Lideranças partilhadas são importantes, mas há pedras no sapato

Os professores destacam a liderança exercida de modo participativo porque assim têm oportunidade de se envolverem na tomada de decisões. No entanto, há constrangimentos. A burocracia, a falta de tempo, a não valorização do seu trabalho por parte da tutela são alguns exemplos. Maria Lima Ferreira e Maria Assunção Flores, do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) da Universidade do Minho, estudaram o assunto.
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Há um estudo que auscultou e analisou as perceções de liderança escolar e desenvolvimento profissional em contexto de trabalho e, por isso, é um ponto de partida relevante para compreender melhor a liderança dos professores quer na sua dimensão formal, quer na sua dimensão informal. “Perceções dos professores sobre cultura e liderança escolar: implicações para o desenvolvimento profissional dos professores” é assinado pelas investigadoras Maria Lima Ferreira, recém-doutorada, e Maria Assunção Flores, orientadora, do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) da Universidade do Minho, em Braga. Este trabalho venceu o prémio de melhor póster no 17.º Congresso Bienal da Associação Internacional de Estudo dos Professores e do Ensino, que decorreu na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, no ano passado.

O póster, selecionado pela comissão científica do congresso entre mais de 30 trabalhos além de centenas de comunicações orais, apresentou os principais resultados de uma tese de doutoramento. Resultados que apontam para a influência das lideranças no desenvolvimento profissional dos professores, relativamente à promoção e desenvolvimento de projetos e ao reconhecimento do trabalho dos docentes, e para as tensões e constrangimentos associados à implementação de medidas políticas, relacionadas sobretudo com a avaliação dos professores e existência de diferentes subculturas nas escolas. O trabalho das investigadoras portuguesas destacou-se pela qualidade, originalidade e relevância para o estudo dos professores e do ensino.

Numa primeira fase do estudo, participaram 152 diretores de escolas da zona Norte do país e 170 professores que também desempenhavam a função de coordenadores TIC/PTE e que responderam a um inquérito por questionário. Na segunda fase, foram realizados grupos focais, tendo participado, no total, 10 professores e 10 alunos, tendo ainda sido desenvolvido um projeto de intervenção/formação com 10 docentes ao longo de um ano letivo.

As investigadoras concluem que, de uma forma global, os professores reconhecem na escola uma liderança exercida de modo participativo, em que têm oportunidade de se envolver na tomada de decisões, ou seja, sentem que o diretor os ouve e tem em consideração as suas perspetivas sobre as decisões a tomar. No entanto, alguns docentes receiam que a liderança distribuída corra o risco de enfraquecer, devido ao aparecimento da figura de diretor da escola. Temem, portanto, que o diretor concentre a liderança apenas na sua ação. “Esta apreensão deve-se, em grande parte, às orientações do Ministério da Educação, em virtude de as diretivas políticas poderem delegar no diretor toda a gestão da escola, que possa estar dependente da personalidade do diretor, podendo conduzir a um modelo de liderança menos democrática e menos distribuída”, explicam.

Da parte dos alunos, a perspetiva de liderança na escola aponta para duas tendências. Alguns têm uma visão baseada numa estrutura hierárquica, uma visão de liderança assente numa estrutura piramidal, em que, em última instância, o poder de decisão está sempre no topo, nas mãos do diretor. Outros alunos encaram a liderança na sua escola como sendo uma liderança distribuída, em que todos os atores da escola participam nos processos de decisão.

Os dados apontam para um reconhecimento, por parte de todos os professores e diretores, da importância da liderança no exercício das suas funções e, por conseguinte, no seu desenvolvimento profissional. Como fator potenciador de liderança, os professores sublinham a existência de uma cultura escolar com características de colaboração, reconhecendo que só desta forma os atores escolares poderão resolver os problemas com que se deparam. Os professores participantes no projeto de intervenção destacam espaços ou situações concretas em que podem praticar e até potenciar o exercício de liderança, nomeadamente o espaço da sala de aula, onde tentam ser líderes para os seus alunos. A importância da liderança no processo de ensino e aprendizagem é, portanto, enfatizada. Por sua vez, o diretor valoriza o sentido prático de liderança dos professores, a nível de iniciativas ou tomadas de decisão em tarefas espontâneas, como, por exemplo, recuperação e transformação de espaços e recursos físicos e desenvolvimento de projetos.

Mais burocracia, menos autonomia
Importância reconhecida, os professores, no exercício da sua liderança, evidenciam um conjunto de constrangimentos que associam às políticas educativas – menos autonomia, mais burocracia e mais trabalho. As oportunidades de exercer a sua liderança circunscrevem-se aos contextos de sala de aula - local por excelência para o exercício da liderança do professor.

Quanto aos constrangimentos em relação ao desenvolvimento profissional, os professores relacionam-nos também com as políticas educativas, enfatizando o problema do congelamento da progressão na carreira e o facto de a oferta da formação contínua começar a não ser gratuita. “Assinalam ainda como constrangimentos a crescente burocracia no seu trabalho, pois, referem que, cada vez mais, têm menos tempo para se dedicarem ao ensino propriamente dito, sentindo que uma parte significativa do seu tempo é dedicado a ‘preencher papéis’”, referem as investigadoras. Os diretores assinalam igualmente a gratuidade, ou não, da formação contínua, já que o facto de existirem verbas reduzidas para a formação aumenta o receio de que a oferta começará a escassear.
 
“Os professores reforçam a pouca oferta e a não gratuitidade da formação contínua que, por um lado, se é um fator apreensivo, por outro, poderá constituir-se num fator potenciador do seu desenvolvimento profissional, pois apela a interajuda e colaboração entre pares. Referem também como fator potenciador de desenvolvimento profissional a participação em alguns projetos de carácter inovador e a partilha de informação/resultados que estes proporcionam”.

Há fatores que inibem a liderança e o desenvolvimento profissional. Os professores põem o enfoque na desmotivação, fruto das políticas educativas e do próprio desprestígio da profissão. Sentem que vêm perdendo alguns dos seus direitos adquiridos, enquanto os deveres profissionais aumentam, assim como a perda de estatuto a que a carreira docente vem sendo sujeita. “Esta desmotivação e insatisfação dos professores são corroboradas pelo diretor, pois sente que as sucessivas medidas políticas educativas, num curto espaço de tempo, têm tido um impacto negativo no trabalho dos professores, levando a uma maior insegurança, referindo ainda como restrição ao exercício da liderança e ao desenvolvimento profissional outros fatores, nomeadamente a burocracia, a falta de tempo e a não valorização do trabalho dos professores por parte da tutela”.
 
Embora admitam uma certa desmotivação e insatisfação, os professores garantem que, apesar de tudo, continuam a exercer o seu papel com empenho, envolvendo-se na vida da escola e disponibilizando-se nas várias atividades escolares, o que só é possível porque gostam da sua profissão e, por isso, mostram-se sempre disponíveis para a “sua escola”, levando-os, por vezes, a ter de “esquecer o relógio”.

Processo participativo e autónomo
As motivações dos docentes para a frequência de formação contínua e de oportunidades de desenvolvimento profissional são sobretudo de natureza prática, emancipatória, em detrimento das de natureza política e instrumentais. Associam a natureza do seu trabalho a valores éticos, morais e a uma crescente complexidade. De modo geral, concordam que têm oportunidades para aprender algo novo, para desenvolver projetos e para aumentar a sua formação. Além disso, evidenciam uma atenção particular no contexto de sala de aula e encaram as oportunidades de formação e de desenvolvimento profissional como resposta às mudanças que ocorrem na escola.

Em relação às perceções de liderança que prevalecem numa escola EB2,3 - da fase 2 do estudo e que incluiu diretor, professores, alunos -, os resultados remetem para um processo não autoritário, participativo e autónomo. Assim, para além das lideranças formais, é reconhecida uma liderança informal associada ao trabalho dos professores, quer dentro de sala de aula, quer fora dela, como, por exemplo, a liderança inerente à realização de atividades, de projetos, de iniciativas, etc. Por outras palavras, para o diretor “a liderança é concebida no plural (lideranças)” e ultrapassa a lógica da designação de um papel ou função nas estruturas hierárquicas da escola.

Quanto aos professores que participaram no projeto de intervenção/formação, fase 3 do estudo, alguns veem o seu desenvolvimento profissional como algo redutor, relacionando-o com a formação contínua, mas não o integrando no seu trabalho e com a experiência que vão adquirindo ao longo do exercício da sua profissão, bem como da sua partilha profissional. Outros docentes perspetivam o seu desenvolvimento profissional num sentido mais abrangente, isto é, além de uma constante atualização de competências, encaram-no como uma aprendizagem permanente sobre como ensinar, “conduzindo-os a uma pesquisa constante, sendo esta espoletada por uma nova envolvência dos alunos no seu processo de aprendizagem”.

O diretor, por seu turno, vê o desenvolvimento profissional ligado à formação contínua, já que esta é, na sua opinião, “imprescindível ao desenvolvimento profissional dos professores”. “Reconhece, ainda, que, no passado, a formação contínua não era, por vezes, bem aproveitada, uma vez que os professores a procuravam, independentemente de esta contribuir, ou não, para a melhoria do seu trabalho.”

Como estratégias de desenvolvimento profissional, os intervenientes destacam a aprendizagem através da realização de projetos e a constante procura de novas estratégias de ensino para responder a novos desafios. Salientam a importância das parcerias, da coadjuvação dos professores e até do processo de avaliação de desempenho. Referem também o papel e a importância das competências ao nível das novas tecnologias para os professores, tanto ao nível de ensino-aprendizagem, como no aspeto burocrático do seu trabalho. E o diretor dá ênfase à formação contínua como estratégia de desenvolvimento profissional, mas num sentido contextualizado, isto é, uma formação contínua que potencie o desenvolvimento, quer do professor quer da escola.
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