Ensino profissional: de parente pobre a “parente maior”

Já não é visto como um refugo do ensino, a sua imagem tem vindo a mudar. O ensino profissional é uma aposta do Ministério da Educação. Uma alternativa consistente que dá ferramentas aos alunos que querem entrar mais cedo no mercado de trabalho e que também dá acesso ao Ensino Superior.
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O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, disse-o com todas as letras: o ensino profissional é hoje um dos pilares mais importantes da qualificação dos portugueses. E há planos. “Nós temos um objetivo básico e fundamental: chegar a 2020 com 50% dos nossos alunos a concluir o Ensino Secundário através de vias profissionalizantes”, disse o governante nas comemorações do 10.º aniversário da Ensiguarda – Escola Profissional da Guarda. Nesta visita, o titular da pasta da Educação aproveitou o momento para lembrar que muitos alunos do ensino profissional “dão belíssimas cartas” no ensino superior politécnico e universitário.

O professor Diogo Afonso, há quatro anos no ensino profissional, concorda com esta visão. “O ensino profissional tem sido capaz de responder às constantes mudanças e exigências de uma sociedade em constante mutação e um mercado de trabalho cada vez mais instável”, refere ao EDUCARE.PT. “Ao longo dos anos, o ensino profissional tem conquistado um estatuto sólido resultado de todo o esforço e dedicação de todos aqueles que fazem parte integrante deste trabalho”, acrescenta. Depois de dois anos na Escola Secundária Santa Maria Maior, está há dois anos na Escola Profissional Profitecla, no polo do Porto, onde é coordenador do curso Auxiliar de Saúde. O futuro, em seu entender, passa por preparar jovens para a vida profissional, pelo desenvolvimento pessoal e cívico.

Há formação específica para os alunos, há trabalho para preparar quem aprende a encarar desafios com esforço e perseverança, há também a possibilidade de adquirir habilitações académicas e competências profissionais que permitem prosseguir estudos no Ensino Superior. E há ainda a ligação das escolas com os parceiros que acolhem os alunos para formação em contexto de trabalho. E tudo é importante. “A imagem do ensino profissional tem vindo a mudar e hoje assume-se como uma alternativa positiva e verdadeira ao sistema regular de ensino, para jovens que procurem mais cedo ferramentas que lhes permitam adquirir competências para, o mais rapidamente possível, poderem integrar o mercado de trabalho cada vez mais competitivo”, sublinha.

Para Diogo Afonso, o ensino profissional não pode ser considerado o parente pobre da qualificação dos jovens até porque há cada vez mais exemplos de formação de bons profissionais nessas escolas. “É importante dar continuidade a um projeto consistente, direcionado para os alunos de forma a promover o seu crescimento profissional, pessoal e socialmente responsável”, defende. E o sucesso deste ensino também é feito com alunos motivados, pais compreensivos e que encorajam os filhos, e docentes empenhados. “O professor deixa de ser apenas o transmissor de conhecimentos, para assumir o papel de orientador, motivador, facilitador da aprendizagem, reforçando a autoavaliação dos alunos e a avaliação formativa. Assume-se como um mentor pois tem a possibilidade de do ponto de vista pedagógico, inovar o currículo e direcionar o trabalho de acordo com as necessidades existentes”, refere.

“Enorme contributo ao país”
Moreira da Silva dá aulas de formação profissional há mais de 25 anos. Neste momento, colabora com a Escola Profissional Val do Rio, em Oeiras. Na sua opinião, a evolução do ensino profissional “tem sido notável” a vários níveis. Pelo reconhecimento das competências dos alunos, pelo esforço que as escolas têm feito na melhoria contínua dos seus serviços, pelo desempenho dos professores. “Os nossos clientes principais são os alunos”, diz ao EDUCARE.PT. “Um sistema sairá sempre valorizado pela quantidade e pela qualidade dos seus utilizadores”, acrescenta. O empenho de todos é importante. “Um sistema de educação só resultará bem, quando reconhecido pelos seus mentores, utilizadores e destinatários. E, hoje em dia, o ensino profissional presta um enorme contributo ao nosso país”.

A ideia de que o ensino profissional é um parente pobre do ensino não faz sentido, em seu entender. Esse rótulo desapareceu. As escolas têm melhorado sistemas de ensino e espaços formativos, alargaram parcerias a outros países para partilhar boas práticas que melhoram e renovam serviços. Moreira da Silva substitui parente pobre por “parente maior”. “O foco no desenvolvimento de competências específicas em cada área, ao longo de três anos, possibilita aos alunos o acesso a uma profissão reconhecida. E ao poder aceder ao ensino superior”, refere. “As vantagens são muitas para os que procuram ser bons profissionais. E para os que necessitam de bons profissionais para as suas organizações”.

“Outra grande evolução tem sido a comunicação entre as escolas profissionais, em que a ANESPO [Associação Nacional de Escolas Profissionais] tem sido o ‘cimento’ que promove o desenvolvimento do sistema de ensino profissional, com a colaboração e participação de todos”, comenta. O trabalho continua em prol de melhores cursos e de alunos mais bem formados. “A certificação dos sistemas de gestão das escolas, pela norma ISO 9001, bem como a monitorização de indicadores de desempenho, no sistema europeu EQAVET, são a prova real de que muitas escolas se encontram a trabalhar diariamente, na melhoria contínua dos seus serviços. Só podemos melhorar aquilo que conseguimos medir. E muitas escolas já têm alguns anos de experiência na monitorização de indicadores de sucesso da sua atividade principal: o ensino”.

O professor deixa uma sugestão. Além da dupla certificação, escolar e profissional, poder-se-ia promover também o acesso a uma tripla certificação. Ou seja, explica, “a certificação de mercado seria a terceira certificação. Tal como temos no exemplo das áreas das TIC, em que existe a regulação de certificação regulada internacionalmente pela associação sem fins lucrativos CompTIA. Exemplos como certificação CISCO, Microsoft, HP, entre outras, seriam certamente um garante de reconhecimento adicional para os nossos alunos, mesmo a nível internacional”.

Hugo Sá está no ensino profissional há 10 anos. É professor da área técnica dos cursos de Turismo e de Restauração, variante Mesa e Bar, na Escola Profissional Profitecla, no polo de Braga. Um dos sinais de que este ensino deixou de ser o parente pobre do sistema é a idade média dos alunos que procuram esta via de estudo. Se há uns anos, a idade rondava os 17, 18 anos, agora há jovens que acabam o 9.º ano e ingressam no ensino profissional com 16 anos e como primeira escolha. Hugo Sá destaca alguns fatores que levam ao aumento da procura e que mostram o ensino profissional como, sustenta, “uma forma muito estruturada de alguém procurar um futuro”.

“O mais importante é a aposta clara que as escolas fazem na qualidade da formação, no reforço dos quadros”, refere ao EDUCARE.PT. O desempenho de quem ensina, sobretudo nas áreas técnicas, é fundamental nesses estabelecimentos de ensino. Mas há mais fatores. A crise económica também mudou a maneira de pensar de muitas famílias. Antecipar a entrada no mercado de trabalho “de forma estruturada” tornou-se então uma opção viável. “Muitas famílias procuram uma saída profissional digna para os seus filhos”, sublinha.

A necessidade de o país ter quadros intermédios também ajuda o ensino profissional a ser olhado com respeito. O que nem sempre aconteceu. Hugo Sá lembra-se desse tempo em que este ensino era visto como o parente pobre do sistema e que estava sobretudo destinado aos alunos que não tinham capacidade para concluir o ensino regular. “Era uma alternativa mais fácil porque, de certa forma, era mais prática”. “Era como um cesto onde tudo vinha parar”, recorda. Ideias que já fazem parte do passado.
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