12% dos alunos já adormeceram nas aulas pelo menos uma vez

Estudo revela que 72% das crianças e jovens, com idades entre os 9 e os 17 anos, dormem sete a nove horas por noite. Dos 502 inquiridos, 195 sentem-se ansiosos, 160 desmotivados e 114 muito tristes. Hábitos de sono podem interferir no desempenho escolar. E há um dado surpreendente: 85,1% dos alunos do 1.º ciclo têm televisão no quarto.
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Um estudo do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) da Universidade do Minho, Braga, dá indicações importantes sobre alguns hábitos dos alunos dos 9 aos 17 anos. A tese de mestrado de Olinda Oliveira, orientada neste trabalho por Zélia Anastácio, do Instituto de Estudos da Criança, revela que 72% dos menores dormem entre sete e nove horas por dia durante a semana e mais de metade admite sentir distração algumas vezes. Para esta pesquisa, foram inquiridos 502 alunos com idades compreendidas entre os 9 e os 17 anos, 249 do sexo feminino e 253 do sexo masculino.

Sete a nove horas de sono durante os períodos de aulas nem sempre são suficientes. Doze por cento dos alunos revelam que já adormeceram nas aulas pelo menos uma vez. E 85,1% dos alunos do 1.º ciclo do Ensino têm televisão no quarto. O estudo identificou fatores externos com impacto na redução progressiva das horas de repouso e entre eles está a presença de aparelhos multimédia no quarto. Mais de sete em cada dez inquiridos afirmam ter televisão no quarto e 55,8% têm computador, aparelho de música e Internet. “A necessidade cada vez maior de privacidade por parte das crianças e dos adolescentes leva os pais a colocarem uma panóplia de aparelhos nos quartos dos filhos, propiciando hábitos de sono pouco saudáveis”, referiu publicamente a autora da investigação.

Mais de metade dos alunos admitem sentir distração e há sintomas associados a noites mal dormidas que surgem com alguma frequência. Dos 502 inquiridos, 198 referem mudanças de humor, 195 ansiedade, 185 bocejo constante, 166 agitação, 160 desmotivação, 141 olheiras, 129 irritabilidade, 118 pequenos acidentes, 114 muita tristeza e 100 fadiga muscular. “Quando a falta de repouso dificulta a memorização e a capacidade de concentração nas aulas, tal repercute-se nas capacidades de raciocínio, de retenção de informação, dificultando a aprendizagem e o desempenho escolar”, refere Zélia Anastácio ao EDUCARE.PT.

A investigação analisou a quantidade e qualidade de sono dos alunos em função do meio de residência, sexo e ano de escolaridade. E avaliou também de que forma essa qualidade de sono interfere na saúde física e emocional, nos comportamentos e na aprendizagem dos inquiridos. Os resultados indicam que os alunos que apresentam hábitos de sono mais saudáveis são os que moram em meio rural, deitam-se mais cedo durante a semana, entre as 21h e as 22h, e ao fim de semana entre as 23h e a meia-noite. Durante a semana, são as raparigas que acordam mais cedo do que os rapazes, tendência que se inverte ao fim de semana. Quanto mais novos, mais dormem. Quanto mais avançam no nível de escolaridade, mais diminuem as horas de repouso noturno.

“À medida que os alunos ficam mais velhos, os pais vão diminuindo gradualmente a sua vigilância sobre o tipo e tempo de utilização de meios como a televisão, o telefone/telemóvel, os jogos de consola/computador e a internet”, comenta Olinda Oliveira. Há mais fatores externos que influenciam significativamente a qualidade e quantidade de sono como a luminosidade no quarto, a ida ao shopping à noite e o consumo de bebidas com cafeína. Nos alunos com má higiene de sono, os sintomas negativos têm uma maior incidência, nomeadamente maiores dificuldades de memória, de atenção, de concentração, de criatividade, de raciocínio, de participação nas aulas e de aprendizagem e que normalmente significam aproveitamento escolares mais fracos. Olinda Oliveira avisa que as mudanças nos hábitos e padrões de sono podem ter repercussões negativas no processo de desenvolvimento, no progresso psicossocial e na performance escolar dos jovens.

Organizar rotinas  
Os comportamentos das crianças e adolescentes relacionados com a falta de sono foram sendo observados em sala de aula pelos professores do 1.º, 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico. Esse foi o problema identificado. Na procura dos fatores condicionantes do sono, as investigadoras ficaram surpreendidas com a elevada percentagem de crianças e adolescentes que têm televisão no quarto. E são os mais novos que surgem em primeiro lugar: 85,1% dos alunos do 1.º ciclo, 76,2% do 2.º ciclo e 75,3% do 3.º ciclo têm televisão no compartimento onde dormem. “Pensávamos que os pais estariam mais sensibilizados para os malefícios destes aparelhos num espaço destinado ao repouso, sobretudo das crianças”, adianta Zélia Anastácio. “Está em causa o conteúdo do que se vê num espaço privado, podendo haver imagens violentas e perturbadoras do sono, além de alguma luminosidade, ruído e radiação eletromagnética, sem esquecer a possibilidade de as crianças e os adolescentes fazerem de conta que estão a dormir quando os pais se vão deitar e após este momento ligarem estes aparelhos, interagindo com outros e reduzindo o número de horas do seu repouso”, acrescenta.

As crianças mais pequenas precisam de dormir mais tempo do que os adolescentes e os adolescentes mais do que os adultos. As atividades diárias da família, por vezes, retardam a hora de deitar e, portanto, é preciso organizar rotinas para que os mais pequenos se deitem cedo. Se há equipamentos eletrónicos, então é necessário reduzir o tempo de utilização e até mesmo retirá-los do quarto de dormir. “Os pais exercem um efeito de modelagem, pelo que precisam de estar conscientes do modo como as suas rotinas condicionam os hábitos de toda a família. Os pais devem estar atentos ao momento de deitar dos seus filhos e certificar-se de que quando estes vão para o quarto é realmente para dormir”, refere Zélia Anastácio.

“A falta de descanso traduz-se num conjunto de sintomas físicos, cognitivos e emocionais. Em termos físicos, manifesta-se por fadiga, cansaço muscular, olheiras, dores de cabeça. Em termos cognitivos, salienta-se a dificuldade de memorização e de concentração. Ao nível emocional, observam-se as oscilações de humor, a irritabilidade, a impaciência, por vezes a agressividade e, consequentemente, dificuldades de relacionamento. Ainda do ponto de vista fisiológico, a falta de descanso interfere nas reações metabólicas, na libertação de neurotransmissores, em suma, no equilíbrio homeostático do organismo”.

Os pais têm responsabilidades e as escolas devem alertar alunos e pais para as consequências do pouco tempo de sono. Zélia Anastácio recomenda ações de sensibilização sobre o tema com os olhos postos na saúde, bem-estar e sucesso educativo das crianças e adolescentes. “Os professores que identifiquem sinais reveladores de privação do sono devem sinalizar a situação, começando primeiro por uma abordagem com o aluno, no sentido de perceber as causas e auxiliar na mudança de hábitos e, posteriormente, se tal for necessário, fazer chegar o alerta aos pais”.
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