As singularidades da Escola da Ponte contadas em livro

Paulo M. Morais, romancista e ex-jornalista, esteve na escola que não tem campainha e não faz testes, que ensina de forma diferente há 40 anos e que é estudada em todo o mundo, e escreveu o livro Voltemos à Escola. A obra chegou às livrarias na sexta-feira passada dia 12.
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“Parti para o livro sem pré-conceitos, sem intenções de demonstrar uma teoria. A ideia era ir à Escola da Ponte com a lembrança do que foi a minha escolaridade, ou de como funciona a escola da minha filha, e tentar perceber quais eram os alicerces daquela abordagem diferente ao ensino. E é essa imersão, essa experiência, esse confronto que acaba por ser descrito no livro”. O livro chama-se Voltemos à Escola, as frases são de Paulo M. Morais, romancista e ex-jornalista, autor da obra, e a escola é a Escola da Ponte, escola pública que ensina de forma diferente há 40 anos, desde 1976, primeiro na Vila das Aves e agora em S. Tomé de Negrelos, no concelho de Santo Tirso.

Há muitas perguntas que cabem neste livro. Questões, dúvidas, incertezas. Como funciona esta escola? Quais as diferenças no método de ensino? Há estudos sobre os seus resultados? Quem são os professores? Como atuam no espaço de aula? Por que razão há espaços e não salas de aula? E porque são orientadores educativos em vez de professores? Os alunos fazem o que querem? Como resolvem os conflitos? Aprende-se o quê na Escola da Ponte? Paulo M. Morais partilha a sua experiência por palavras ao longo de 223 páginas.

Escola da Ponte A obra Voltemos à Escola, publicada pela Contraponto, chegou na sexta-feira às livrarias. Com prefácio de António Sampaio da Nóvoa, foi apresentada no Porto, no âmbito do ciclo literário Porto de Encontro, no dia 13 de maio, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, com a participação de professores da Escola da Ponte. Hoje, na FNAC Chiado, em Lisboa, Alexandre Quintanilha e Rui Vieira Nery apresentam o livro, às 18h30.

É um livro que faz pensar como a escola funciona, como o sistema está montado, como é possível atingir as mesmas metas com outros métodos, com outro modelo de aprendizagem. Paulo M. Morais tirou vários apontamentos nos dias que passou e sentiu como vive uma escola que nem sequer aparece no mapa. Na Escola da Ponte, os alunos debatem e decidem tudo o que nela se passa, porque há uma assembleia de alunos eleita pelos próprios estudantes – o autor do livro acompanhou o processo eleitoral, desde a apresentação dos candidatos ao dia da eleição. Cada criança define o respetivo plano de aprendizagem, de acordo com conceitos de autonomia, solidariedade e responsabilidade. Os professores trabalham em equipa dentro dos diferentes espaços.

É uma escola que não se organiza por turmas ou anos escolares. Não divide o tempo em aulas desta ou daquela disciplina. Não tem campainha para assinalar a entrada e a saída. Funciona há 40 anos segundo os mesmos princípios. Já foi objeto de estudo de mais de 40 teses académicas de vários países. Tem um modelo copiado internacionalmente. Na avaliação externa feita pela tutela, em 2013, tirou nota máxima em todas as categorias analisadas. É visitada por centenas de especialistas estrangeiros todos os anos, 622 só em 2016.

Uma escola de “outra maneira”
Assinalar os 40 anos do Projeto Fazer a Ponte, ou como a Escola da Ponte ensina de forma diferente há 40 anos, foi o ponto de partida. Paulo M. Morais aceitou o desafio do seu editor para dar a conhecer o projeto pioneiro de uma escola pública que não tem professores mas sim orientadores educativos, que tem tempos em vez de disciplinas, que avalia quando os alunos do 1.º ao 9.º ano se sentem preparados. Uma escola onde os alunos decidem todos os passos, uma escola normalmente designada como a mais democrática do país, uma escola que não tem campainha e que deixa bem explícita a importância do envolvimento dos pais e encarregados de educação no seu projeto educativo. Uma escola que não fica numa grande cidade.

“Limitei-me a observar o quotidiano da Escola da Ponte para tentar descobrir as cambiantes, as peculiaridades que pudessem estar menos evidentes ou ausentes da linguagem técnica dos estudos. E o que encontrei foi uma comunidade escolar envolvida e comprometida com o projeto, num sentido de unidade incomum. Os comportamentos a que fui assistindo levaram-me a concluir, por exemplo, que a palavra afeto, entre outras, deveria ganhar maior relevância dentro dos recintos escolares”, adianta Paulo M. Morais ao EDUCARE.PT.

A Escola da Ponte é uma escola pública. Tem cerca de 200 alunos do 1.º ao 9.º ano. Está sob a alçada das regras do Ministério da Educação, os professores que lá chegam sujeitam-se ao habitual concurso. Tem alunos iguais aos outros: bons e maus alunos, alunos distraídos, alunos com necessidades educativas especiais, alunos mais atentos, alunos mais preguiçosos. Alunos que brincam no recreio, que fazem barulho, mas que quando entram no espaço de aula sabem quais as regras a cumprir. Nesta escola, a abordagem é diferente, apesar das metas e objetivos comuns a todas as outras escolas do país.

Paulo M. Morais conta o que viu. “Aqui não há as típicas salas de aula quadradas; há espaços de aprendizagem, flexíveis, com paredes e portas modulares que permitem abrir ou compartimentar as salas. Não há a típica fileira de mesas viradas para o quadro suspenso na parede, com a secretária do professor ligeiramente de lado a controlar toda a sala; há várias mesas redondas espalhadas pelos espaços, cada uma com quatro cadeiras, cujos tampos estão limpos dos costumeiros rabiscos. Não há professores, sentados à secretária ou de pé junto ao quadro, a ditarem a matéria; há professores que circulam pelo espaço, sentando-se ao lado dos alunos que os requisitam”, descreve no livro. Os professores, aliás, gostam de ser chamados orientadores educativos.

Sampaio da Nóvoa assina o prefácio do livro e tece algumas considerações sobre essa escola única no país. “A Escola da Ponte ‘nasceu’ aí por 1976, fruto da inteligência e da energia de José Pacheco e de muitas pessoas que a trouxeram, viva, inteira, até aos nossos dias. A sua excecionalidade reside, antes de mais, na normalidade, no facto de ser uma escola pública igual a tantas outras. Não é uma escola-piloto apoiada pelo Governo. Não é uma experiência extraordinária lançada por alguma fundação ou ‘think tank’. Não. É apenas, e isso é o ‘mais’, uma iniciativa de educadores, que se foram juntando, pensando e construindo práticas pedagógicas diferentes, abrindo-se à sociedade, colaborando com os pais, dando aos alunos o seu lugar próprio da escola”, escreve. “O que nos pode parecer estranho, à primeira vista, é a normalidade diária de uma comunidade educativa que pensa e pratica a escola de uma outra maneira”, acrescenta.

“Quem ensina aprende, quem aprende descobre-se”
A Escola da Ponte exige professores, ou melhor, orientadores educativos envolvidos, empenhados, atentos. Exige compromisso. “A história da Escola da Ponte é uma história de pessoas apaixonadas. É uma história de resistência, como tantos já disseram, mas principalmente de paixão pelas crianças, pela educação, pelo futuro”, escreve o romancista. Mas, nos dias que correm, há professores desencantados, desapaixonados da profissão que um dia escolheram. “Tentar contrariar o estado das coisas é uma tarefa exigente para a qual muitos professores julgam não possuir a energia necessária. Sentem-se desamparados, isolados, mas a Escola da Ponte é a prova de que um professor pode encontrar nos colegas, bem como nos alunos, braços amigos que o auxiliem na mudança. Talvez assim regresse a paixão pelo ensino, se volte a sentir o amor pela profissão. E quem ama o que faz vive certamente mais feliz”, sublinha Paulo M. Morais.

O autor do livro recolheu opiniões de quem anda por ali. O que têm a dizer alunos e orientadores educativos sobre a sua escola? “A escola mudou muito em mim. Sou mais autónomo/somos livres/tenho direito de opinião. A forma de ver o mundo”, escreveu Henrique, de 13 anos, há oito na Escola da Ponte. “É diferente de outras escolas, nós aqui estudamos por nós e ao nosso ritmo. Eu gosto muito. Há entreajuda”, refere Juliana, de 16 anos, dois de Escola da Ponte. A professora Angelina Almeida, com 20 anos de profissão, na Escola da Ponte desde 2012, também partilha o que sente. “Espaço em permanente transformação, interação e diálogo: quem ensina aprende; quem aprende ‘descobre-se’ e ‘redescobre-se’ para a vida”.

O romancista viu como uma escola conhecida e estudada em todo o mundo trabalha. E como é tão diferente de outras que nasceram exatamente com a mesma missão. “O sistema de ensino mantém-se praticamente inalterado desde a Revolução Industrial. As salas de aula, e os métodos pedagógicos, são quase iguais aos tempos dos nossos avós, bisavós, trisavós… A modernidade não passa por agora haver quadros interativos. É preciso questionar e repensar o modo de aprender e ficaremos satisfeitos se o livro Voltemos à Escola puder dar um contributo válido também nesse sentido”, adianta Paulo M. Morais.

Paulo M. Morais nasceu em fevereiro de 1972. “Cresceu nos arredores de Lisboa entre futebóis de rua, livros de aventuras e matinés de filmes clássicos. Licenciou-se em Comunicação Social e cumpriu um sonho de juventude ao fazer crítica de cinema. Depois pôs uma mochila às costas e viajou à volta do mundo. No regresso, especializou-se em textos sobre gastronomia e turismo, foi pai de uma menina e plantou um pessegueiro”. É assim que se apresenta no livro.

Neste momento, traduz romances e livros de não ficção. “Vive deslumbrado pelo ofício de descobrir histórias”, conta. Em 2013, publicou Revolução Paraíso (Porto Editora), romance passado no pós-25 de Abril. Seguiu-se, em 2015, a distopia O Último Poeta (Poética Edições). Nesse ano, foi finalista do Prémio LeYa com um original ainda inédito e em 2016 publicou Uma Parte Errada de Mim (Casa das Letras), livro que junta memórias autobiográficas e reflexões sobre a vida no relato do tratamento de um linfoma.
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