O que se pretende de um aluno depois de 12 anos na escola?

A flexibilização dos currículos nos anos iniciais de ciclo permitirá cruzar disciplinas, investir no trabalho experimental, dar mais autonomia às escolas. O perfil do aluno do século XXI está traçado: ser perseverante perante as dificuldades, querer aprender mais, desenvolver o pensamento reflexivo e crítico. Há competências em várias áreas que merecem atenção especial.
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http://dge.mec.pt/perfilCruzamento de disciplinas, mais trabalho experimental, mais autonomia de decisão nas escolas. A flexibilização de currículos no 1.º, 5.º, 7.º e 10.º anos de escolaridade permitirá que assim seja e possivelmente já no próximo ano letivo. Segundo os planos do Ministério da Educação (ME), em 2017/2018, as escolas portuguesas estarão já a trabalhar com base num “novo referencial” nos anos iniciais de cada ciclo e que estará focado no “Perfil do Aluno para o Século XXI”, coordenado e apresentado há dias pelo antigo ministro da Educação, Guilherme de Oliveira Martins. O documento “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória” está em consulta pública até 13 de março.

O que se pretende de um aluno que termina os 12 anos de escolaridade obrigatória? Capacidade e conhecimento para aprender ao longo de toda a vida. “Quando saímos da educação formal, apenas temos licença para aprender”, sublinhou o antigo ministro da Educação. Segundo o secretário de Estado da Educação, João Costa, é necessário “tempo no currículo e tempo para fazer trabalho interdisciplinar e de projeto” para cumprir alguns objetivos constantes no perfil do aluno à saída do 12.º ano, recentemente divulgado.

“Hoje mais do que nunca a escola deve preparar para o imprevisto, o novo, a complexidade e, sobretudo, desenvolver em cada indivíduo a vontade, a capacidade e o conhecimento que lhe permitirá aprender ao longo da vida. Aquele que reconhece o valor da educação estuda sempre e quer sempre aprender mais”, lê-se nesse perfil.

Educar ensinando com coerência e flexibilidade é um dos princípios base do perfil, que deixa bem claro que é através da gestão flexível do currículo e do trabalho conjunto dos professores que é possível explorar temas diferenciados e trazer a realidade para o centro das aprendizagens. Este perfil não pretende uniformizar, mas sim “criar um quadro de referência que pressuponha a liberdade, a responsabilidade, a valorização do trabalho, a consciência de si próprio, a inserção familiar e comunitária e a participação na sociedade”. “Perante os outros e a diversidade do mundo, a mudança e a incerteza, importa criar condições de equilíbrio entre o conhecimento, a compreensão, a criatividade e o sentido crítico. Trata-se de formar pessoas autónomas e responsáveis e cidadãos ativos”, escreve Guilherme de Oliveira Martins no prefácio do documento.

Não há fórmulas únicas e perfeitas, mas a educação deve estar no centro do desenvolvimento da sociedade e as aprendizagens no centro do processo educativo. A inclusão é uma exigência, o desenvolvimento sustentável é um desafio, o saber deve ser constantemente valorizado. “E a compreensão da realidade obriga a uma referência comum de rigor e atenção às diferenças”, acrescenta o antigo ministro.

Procurar novas soluções e aplicações
É um perfil e um guia de princípios para uma educação inclusiva. Um perfil que menciona o que se pretende que os jovens alcancem depois de 12 anos de estudo. “Sem boas aprendizagens, não há bons resultados”. “A adoção do perfil é crítica para que todos possam ser incluídos e para que todos possam entender que a exclusão é incompatível com o conceito de equidade e democracia”, sublinha.

O aluno acaba o 12.º ano e o ME quer que esse jovem seja um cidadão dotado de “literacia cultural, científica e tecnológica para analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”. Um cidadão consciente do mundo que o rodeia, capaz de lidar com a mudança e a incerteza, com competências de trabalho colaborativo e capacidade de comunicação, apto a continuar a sua aprendizagem ao longo da vida, que valorize o respeito pela dignidade humana, que rejeite todas as formas de discriminação e de exclusão social.

As expectativas são altas. O aluno do século XXI deve aspirar ao trabalho bem feito, ao rigor e à superação. Ser perseverante perante as dificuldades, querer aprender mais, desenvolver o pensamento reflexivo, procurar novas soluções e aplicações. “Ao longo da sua escolarização, e em todas as áreas do saber, deverão ser proporcionadas aos alunos oportunidades que permitam desenvolver competências e exprimir valores, analisando criticamente as ações que deles derivam, e tomar decisões com base em critérios éticos”, adianta-se.

Evidenciam-se competências de natureza cognitiva e metacognitiva, social e emocional, física e prática. “As competências são determinantes no perfil dos alunos, numa perspetiva de construção coletiva que lhes permitirá apropriarem-se da vida, nas dimensões do belo, da verdade, do bem, do justo e do sustentável, no final de 12 anos de escolaridade obrigatória”. Nas competências na área das linguagens e textos, por exemplo, espera-se que os alunos sejam capazes de utilizar diferentes linguagens simbólicas associadas às línguas, à literatura, à música, às artes, às tecnologias, à matemática e à ciência, e que dominem capacidades de compreensão e de expressão nas modalidades oral, escrita, visual e multimodal. Na área de informação e comunicação, espera-se que usem e dominem instrumentos diversificados para pesquisar, descrever, avaliar, validar e mobilizar informação de forma crítica e autónoma, verificando diferentes fontes documentais e a sua credibilidade, e que comuniquem de forma adequada e segura, utilizando diferentes ferramentas.

Quanto ao raciocínio e resolução de problemas, destacam-se a gestão de projetos e a tomada de decisões para resolver problemas. Observar, identificar, analisar e dar sentido à informação, às experiências e às ideias e argumentar sempre que necessário estão em relevo no pensamento crítico e pensamento criativo. Desenvolver novas ideias e soluções, de forma imaginativa e inovadora, aplicando-as a diferentes contextos e áreas de aprendizagem, encaixa nesta parte. No relacionamento interpessoal, valorizam-se comportamentos em contextos de cooperação, partilha, colaboração e competição, bem como saber ouvir, interagir, argumentar, negociar e aceitar diferentes pontos de vista. Na área de desenvolvimento pessoal e autonomia, os alunos devem desenvolver a capacidade de integrar pensamentos, emoções e comportamentos. Aqui trabalha-se a motivação para aprender, bem como a iniciativa e tomada de decisões fundamentadas. Definir objetivos, traçar planos e projetos são, por isso, aspetos relevantes. Na área de bem-estar e saúde, estão os hábitos quotidianos, na alimentação, na prática de exercício físico, na sexualidade e nas relações com o ambiente e a sociedade.

Na área de sensibilidade estética e artística, encaixam capacidades relativas à formação do gosto individual e do juízo crítico, ao domínio de processos técnicos e performativos envolvidos na criação artística, possibilitando o desenvolvimento de critérios estéticos para uma vivência cultural informada. Os alunos devem compreender os processos próprios à experimentação, à improvisação e à criação nas diferentes artes, tanto em relação ao património cultural material e imaterial, como à criação contemporânea. No saber técnico e tecnologias, os alunos devem ser capazes de executar diversas operações e na área de consciência e domínio do corpo abordam-se múltiplas formas para a realização de atividades motoras.

Integrar saberes
Há problemas que não são escondidos. Opções que são questionadas. “Ao longo dos últimos 30 anos, os planos de estudo para os ensinos Básico e Secundário e os programas das disciplinas foram sofrendo alterações individualizadas e desiguais. Este trabalho atomizado e setorial sacrificou uma visão integrada dos documentos curriculares e, consequentemente, das aprendizagens a desenvolver ao longo da escolaridade.” E uma escolaridade obrigatória de 12 anos implica percursos educativos diversificados e um referencial educativo que oriente todas as decisões ligadas a este processo que precisa do compromisso das escolas, da ação dos professores e do empenho das famílias, pais e encarregados de educação.

Perfil traçado, alterações nas práticas pedagógicas e didáticas. A postura dos professores é fundamental e o documento realça várias ações relacionadas com a prática docente e que são determinantes para o desenvolvimento do perfil dos alunos. Abordar os conteúdos de cada área do saber, associando-os a situações e problemas presentes no quotidiano da vida dos alunos, recorrendo a materiais e recursos diversificados, é um dos exemplos. Mas há mais. Incluir a experimentação de técnicas, instrumentos e formas de trabalho diversificados, promovendo, na sala de aula ou fora dela, atividades de observação, questionamento da realidade e integração de saberes. Organizar e desenvolver atividades cooperativas de aprendizagem, orientadas para a integração e troca de saberes.

Os professores podem fazer muita coisa. Organizar o ensino prevendo a utilização crítica de diversas fontes de informação e tecnologias de comunicação. Promover de modo sistemático e intencional, dentro e fora da sala de aula, atividades que permitam aos alunos fazerem escolhas, confrontarem pontos de vista, resolverem problemas e tomarem decisões. Criar na escola espaços e tempos para que os alunos intervenham livre e responsavelmente. Valorizar, na avaliação das aprendizagens, o trabalho de livre iniciativa, incentivando a intervenção positiva no meio escolar e na comunidade.

“A ação educativa é, pois, compreendida como uma ação formativa especializada, fundada no ensino, que implica a adoção de princípios e estratégias pedagógicas e didáticas que visam a concretização da aprendizagem. Trata-se de encontrar a melhor forma e os recursos mais eficazes para todos os alunos aprenderem, isto é, para que se produza uma apropriação efetiva dos conhecimentos, capacidades e atitudes que se trabalharam, em conjunto e individualmente, e que permitem desenvolver as competências-chave ao longo da escolaridade obrigatória”, lê-se no perfil do aluno.

Informações:
http://dge.mec.pt/perfil
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