Violência no namoro entre adolescentes está a aumentar

A violência física e verbal entre casais de namorados adolescentes está a aumentar, segundo uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra que realizou dois estudos nacionais.
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“Nós temos evidências de que os indicadores de violência verbal e física aumentaram nos relacionamentos entre os jovens. E isso preocupa-nos bastante”, contou à Lusa Maria do Rosário Pinheiro, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCE/UC).
As evidências partem da comparação de uma investigação realizada entre 2008 e 2009, e de um novo estudo que será agora divulgado, que contou com a participação de 1.697 jovens, vítimas ou agressores de violência no namoro.

Os investigadores ouviram relatos pessoais de violência verbal, física, psicológica, relacional e até sexual de jovens entre os 13 e os 19 anos, que estavam a viver ou tinham terminado uma relação marcada por violência.

“Muitas vezes, quando estávamos a entrevistar os jovens, eles diziam ‘foi só uma empurrão’, ‘uma bofetada’ ou ‘é normal que queira saber onde eu ando, porque gosta de mim’. Muitos olham para os ciúmes como uma prova de amor”, contou a investigadora à Lusa.

Alguns dos jovens estavam a viver a sua primeira relação amorosa e já eram vítimas ou agressores, alertou a especialista e uma das responsáveis pelo estudo que está a ser desenvolvido por uma equipa da FPCE/UC e do Centro de Investigação do Núcleo de Estudos Cognitivos-Comportamentais da UC.

“São experiências precoces de violência, o que é preocupante”, lamentou, sublinhando que muitos destes jovens já vivenciavam este tipo de experiências em casa, e isso torna “difícil quebrar esse efeito geracional”.

A violência no namoro tem características diferentes da violência doméstica, e uma das mais preocupantes é o facto de, em muitos casos, o agressor ser também vítima e vice-versa.

Maria do Rosário Pinheiro explica à Lusa que o problema da violência mútua é o facto de acabar por legitimar a violência, uma vez que acabam por se sentir autorizados a vingar-se.

“E isto aumenta a frequência das agressões e o risco de o ciclo se perpetuar, porque é mais difícil de interromper uma relação em que ambos são vítimas e agressores”, alertou.

No estudo desenvolvido pela UC, cerca de metade dos jovens estavam numa relação atual e a outra metade já tinha terminado a relação, mas 65% dos inquiridos considerava aquele namoro importante ou muito importante.

A especialista alerta para o facto de a sociedade parecer continuar “a legitimar os ataques verbais e físicos, desde que não tenham muito aparato, não sejam públicos, não envergonhem muito as pessoas”.

Os investigadores decidiram analisar também a ciberviolência e descobriram que ambos os sexos praticavam este crime, mas com técnicas diferentes.

“Está mais ligado ao género feminino e aos adolescentes mais velhos, entre os 16 e os 19 anos”, revelou à Lusa, acrescentando o facto de as raparigas parecerem “ser as especialistas em ciber-agressão”, mas os “rapazes dominarem quando se trata de ciber-agressão de cariz sexual”.

Elas usam mais as mensagens de texto (sms) e os toques para controlar os namorados, enquanto eles optam por fazer telefonemas.

As raparigas têm mais tendência para criar uma conta de correio eletrónico ou perfil falso em redes sociais, para controlar o companheiro, mas eles também o fazem.

O envio de mensagens e imagens de cariz sexual para seduzir ou fazer convites, sem o consentimento do outro, é uma prática mais comum entre os rapazes.

O controlo à distância, a ameaça utilizando as novas tecnologias e a difamação são algumas das características deste tipo de crime.

Maria do Rosário lembra que os instrumentos que são usados para agredir – redes sociais, sms, telemóvel, emails – são os mesmos que depois servem para fazer as pazes.
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