Professores não conseguem dar toda a matéria de Matemática do 10.º e 11.º anos

Associação de Professores de Matemática (APM) lançou um questionário aos docentes sobre programa da disciplina do 10.º e 11.º anos e verificou que há “atrasos substanciais” em lecionar toda a matéria prevista. A APM insiste que este programa é “extenso e incompatível com a carga letiva” e pede informações à tutela.
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A Associação de Professores de Matemática (APM) sempre apontou o dedo ao programa e às metas curriculares de Matemática A do 10.º e 11.º anos do Ensino Secundário, aprovado em 2014 e aplicado no ano letivo de 2015/2106. Comparou-os com outras realidades, nomeadamente em relação ao que é feito nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Singapura, e afirmou que esse programa “é extenso, incompatível com a carga letiva atribuída, e com um nível de abstração e formalização acima de qualquer outro programa internacional”.

Nos últimos dois anos, a APM percebeu que havia dificuldades na gestão deste programa através do que escutava de professores, de escolas, de pais e encarregados de educação, e quis perceber o real estado da situação. Preparou um questionário sobre o assunto e entre maio e junho recebeu 562 respostas de docentes de todo o país, ilhas incluídas. Os resultados confirmam os seus receios. “A lecionação do programa, na grande maioria dos casos e com expressão nacional, apresenta atrasos substanciais”, revela a APM.  

Perante os resultados obtidos, a APM considera que o Ministério da Educação (ME) terá de apurar, com urgência, o que se passa em todas as escolas. E, além disso, garante que é “indispensável” que, até 31 de julho, a tutela divulgue informações sobre o exame de Matemática A que será realizado em 2017/2018, para que, sublinha, “os professores e as escolas possam programar o próximo ano letivo no sentido de ultrapassar as disparidades existentes relativas à implementação do atual programa e minimizar atempadamente os problemas identificados que podem afetar fortemente o desempenho dos alunos no exame do próximo ano”.

No questionário, que esteve disponível online, sobressaem alguns dados. Em 50% dos casos, o atraso na disciplina de Matemática no 11.º ano é de mais de 10 aulas de 90 minutos, e em 28% o atraso situa-se entre as 5 e as 10 aulas de 90 minutos. Isto é, em 2016/2017, cerca de 78% dos 311 professores do 11.º ano que responderam ao questionário, referem que há um atraso relevante de mais de cinco aulas de 90 minutos na lecionação do programa. Dos 562 professores que responderam ao inquérito, 356 lecionaram o 10.º ano em 2015/2016 e destes 88% não concluíram a lecionação do programa nesse ano.

Em 2016/2017, na Matemática do 10.º ano, 86% dos 333 docentes que lecionaram nesse ano revelam estar atrasados e, desses, 36% dizem estar bastante atrasados, mais de 10 aulas de 90 minutos. Dos 333 professores, 44 responderam que não estavam atrasados na matéria a lecionar e um respondeu que cumpriu a planificação.

Em relação à carga horária atribuída à disciplina no 10.º ano, desses 45 professores que não estavam atrasados, apenas 15 não identificaram qualquer aula suplementar regular para todos os alunos, referem apenas os apoios habituais. Ou seja, cerca de 5% dos professores que lecionaram o 10.º ano afirmam ter cumprido o programa sem recurso a aulas regulares extras no horário dos alunos. Em 2016/2017, na Matemática do 11.º ano, 11% dos 311 professores que lecionaram a disciplina afirmam que cumpriram o programa, um respondeu que cumpriu a planificação. Foram contabilizadas 35 respostas de professores que lecionaram o programa. Destes 35 docentes, relativamente à carga horária atribuída à disciplina no 11.º ano, apenas 9 não identificam qualquer aula suplementar regular para todos os alunos, ou seja, cerca de 3% dos professores que lecionaram o 11.º ano afirmam ter cumprido o programa sem recurso a aulas regulares extras no horário.

Metas insuficientes

O questionário permite perceber o número de horas dadas além do horário previsto para a disciplina e os professores destacam a não utilização de metodologias de participação e exploração por parte dos alunos, a não utilização de recursos digitais e tecnológicos, como é o caso da calculadora gráfica. E cerca de 60% dos 251 professores dizem que as orientações de gestão curricular para o programa e metas curriculares de Matemática A não estão a contribuir para uma melhor abordagem dos conteúdos e para o cumprimento do programa. Dezassete por cento dos inquiridos referem que o programa permitiu algum ajuste, mas consideram as metas insuficientes.

A APM admite que o questionário não permite ter a noção exata da situação e fazer uma avaliação rigorosa do que se passa com a implementação do programa de Matemática A, mas adianta que dá indicadores suficientes para “alertar para a gravidade do problema criado”. As críticas da APM ao programa dos alunos do Secundário são conhecidas. “É um programa que desvaloriza e não integra adequadamente a utilização de meios digitais, nomeadamente o recurso à calculadora gráfica há muito generalizada neste ciclo de ensino que permite a resolução de problemas com dados reais e facilita a prática da exploração de diversas situações matemáticas”, lembra, em comunicado. Além disso, na sua opinião, é um programa “incompatível e inconciliável” com o perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória traçado pelo Governo.

Com os resultados na mão, a APM reforça a sua convicção de que o programa está a “provocar cada vez mais apreensão com as aprendizagens dos alunos”. E deixa um aviso: “Independentemente da solução que venha a ser dada a esta situação que consideramos grave, uma outra, a curtíssimo prazo, urge remediação imediata: os alunos que em 2015/2016 iniciaram o seu percurso no Ensino Secundário irão, em 2017/2018, frequentar o 12.º ano de Matemática A do atual programa com o respetivo exame final.”

As respostas ao inquérito chegaram de todos os distritos do continente e das regiões autónomas dos Açores e da Madeira. A maior percentagem de respostas veio do distrito do Porto, com 21%, seguindo-se Lisboa, com 19%, Setúbal, com 7%, Braga e Leiria, ambos com 6%, e Aveiro e Coimbra, com 5%.
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