“A Baleia Azul é apenas uma forma de manifestação do problema”

Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net, avisa que este assunto não se resolve com uma dúzia de dicas, um cartaz e uma brochura.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
“Temos e devemos falar do problema, mas de uma forma informada e esclarecida e não de uma forma alarmista e que semeie o pânico como infelizmente tenho visto em alguma comunicação social com títulos sensacionalistas”. Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net, que surgiu para promover a utilização ética, responsável e segura das tecnologias de informação e comunicação por parte dos mais jovens, fala sobre a Baleia Azul. Na sua opinião, é preciso informar, estar atento aos jovens mais fragilizados e vulneráveis que têm mais dificuldades em recusar convites que surgem na Internet. As escolas devem trabalhar a questão da educação para a saúde, criar canais de ajuda, informar e esclarecer. Os pais devem estar de olhos e ouvidos bem abertos, disponíveis para escutar, conversar, aconselhar, evitando assim que o Facebook seja um muro de lamentações.

Para Tito de Morais, o problema tem de ser encarado de frente. “Nos dias de hoje, falta resiliência aos jovens para fazerem face às pressões, contrariedades e falta de perspetivas com que se defrontam. É aí que a Baleia Azul está em mar aberto, revelando a necessidade de um programa educacional de promoção da resiliência”, refere nesta entrevista ao EDUCARE.PT. “Podemos falar de outras soluções, mas se não enfrentarmos de frente estas questões, estaremos sempre a aplicar um penso rápido numa ferida bem mais profunda”, acrescenta.

EDUCARE.PT: Como é que um jogo como a Baleia Azul, que já terá provocado graves incidentes, como a imprensa nacional e internacional tem noticiado, toma proporções tão dramáticas?

Tito de Morais (TM): As proporções dramáticas que a Baleia Azul assumiu devem-se sobretudo a três fatores. A capacidade disseminadora da Internet – sobretudo no que toca a conteúdos chocantes, polémicos e sensacionalistas - e o facto de esta não nos dar tempo de reflexão – tudo é muito fácil e rápido, bastando clicar gosto ou partilhar - potenciando assim a impulsividade e a viralidade deste tipo de conteúdos.

A forma sensacionalista como alguma comunicação social tem noticiado o assunto, contribuindo para um certo alarme social e clima de pânico que se gerou, noticiando os casos sem observar as melhores práticas explicitadas no guia “Prevenir o Suicídio – Um Guia para Profissionais dos Media”, documento produzido pela Organização Mundial de Saúde e disponibilizado em português no site da Sociedade Portuguesa de Suicidologia.

Não se compreende como as notícias sobre este assunto continuam a referi-lo como um jogo, descrevam como os jovens se automutilaram ou atentaram contra a sua própria vida, se ilustrem as notícias com imagens de automutilações e outras que nada têm a ver com o assunto (como se para noticiar abusos sexuais se tivesse de ilustrar com fotos e vídeos de crianças a serem abusadas) e sem fornecer contactos para linhas de apoio emocional para a prevenção do suicídio. E a partir daí, receio que todos os casos detetados de automutilação passaram a ser casos relacionados com a Baleia Azul, o que pode não ser forçosamente verdade.

O pânico que se gerou entre pais e educadores que receberam informação alarmista em forma desproporcional relativamente à informação sobre como fazer face ao fenómeno.

E: Pelas pesquisas que naturalmente tem feito, pelo que tem lido e ouvido, quão perigoso é este jogo Baleia Azul?
TM: Trata-se obviamente de algo nocivo, prejudicial e danoso. No entanto, felizmente, julgo que é importante termos presente que a esmagadora maioria dos jovens, se confrontados com um convite para aderir à Baleia Azul, recusará o convite, denunciando a mensagem ou o utilizador, bloqueando-o ou eliminando a mensagem.

O problema é que haverá sempre jovens fragilizados que não conseguirão recusar o convite, dada a sua condição. São esses que temos por obrigação identificar e ajudar a desenvolver competências no domínio da resiliência para que consigam vir a dizer “não” se confrontados com convites para práticas que lhes possam ser nocivas, danosas ou prejudiciais “tout court” e não apenas relacionados com a Baleia Azul. Ajudar a dizer não e a recusar e denunciar a coação, a ameaça e a chantagem, explicando como funcionam estes mecanismos da engenharia social próprios de uma atividade criminosa.

Gostava ainda de alertar para algo de que se tem falado pouco: para além dos jovens fragilizados, poderá haver um outro grupo-alvo suscetível de participar neste tipo de fenómenos e do qual pouco ou nada se tem falado. Trata-se dos que vivem em função do moto YOLO (You Only Live Once) e que a história recente nos tem mostrado ser atreita em alinhar em “desafios” perigosos e mortais, como sejam o Neknominate e dezenas de outros semelhantes.

E: As escolas não estão indiferentes a este jogo, ao ponto de disseminarem informações aos alunos e pais. Quais os pontos que, na sua opinião, são absolutamente essenciais abordar e alertar em relação a este assunto?
TM: Para as escolas sugiro um plano em cinco passos, não apenas relativamente à Baleia Azul, mas em relação aos conteúdos nocivos, prejudiciais e danosos, como comportamentos autolesivos ou potencialmente autolesivos. Primeiro: debater abertamente o tema e escutar os alunos, abordando nomeadamente o que os alunos sabem sobre o assunto, o que será verdade e o que será mentira evitando especulações (o que poderá ser difícil), o que motiva e quais os interesses que podem motivar os instigadores (prefiro o termo a “curadores”), porque há quem participe. Segundo: identificar alunos potencialmente vulneráveis. Terceiro: criar canais de ajuda. Algumas escolas dispõem de psicólogo escolar, outras de GAAF (Gabinetes de Apoio ao Aluno e à Família) que devem ser envolvidos. Os que não tiverem poderão criar um grupo de trabalho para o assunto, por exemplo no âmbito do grupo da saúde escolar e da educação para a saúde. Quarto: preparar pessoas para atender os alunos e famílias. Quinto: informar as famílias.

Estes esforços também podem e, no meu ponto de vista, devem envolver e articular-se com autoridades policiais (do programa Escola Segura, por exemplo), Comissões de Proteção de Crianças e Jovens, e Centros de Saúde, no sentido de darem seguimento e acompanhamento a eventuais denúncias.

E: Portugal está a investigar alguns casos de automutilação de jovens. Esta situação deveria ser analisada com mais atenção? O que poderia ser feito?
TM: O fenómeno não é novo e alertei para o mesmo há três anos, num alerta numa reportagem da SIC. Por outro lado, em 2013, eu já tinha alertado para os conteúdos nocivos, prejudiciais e danosos numa rubrica chamada “Bits & Bytes”, programa Porto Alive, no Porto Canal: “Conteúdos Nocivos, Prejudiciais ou Danosos na Internet”. Nestes enquadram-se também, por vezes, alguns desafios que surgem na Internet, na prática instigando os jovens para algumas práticas de que podem resultar danos e lesões.

Sobre estes, nessa mesma rubrica no programa do Porto Canal, em 2014, abordei um desses desafios: “NekNominate - Desafios Mortais”. Por fim, este súbito interesse dos media pela automutilação não me surpreende. Surpreende-me apenas por se revelar tardio e pelo tom de pânico e alarme social com que tem sido noticiado. Apesar de não aprofundarmos o tema no livro Cyberbullying – Um guia para pais e educadores, que escrevi com a Sónia Seixas e com o Luís Fernandes, alertávamos para o aumento da prática em Portugal. Tal informação já havia sido pontualmente vinculada na comunicação social, em 2015 e 2016, relativamente ao estudo “Health Behaviour in School -aged Children (HBSC)” realizado em Portugal para a Organização Mundial de Saúde e coordenado pela professora Margarida Gaspar de Matos.

Por outro lado, o aumento da exposição dos jovens a conteúdos nocivos, prejudiciais ou danosos, tais como a anorexia, automutilação e ódio, já havia sido referenciado em 2014 pelo EUKidsOnline.

Relativamente ao que podia ser feito, apesar dos meus alertas, continua a verificar-se uma lacuna na existência de conteúdos no domínio da prevenção de conteúdos autolesivos destinados a jovens, pais e encarregados de educação, professores e educadores, à semelhança do que acontece noutros países, como por exemplo no Reino Unido com o site http://www.selfharm.co.uk/.

A Baleia Azul é apenas uma forma de manifestação do problema. Este é bem mais abrangente. É um problema de saúde pública e de saúde mental. Não é um assunto que se resolva com uma dúzia de dicas, um cartaz e uma brochura, exigindo uma abordagem integrada e um programa específico que sensibilize para o tema, fornecendo informação e formação. No mínimo, exigir-se-ia a disponibilização de informação semelhante ao que faz o National Health Service, serviço nacional de saúde britânico, em http://www.nhs.uk/Conditions/Self-injury/Pages/Introduction.aspx.

Por outro lado, nos dias de hoje, falta resiliência aos jovens para fazerem face às pressões, contrariedades e falta de perspetivas com que se defrontam. É aí que a Baleia Azul está em mar aberto, revelando a necessidade de um programa educacional de promoção da resiliência. Podemos falar de outras soluções, mas se não enfrentarmos de frente estas questões, estaremos sempre a aplicar um penso rápido numa ferida bem mais profunda. Se não enfrentarmos o problema como referi, ele pode deixar de fazer manchetes na comunicação social até emergir de novo. Temos e devemos falar do problema, mas de uma forma informada e esclarecida e não de uma forma alarmista e que semeie o pânico como infelizmente tenho visto em alguma comunicação social com títulos sensacionalistas.

E: O que torna um jogo online potencialmente perigoso?
TM: O perigo está no facto de incentivar práticas autolesivas e suicidárias, por um lado, e por outro por haver jovens que, por se encontrarem vulneráveis ou por se acharem destemidos, podem deixar-se aliciar. É um exemplo de como o risco se pode tornar um dano, que no caso do suicídio é irrecuperável.

E: Quais os cuidados que os jovens devem ter para desconfiar das “ratoeiras” que surgem na Internet?
TM: Serem céticos e desconfiados e pensarem de forma crítica relativamente aos conteúdos e contactos a que podem ser expostos online e terem a noção que aquilo que publicam na Internet pode ser usado contra eles por terceiros mal-intencionados. Em termos gerais, e não apenas para os jovens, é essencial conhecermos as manobras de engenharia social que podem ter lugar online e offline.

E: O que é que os professores devem fazer nas escolas para que uma plataforma de informação, que está à distância de um clique, seja devidamente aproveitada e não perigosa?
TM: Riscos e oportunidades andarão sempre de mão dada. Neste caso concreto, a educação para a saúde é um dos temas que podem e devem ser trabalhado nas escolas. Por outro lado, contrapondo à Baleia Azul, os professores podem desafiar os alunos para desafios positivos como o da Baleia Rosa – http://www.baleiarosa.com.br/ – e outros que incentivam e promovem atitudes positivas e de cidadania ativa.

E: E os pais devem vigiar os filhos, devem ver o que andam a fazer na net? Como devem atuar perante uma ameaça como esta? E têm razões para estarem preocupados com o jogo Baleia Azul?
TM: Para começar, devem preocupar-se com a saúde e bem-estar físico e mental dos filhos, seja na Internet ou fora dela. Se os filhos estiverem bem, física e mentalmente, com bons níveis de autoestima e resiliência, como o que acontece com a maioria dos jovens, se confrontados com este tipo de situações, saberão dizer não. Por outro lado, devem estimular a comunicação familiar e certificarem-se que mantêm uma relação aberta com os filhos e que estes estejam sempre à vontade para lhes contarem o que os preocupa, tendo a certeza que os pais os escutarão e ajudarão a ultrapassar as contrariedades naturais da vida, sobretudo da vida complicada que é a vida dos adolescentes.

Por fim, devem debater o assunto abertamente, sem tabus e juízos pré-feitos. Uma das formas de o fazer é seguindo as recomendações que fiz acima relativamente às escolas. É importante que os nossos filhos saibam que, além de nós, há outras pessoas e entidades que estão disponíveis para os escutar. É preferível recorrer a elas a tratar o Facebook como muro de lamentações. Por fim, a família tem de ser família offline, mas também online.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.