“O aluno tem de sentir o livro como seu”

Jorge Amado, diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches, em Braga, fala da importância da leitura e da mudança de hábitos. Não concorda com a política dos manuais gratuitos e é contra a reutilização imposta por lei. A reutilização dos livros escolares é, na sua perspetiva, “uma forma de provocar a desmotivação pela leitura pelo interesse pelo livro e pela própria escola”.
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Jorge Amado, diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches, em Braga – com cerca de 1800 alunos do pré-escolar ao 9.º ano, 900 dos quais do 1.º Ciclo do Ensino Básico, e sete escolas, cinco do primeiro nível de ensino -, discorda da política dos manuais escolares gratuitos e da reutilização por imposição. “É um duplo disparate”, refere. Na sua opinião, o Estado não dá, empresta, impondo a entrega dos livros no final do ano escolar.

As medidas alteram métodos de ensino, formas de estudar, maneiras de lidar com o livro. Jorge Amado concorda com apoios para tornar os manuais mais baratos e com a reutilização por vontade do aluno. Mas não é isso que vai acontecer no próximo ano letivo. Para o dirigente escolar, o aluno tem de sentir o livro como seu. Escrever, tomar notas, sublinhar. Usá-lo, levá-lo para casa, guardá-lo. Só sentindo o livro como seu, o estima e lhe dá valor.

O diretor do agrupamento TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária) faz várias perguntas. “Com que sentido o manual é devolvido? Para dar aos outros, coitadinhos que são uns pobrezinhos, que não vão ter dinheiro para adquirir um manual? É um total absurdo”, refere. E questiona: “Quantas crianças neste país têm telemóveis usados?”

As escolas aguardam indicações concretas para aplicar a medida dos manuais gratuitos no 1.º Ciclo do ensino público. Jorge Amado tem dúvidas de que as multas aos pais, pelos livros em mau estado, sejam aplicadas. As escolas não têm poder para tal. Mas o problema, na sua perspetiva, não está tanto na organização. “O problema está na desmotivação que podemos criar aos miúdos ao atribuirmos um livro usado”, sustenta.

EDUCARE.PT: Que relação estamos a criar entre os mais novos e os livros num país que ainda sofre de fracos índices de leitura e com este apogeu das novas tecnologias?

Jorge Amado (JA): As novas tecnologias estão aí, são fundamentais, são ferramentas essenciais, mas não substituem a leitura. Infelizmente, ainda estamos um pouco aquém daquilo que já se vai vendo na Europa, de inversão destes valores que se estão a criar, de se apostar demasiado nas novas tecnologias, esquecendo-se tudo o resto.

Sem a leitura atenta, sem o livro, sem o manual, sem um material para ler, escrever, riscar, reescrever, e voltar a riscar e apagar, o nosso cérebro não funciona porque nós trabalhamos assim. Preocupa-me, de alguma forma, que não se faça uma aposta efetiva na leitura e que se continue a fazer uma propaganda absurda contra os gastos na aquisição de manuais, de livros, e no pouco apoio que os livreiros têm, nomeadamente na divulgação dos seus livros, nas suas publicações que são importantes para todos.

E: No próximo ano letivo, os alunos do 1.º Ciclo das escolas públicas terão manuais gratuitos. São 320 mil alunos, um investimento de 12 milhões de euros. No final do ano escolar, as crianças terão de entregar esses livros em bom estado. Qual será, na sua opinião, o impacto desta medida, em termos práticos, para os alunos, para as escolas, para os pais?
JA: É uma dupla medida errada. Primeiro, porque todos nós devemos sentir o valor das coisas. Quando um pai assume o custo de um manual, mesmo que não o assuma na totalidade, sabe que teve de trabalhar para assumir esse custo. Dar um manual por dar é um profundo erro.

Um apoio para que os manuais fiquem mais baratos, para que tenham menores custos para os pais, era uma boa medida. Oferecer significa que não vão sentir valor pelos livros e isso vai denegrir a imagem do próprio livro, o que é negativo. E, no final, ter de devolver o livro. Com que sentido é devolvido? Para dar aos outros, coitadinhos, que são uns pobrezinhos, que não vão ter dinheiro para adquirir um manual? É um total absurdo. Pergunto quantas crianças brincam com brinquedos dos outros? Quantas crianças andam com a roupa dos outros? Quantos adultos?

O manual é um documento. O aluno tem de senti-lo como seu, não vai ter algo que foi já usado. A tê-lo que o tenha por vontade própria, que não o tenha por imposição. A reutilização é uma forma de provocar a desmotivação pela leitura, pelo interesse pelo livro e pela própria escola.

E: É recomendável dizer aos alunos do 1.º Ciclo, crianças que estão a aprender a ler e a escrever, que não devem tomar notas ou sublinhar os manuais?
JA: É um profundo disparate. Os miúdos têm de utilizar o livro como seu. É como ter um carro. Ter um carro na garagem, não é ter um carro. O carro tem de ser usado e depois, no fim, esgota-se o tempo de vida e tem de ir para abate porque senão só está a causar prejuízos na estrada. Um livro é a mesma coisa. Tem o seu tempo útil, se estiver em bom estado, pode continuar, pode servir para alguém que voluntariamente queira e para determinadas situações.

Um aluno começa o ano de escolaridade, chega ao final do ano, e o professor não completou as matérias, quer continuar, e o aluno já não tem o livro. Vai pegar no livro que o outro já utilizou ou já sublinhou? O próprio cheiro do livro já é o cheiro do outro. O aluno tem necessidade de sentir o livro, tem necessidade de agarrar o livro, senti-lo como seu. Senão pergunto: quantas crianças neste país têm telemóveis usados? Quando, às vezes, se fala nos custos dos livros, dos manuais – e em setembro há sempre uma grande campanha dizendo que os livros são muito caros –, pergunto e os telemóveis? Quantos alunos temos nas escolas com telemóveis com valor superior a 500 euros? Muitos e alguns a receberem subsídios.

Os pais fazem todos os esforços para comprar um telemóvel, mas para os livros dos seus filhos, para crescerem, para se tornarem gente, não querem investir. É uma questão de inteligência, é uma questão de investimento. Temos de investir no sítio certo, investir nos manuais, investir no livro.

Um aluno não tem de ter só um manual, tem de ter o manual e um conjunto de outros materiais necessários para a sua aprendizagem, até outros manuais, até outros livros, como complemento – e as editoras são muito ricas nesse aspeto e têm trabalhos muito bons e que são complementos para os alunos. Porque não procurar fontes noutros lados e o manual ser um guião excelente para os alunos? As escolas devem facultar isso e os pais devem mudar essa mentalidade e começar a investir um pouco nisso. Só assim conseguimos ter crianças bem formadas.

Quando se diz que em Portugal não há o hábito de leitura é porque não há a ideia de que a leitura é fundamental, porque não se investe na leitura, porque não se investe no livro. Continua-se a querer investir nos telemóveis, na roupa de marca. Se virmos bem, os miúdos andam com ténis caríssimos e não são usados, são novos.

E: O facto de os alunos terem de preservar os manuais que têm de entregar no final do ano poderá mudar os métodos de estudo?

JA: É evidente. Inverte todos os valores, todos os princípios. O que se trabalhou durante anos, que têm de trabalhar os manuais, que têm de trabalhar o livro, vai quebrar. Das duas uma: ou entrega o livro riscado e sublinhado, como uma ferramenta de trabalho, ou todo cuidadinho, porque não trabalhou o livro.

Não faz sentido que o Estado gaste dinheiro do erário público para dar manuais, acho que todos nós devemos contribuir para isso. Mas há câmaras municipais que ainda fazem mais, dão manuais ao privado. Há dinheiro para pagar propinas e é o Estado que depois vai suportar os manuais. Isso é escandaloso e, em certa medida, custa, porque há tanto reformado que não tem uma reforma como devia ter, há tantos trabalhadores que podiam ter melhores salários, melhores condições de vida, que têm filhos para manter, e depois vem o Estado que até dá livros.

E: Mudam-se hábitos de estudo ao ter um livro quase como um objeto intocável? O que vai mudar?
JA: Os alunos não vão sentir o livro como seu. Quando se tem algo seu, estima-se. Quando era miúdo, a pior coisa que me podiam fazer era tirarem-me os livros, queria guardá-los, até os livros de banda desenhada.

E: Os manuais escolares devem ser companheiros de estudo e de aprendizagem e não objetos para devolver?
JA: Exatamente. Companheiros da formação que fazem parte da pessoa. Ponto final. Fazer o contrário é inverter valores, é acabar com a leitura.

E: O livro torna-se um objeto descartável?
JA: Nada neste mundo é efetivo. Tudo tem o seu término. Mas enquanto o livro tiver a sua utilidade, enquanto durar, tem de ter um efeito efetivo. Quando ele acabar, há que ter o discernimento e a capacidade para adquirir outro. Não há volta a dar.

E: A questão das famílias que não têm dinheiro para comprar manuais escolares está devidamente acautelada nas escolas?
JA: Nas EB2,3 e nas secundárias vai estando, porque as escolas ainda têm autonomia para decidirem sobre a atribuição dos manuais. Desde que o encarregado de educação faça um requerimento e apresente evidências da sua situação, tenha documentos que comprovem que a situação é difícil, atribui-se o escalão de modo a comprar os manuais escolares.

Quando se dá indistintamente, verifico que, no final do ano, materiais novos estão no lixo porque não os sentiram como seus. Vejo réguas, esquadros no lixo. Para o ano vêm mais, a escola dá outros. Fico indignado. Nada nesta vida vem por acaso e nada se consegue sem trabalho. O aluno também tem de sentir esse trabalho, tem de o merecer.

E: Todas as escolas têm mecanismos para dar manuais escolares às famílias que comprovadamente têm dificuldades financeiras?
JA: Até este momento, têm. Se a chamada lei da municipalização avançar, tenho dúvidas que isso aconteça no 1.º Ciclo. No 1.º Ciclo, é na secretaria que são atribuídos os escalões e é cega essa distribuição. O funcionário que está na secretaria faz as continhas, vai ao documento da Segurança Social, e siga. E este é o primeiro momento de avaliação para a atribuição dos respetivos escalões.

E: Esta medida dos manuais escolares gratuitos e da sua reutilização entra em pleno no próximo ano letivo. A sua escola sabe o que tem de fazer para a aplicar?
JA: Abrimos um concurso público para a aquisição dos manuais, são as orientações que temos. Como serão distribuídos, não sei.

E:E já não deveria saber?
JA: Já, há muito tempo.

E: Não recebeu indicações do Ministério da Educação?
JA: Neste momento, não temos nada. As escolas de Braga estão um bocado apreensivas com isso até porque a câmara municipal anunciou nos meios de comunicação social que ia adquirir os manuais. Então como é que é, quando temos uma ordem para fazermos um concurso público para a aquisição dos manuais escolares? A câmara diz que é só para as escolas privadas. Fico chocado com isso, são dinheiros públicos que podiam ser aplicados em tantas coisas.

E: Como diretor de um agrupamento, sabe o que tem de fazer no final do ano letivo para reutilizar os manuais escolares?
JA: Já o fazemos há uns anos e, portanto, é fácil. Os trâmites são os mesmos. Dá um grande trabalho numa altura em que os funcionários começam a ir de férias, em que temos toda a organização do ano letivo para tratar, mas faz-se. As regras são para cumprir, concorde ou não.

E: E quanto à questão das multas a aplicar aos pais pelos livros que não estejam em boas condições?
JA: Isso é uma utopia.

E: Como assim?
JA: Não vai funcionar. Qual a capacidade que as escolas têm para aplicar uma coima aos pais?

E: Sabe qual o valor dessa coima?
JA: Não faço ideia.

E: Mas está prevista?
JA: Está, mas não faço ideia, nem estou preocupado com isso, porque não acredito que isso seja implementado. Onde está o poder das escolas para isso? É impensável. Se até um procedimento disciplinar tem de ter a anuência do encarregado de educação, como é que vamos ter capacidade para poder aplicar uma coima? A não ser que venha aí algum normativo, mas não estou a ver como.

E: E por, que não acredita? Estamos a falar de critérios subjetivos ou é impraticável?
JA: Qual o poder que a escola tem? A PSP ou a GNR aplicam uma coima, conseguem obter a verba dessa multa porque têm meios. Nós não. Até eu se for a tribunal, por questões relacionadas com a escola, tenho de constituir um advogado a expensas próprias para defender a escola.

E: Quais os critérios para avaliar se um livro está ou não estragado?

JA: Isso é relativo. Se pegar num livro e o usar, é papel, fica logo marcado. Se o aluno não o utiliza, não o usa, então o livro não serve para nada. Recebemos todos os livros, avaliamos se está em condições, os que estão mesmo deteriorados são para destruir. Se estão em boas condições vamos guardando porque há sempre alunos que vêm do estrangeiro a meio do ano ou cidadãos nacionais que regressam a Portugal, e aí arranjamos os manuais com a condição de os devolverem.

E: Os pais andam confusos sobre onde vão levantar os manuais?
JA: Sim. Nós temos isso devidamente organizado na escola, já fazemos isto há uns anos, somos uma escola TEIP, que tem alunos com algumas dificuldades, e as coisas estão organizadas. O problema não está tanto na organização, cada um vai-se organizando atendendo ao espaço, às características. O problema está na desmotivação que podemos criar aos miúdos ao atribuirmos um livro usado. Se o miúdo o aceita de livre vontade, tudo bem. Vivemos numa sociedade em que os miúdos andam com a roupa da marca x, y, z.

Esta coisa dos manuais é um duplo disparate. Serem gratuitos é um disparate. Reutilizá-los, num sentido mais vasto, tudo bem, agora obrigar os mais marginalizados da sociedade, castigá-los ainda mais, com algo velho, não concordo.

E: Que impacto terão as multas aos pais em contextos mais desfavorecidos?
JA: É mais um disparate que vai descredibilizar a própria escola. Se a escolaridade é obrigatória, não andamos aqui a brincar. Se a escolaridade é obrigatória, como vão aplicar uma multa? Primeiro dá-se, depois tira-se, e ainda há multas? É disparate atrás de disparate.

E: Esses 12 milhões poderiam ser investidos noutras áreas?
JA: Evidentemente. Quando se corta nos orçamentos, gerir uma escola é um sufoco. Não temos uma verba para arranjar uma porta, é da responsabilidade da câmara, a câmara não arranja, e depois a porta cai.

Cada aluno deve adquirir o seu manual, sentir o seu valor, o que ele custou. Tudo na vida é feito com sacrifício. Deve senti-lo como seu, como propriedade sua. Se depois o quiser dar a alguém, que o dê. O Estado não dá, empresta e isso, para mim, é desacreditar, é pôr em causa todo o trabalho que se tem feito ao longo dos anos, com a criação da rede de bibliotecas escolares. Ou então muda-se toda a filosofia de escola. É sempre bom sentir o livro, sentir algo como seu, para não estragar.

O Estado devia investir esses 12 milhões numa formação efetiva de todos os professores e na criação de condições de bem-estar para todos porque, neste momento, os professores estão moralmente abatidos. Não há progressões na carreira há 12 anos, trabalham um grande número de horas por dia, professores com 63, 64 anos têm de estar tantas horas na escola, a lecionar com alunos que exigem uma energia muito grande. Não vamos ter a política do estalo, não vamos ter a política “vou sentar-me e façam lá o que quiserem”. Temos de pensar em estratégias de forma a ter os alunos tranquilos, a trabalhar, com a sua energia, mas isso dá trabalho. E exigir uma energia suprema às pessoas para fazerem esse trabalho é desumano.

E: Caiu-se no discurso de reutilizar só porque sim?
JA: Exatamente. Não acho que o problema do papel seja o grande problema do país. Se calhar, neste momento, são mais os incêndios. Porque não se investe numa política de reordenamento do território para que não haja tantos incêndios?
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