Estudo mostra que 7% dos jovens foram vítimas de violência no namoro

Um inquérito realizado a 2500 jovens, entre os 12 e os 18 anos, mostra como é consentida a violência no namoro e lança o debate sobre as questões de género em casa e na escola.
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Abordar as questões de género em casa e na escola é mais importante do que pode parecer. “Ainda estamos inseridos numa sociedade que entende que o homem tem mais poder do que a mulher”, argumenta a criminóloga Ana Guerreiro, da UMAR, a propósito do mais recente inquérito sobre violência no namoro realizado junto de 2500 jovens entre os 12 e os 18 anos.

O estudo revela que entre os jovens que já namoraram, 7% admitem ter sido vítimas de algum tipo de violência física ou psicológica por parte do companheiro ou da companheira. No que diz respeito à violência sexual, 4,5% foram pressionados para terem relações sexuais ou para beijarem em público.

“O facto de haver uma pressão para beijar à frente de outra pessoa tem subjacente uma ideia de mostrar aos outros que aquela pessoa é minha. É um sentimento de posse e, por isso, insere-se na violência sexual”, explica ao EDUCARE.PT Ana Guerreiro.

Além da prevalência da violência no namoro, o estudo desenvolvido ao longo de quatro meses pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) aborda também a questão da legitimação. Os investigadores quiseram perceber como os jovens encaravam um conjunto de comportamentos associados à violência. Entre os 2500 inquiridos, uma média de 22% dos jovens consideram normal os comportamentos violentos (todos os tipos). “O que é muito!”, constata Ana Guerreiro.

“Realmente alarmante”, considera a investigadora, é a percentagem de 23% de jovens que consideram normal a violência sexual, que engloba o beijo público à força e a pressão para o sexo. Já 9% dos inquiridos de ambos os sexos não consideram violentos comportamentos como dar pontapés, empurrões, agarrar num braço e fazer pressão para que responda. No entanto, “a violência física não tem necessariamente de deixar marcas”, esclarece a investigadora.

A violência psicológica pode não causar nódoas negras, mas deixa marcas. Ainda assim, 24,3% consideram normal entre namorados comportamentos como: chamar nomes e humilhar, controlar o telemóvel (para ver, por exemplo, as mensagens enviadas ou recebidas), controlar as redes sociais, controlar a roupa que vai vestir ou proibir de utilizar determinado tipo de roupa, controlar com quem sai ou fala e as próprias proibições de falar ou de estar com alguém.

Entre rapazes e raparigas
Desagregando os dados por sexos, Ana Guerreiro fala numa “diferença alarmante” nas respostas dadas. Quase um terço dos rapazes (32,5%) acham legítimo exercer violência sexual sobre as namoradas. Por outro lado, 14,5% das raparigas não reconhecem como violência o ato de serem forçadas a darem um beijo ou pressionadas para o sexo.
Mais do dobro dos rapazes, em relação às raparigas, legitimam comportamentos que se inserem nas categorias de violência física e sexual. Outros dados mostram ainda que 16% dos rapazes consideram normal forçar o/a companheiro/a a ter relações sexuais.

A conclusão não surpreende a criminóloga: “As raparigas sempre foram educadas para uma submissão, os rapazes para o controlo e se sempre foram educados assim vão reproduzir esses comportamentos que lhes chegam de cima.”
O estudo contou com inquiridos que frequentam escolas do Grande Porto, Braga e Coimbra e foi desenvolvido no âmbito do projeto Artways - Políticas Educativas e de Formação contra a Violência e Delinquência Juvenil.

A média de idades dos grupos inquiridos ronda os 14 anos. Razão pela qual Ana Guerreiro considera os números “preocupantes”. Lembrando que a UMAR faz estudos sobre violência de namoro desde 2009, a criminóloga salienta que em relação ao ano anterior, os dados mostram poucas mudanças ao nível da vitimação.

Na violência sexual há uma subida de 0,5%. No entanto, “tal não significa um maior número de casos de violência”, diz Ana Guerreiro. “Pode ser resultado de reconhecimento de que ela existe, ou seja, antes os jovens não reconheciam aquele comportamento como violência e agora passam a reconhecer. O que pode ser fruto do trabalho que a UMAR tem feito nas escolas.”

A associação sem fins lucrativos trabalha há 12 anos na prevenção primária da violência nas escolas. Especialistas nas questões de género atuam ao nível da prevenção usando metodologias artísticas. “Privilegiamos o trabalho contínuo e sistemático”, explica Ana Guerreiro, acrescentando que o objetivo “é colocar os jovens a refletir sobre determinado tema e promover comportamentos saudáveis e pró-sociais.”

Ter técnicos exteriores ao ambiente escolar a abordar as questões de género é vantajoso para alunos e docentes, garante Ana Guerreiro: “Não só chama mais a atenção aos jovens como tira alguma carga aos professores que além de terem o currículo para lecionar, muitas vezes, não têm formação, nem se sentem à vontade para falar destes temas.”

O projeto da UMAR nas escolas está pensado para intervir ao longo de três anos com a mesma turma. “O primeiro ano serve para conhecer a turma e sensibilizar para o tema, no segundo há um trabalho de consciencialização e no terceiro de conscientização, em que as temáticas começam a fazer parte do dia a dia dos jovens.” Apesar do trabalho estar a ser bem acolhido, segundo Ana Guerreiro, muitos pedidos das escolas ficam sem resposta por falta de recursos. “O ideal seria que se implementasse um programa nacional”, conclui.


Conselhos para pais e professores
O EDUCARE.PT pediu à criminóloga Ana Guerreiro alguns conselhos para pais e professores preocupados com as questões de género.
Em casa
“Os pais e as mães devem ter cuidado com o tipo de atitudes e comportamentos que têm. Se existem desigualdades de género dentro da família, estas vão servir de exemplo às crianças. Porque a casa é o primeiro nicho onde os jovens se inserem e daí é que levam alguns exemplos de comportamentos. Na idade do pré-escolar e do primeiro ciclo já existem alguns estereótipos intrínsecos que as crianças vem nos pais e reproduzem. Isso vê-se, por exemplo, nos desenhos que fazem.”

Na escola
“Seria ótimo que o corpo docente se envolvesse nas questões de promoção da igualdade do género e da não violência. Como? Pode-se fazer isso das formas mais simples. Numa aula de Matemática o professor pode substituir um problema que começa com “a mãe foi às compras” por “o pai foi às compras” e, assim, trocar os papéis de género em vez de promover os tradicionais. Numa aula de Geografia ou de História, pode-se pegar no mapa da cidade e ver que a maior parte das ruas tem nome de homens. Porque não pôr os alunos a refletir sobre essa questão? Ou falar na importância do Dia da Mulher e em como representa toda uma história de luta pela igualdade de géneros e de oportunidades.”
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