Más notas: o ciclo vicioso que é preciso romper

Alunos imigrantes, de famílias com baixos rendimentos, com pelo menos um ano de retenção ou a viver com um único progenitor são mais suscetíveis de obterem maus resultados na escola, diz a OCDE.
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Muitos alunos, por todo o mundo, caem num ciclo vicioso de maus resultados e desmotivação. Más notas geram desinteresse pela escola. Pior: têm consequências negativas para toda a vida. “Nos alunos de 15 anos, as dificuldades escolares são um risco acrescido de abandono”, lê-se num relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), apresentado no início de fevereiro, que analisa os últimos classificados nos testes do PISA. “Porque parte da população não dispõe das competências necessárias, o crescimento económico nacional a longo prazo está gravemente comprometido”, alerta a OCDE.

De acordo com os resultados do PISA 2012, nos países da OCDE, mais de um em cada quatro alunos, com 15 anos de idade, não alcançam o nível limiar de competências em pelo menos um dos três domínios avaliados. A saber: matemática, literacia e ciências. Significa que nos 64 países e economias parceiras que realizaram o PISA 2012, cerca de 13 milhões de alunos são de baixo rendimento a pelo menos uma matéria.

Os dados preocupam a OCDE, que entende a redução dos maus desempenhos não só como um objetivo em si, mas como um meio eficaz de melhorar o resultado global dos sistemas educativos e a sua equidade. Uma vez que os alunos com piores classificações no PISA provêm de famílias desfavorecidas ao nível socioeconómico.

Alguns países são apontados pela OCDE como exemplo por terem conseguido contrariar os fracos desempenhos desde a penúltima avaliação. Portugal, Brasil, Rússia, Itália, Alemanha, México, Polónia, Tunísia e Turquia reduziram o número de alunos com classificações negativas a Matemática entre 2003 e 2012.

Segundo os investigadores, o facto de países com características tão diferentes, quer cultural quer economicamente, terem conseguido o mesmo feito mostra como é possível inverter os números. Como? “Todos os países podem melhorar os seus resultados desde que adotem as políticas corretas.”

Exceções à regra de que os alunos oriundos de famílias de baixos rendimentos apresentam taxas de sucesso baixas foi o que um estudo sobre desigualdades socioeconómicas e resultados escolares encontrou em Portugal. A Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEEC) analisou os percursos de sucesso dos alunos do 3.º ciclo de mil escolas públicas e concluiu que, ao nível distrital, fatores locais, como a cultura da escola ou o dinamismo dos professores, ajudavam a inverter cenários previsíveis de insucesso.

Perfis de sucesso e insucesso
Diferenças socioeconómicas, demográficas e escolares dos alunos explicam 15% da variação de prevalência de maus desempenhos no mercado de trabalho. A OCDE identifica uma espécie de perfil do aluno com sucesso escolar: pertence a uma família de classe média, é do sexo masculino, vive com os dois pais numa zona urbana e este matriculado um ano no pré-escolar.

Alunos com estas características têm apenas 10% de probabilidade de virem a ter maus resultados. No entanto, alertam os autores do estudo, basta uma mudança no perfil para inverter o cenário. Se o mesmo aluno da classe média for uma rapariga, oriunda de uma família monoparental imigrante, a viver numa zona rural, sem dominar a língua falada na escola, sem um ano de ensino pré-escolar e com um chumbo, a probabilidade de insucesso aumenta para os 76%.

Outros dados mostram ainda que quase 28% dos estudantes dos países da OCDE estão abaixo do limiar de competência em pelo menos uma das três principais áreas de avaliação do PISA (capacidade de leitura, matemática e ciências). A percentagem de alunos com fraco aproveitamento na matemática é mais elevada (23%) do que na leitura e nas ciências (18% cada).

Cerca de 12% dos estudantes têm um mau desempenho em todas as três disciplinas, e 3% deles estão abaixo do nível 1 de competências. De notar que o PISA utiliza uma escala de 1 a 5 em que os níveis mais baixos representam conhecimentos básicos e os mais elevados conhecimentos mais complexos. Existem quase 4 milhões de estudantes com idades entre 15 anos com fracas competências ao nível da matemática e quase 3 milhões ao nível da leitura e ciências.

Mas há boas notícias, incluindo para o sistema educativo português. Entre o PISA 2003 e o 2012, nove países reduziram as suas percentagens de maus resultados nas avaliações de matemática. Em quatro deles (Brasil, México, Tunísia e Turquia), esta melhoria é reflexo da redução da percentagem de estudantes que atingiu apenas o nível 1, enquanto nos outros cinco (Alemanha, Rússia, Itália, Polónia e Portugal), é explicado pela redução simultânea da percentagem de alunos de nível 1 e dos que ficaram abaixo desse limiar.

Fatores de risco

Seja qual for o país da OCDE, a conclusão é uma: “Os estudantes provenientes de contextos socioeconómicos desfavorecidos são mais propensos aos maus resultados do que os mais favorecidos”. Os investigadores revelam que “o efeito cumulativo de outros fatores de risco, que contribuem para o mau desempenho, é maior no primeiro do que no segundo grupo.” O relatório “Low-Performing Students – why they fall behind and how to help them succeed” [Alunos com baixos resultados – porque ficam para trás e como ajudá-los no sucesso] mostra quem são os grupos de maior risco.

As conclusões não surpreendem. Os alunos de origem imigrante que não falam a mesma língua falada na escola correm 2,5 mais riscos de obter maus resultados. As diferenças entre rapazes e raparigas mostram que elas são mais propensas aos maus resultados em matemática do que eles. No entanto, é mais comum os rapazes terem maus na leitura e nas ciências.

Persistem as desigualdades entre o campo e a cidade. A percentagem de alunos com fraco aproveitamento é maior entre os estudantes que vivem em áreas rurais. O mesmo sucede entre os alunos provenientes de famílias monoparentais. Confirmando o que já tem sido verificado noutros estudos internacionais, os alunos repetentes, ou seja, que tenham chumbado pelo menos uma vez, têm sete vezes mais probabilidade de obterem maus resultados que os colegas que nunca chumbaram de ano.

Frequentar o ensino pré-escolar é uma forma de garantir melhores resultados no futuro. A probabilidade de más notas é três vezes maior entre os alunos sem pré-escolarização por comparação com os que frequentam pelo menos um ano de educação antes do ensino primário.

Em 2012, o foco do PISA voltava-se para a matemática. Neste relatório mostram-se também alguns dados que indicam quais os alunos com mais dificuldades nesta matéria. Cerca de 40% dos alunos matriculados em programas de formação profissional estão neste grupo, contra 20% dos alunos matriculados em cursos de ensino geral.

O estudo diz ainda que os alunos com maus resultados a matemática tendem a mostrar um menor nível de perseverança, motivação e autoconfiança. No que diz respeito à assiduidade, os estudantes que faltaram à escola pelo menos uma vez, durante as duas semanas anteriores à avaliação do PISA, são três vezes mais suscetíveis de terem fracos desempenhos a matemática.

Como ajudar os alunos a obterem melhores resultados? A resposta requer a “implementação de uma abordagem multifacetada”, recomendam os investigadores, num capítulo onde se apontam algumas soluções para contrariar os maus desempenhos. A primeira passa pela criação de ambientes estimulantes de aprendizagem, com apoio escolar específico. Mas também pela repartição equitativa de recursos entre estabelecimentos de ensino. Pais e comunidade local podem contribuir nesta luta. “É preciso incentivar os alunos a aproveitarem ao máximo as oportunidades educacionais disponíveis para eles”, urge a OCDE. Diz, também, que são necessários programas específicos para combater o insucesso entre os alunos imigrantes ou falantes de línguas minoritárias e os que vivem em zonas ruais. “Há um longo caminho a percorrer na luta contra os estereótipos de género e na generalização do acesso à educação pré-escolar”, conclui o relatório.
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