre a anunciar o fim do livro tradicional e o suporte digital como o único ou dominante ‘no século XXI’. Quem isso faz, para além de objetivamente prejudicar o livro, é mais prisioneiro de algumas modas do que propriamente um profeta certeiro”, refere.


[Leia a Parte I deste artigo: "Os livros devem ser “lidos, explorados, anotados, sublinhados e guardados”]

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