“Cada escola tem de trilhar o seu caminho. Mas primeiro parar para pensar”

Luísa Moreira imaginou uma escola onde nenhum menino ficava para trás, e assim, nasceu o projeto FMS Fénix – Mais Sucesso.
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Luísa Moreira é a coordenadora nacional do FMS Fénix Mais Sucesso, um programa que combate o insucesso escolar. O mesmo que mostrou resultados nos últimos, e já extintos, exames nacionais do 4.º ano. Ao colocar duas escolas da rede Fénix do 1.º ciclo no primeiro e segundo lugares da lista das melhores classificações do país.

Durante 15 anos foi diretora do Agrupamento de Escolas de Beiriz, atualmente com o nome Campo Aberto, na Póvoa de Varzim. Esta é a naturalidade do projeto Fénix, que em 2008 nascia da teimosia da professora Luísa Moreira em “não deixar meninos para trás”. Formada em Teologia, com mestrado e doutoramento em Ciências de Educação, é o rosto do projeto que é validado por instituições de ensino superior. E hoje, posto em prática em cerca de uma centena de escolas, espalhadas por todo o país.

Com uma equipa de três elementos, “que funciona de forma colaborativa e cooperativa”, como Luísa Moreira gosta de frisar, desdobra-se em deslocações e em videoconferências dirigidas a escolas do 1.º ao 3.º ciclo. O que move Luísa Moreira e os professores que a acompanham parece-lhes óbvio: “Para cumprir a Lei de Bases do Sistema Educativo a escola tem de ensinar a todos e não apenas aos que conseguem aprender.”

O projeto começa com a visita à escola e uma análise da situação. Depois desorganiza e organiza turmas de modo a criar “ninhos”. Grupos pequenos de alunos, que em determinado momento estão com dificuldades em aprender um conteúdo. E, por isso, recebem “apoio” do professor titular. Que num máximo de seis horas semanais tenta dar-lhes resposta às dúvidas, para os lançar em novos voos. Os “ninhos” podem também servir para elevar o potencial dos alunos.

EDUCARE.PT (E): Como é que as escolas podem aderir ao projeto FMS Fénix – Mais Sucesso?
Luísa Moreira (LM):
Qualquer escola pode entrar na rede Fénix. Mas na cultura da escola tem de estar subjacente o princípio de que os alunos estão lá para aprender. A escola tem de se preocupar com o valor acrescentado de todos os alunos no final de cada ano letivo ou ciclo. Um país tão pequeno como o nosso não se pode dar ao luxo de estar sistematicamente a excluir gente da escola porque estamos a excluí-los a médio prazo de uma vida ativa.

Quando existe reprovação, é importante que ela seja consentida pelo aluno, porque entende que é bom para ele, pelos professores e pelas famílias. E no ano seguinte é preciso haver um projeto personalizado para esse aluno.

Para que a retenção não venha desencadear possíveis retenções ou um desinvestimento deste aluno em relação à escola pensando que a escola não se fez para ele. Para cumprir a Lei de Bases do Sistema Educativo, a escola tem de ensinar a todos e não apenas aos que conseguem aprender.

E: O insucesso continua muito dependente do estatuto socioeconómico das famílias?
LM:
Todas as investigações ao nível dos resultados escolares mostram que o maior número de alunos reprovados ou excluídos provem de famílias carenciadas. Estes alunos não têm menos capacidades para a aprendizagem. A diferença é que os alunos de famílias com mais conforto económico e cultural estão mais trabalhados. Há maior investimento dos pais no desenvolvimento intelectual e até no cognitivo destas crianças.

Por isso, a escola precisa de fazer um investimento nos alunos carenciados que os outros não precisam. Se calhar precisam de mais horas, de um outro tipo de ensino e de trabalho, para lhes potenciar um desenvolvimento em determinadas áreas da cultura e do saber que os outros já trazem de casa e estes não. Não se pode é desistir deles só porque vêm de uma família carenciada.

E: A escola tem uma responsabilidade acrescida para com estes alunos?
LM:
Claro que tem! Não só a escola, mas a sociedade. Porque normalmente a sociedade também está cansada e ouço muitas vezes as pessoas dizerem que estão fartas de investir nestes alunos que não querem nada. Mas falta saber que tipo de investimento estamos a fazer.

E: É aqui que entra o projeto Fénix?
LM:
O projeto Fénix, só por si vai conseguir muito pouco se não existir uma consciência por parte da escola que nestes alunos de famílias mais desfavorecidas vai ter de investir em determinadas visitas de estudo, em determinadas formas de trabalhar com eles e de lhes dar aquilo que a família não deu.

E: Há um grande risco de ao assumir este papel a escola falhar?
LM:
Não vai falhar se por detrás dela o Ministério da Educação fornecer os recursos para se trabalhar neste sentido. A escola só falha se tiver os recursos e não os aproveitar. Mas se há mais investimento para trabalhar com estes alunos, à frente tem de haver resultados. Cada escola tem de saber o que precisa face ao corpo discente e docente que tem, onde e como quer investir. Sobretudo ter uma visão estratégica e perceber onde se centra a prioridade da intervenção.

E: É isso que pede às escolas?
LM:
Sim. E, neste momento, encontro alguns diretores que juntamente com o seu conselho pedagógico e com o conselho geral concordam que o investimento tem de começar logo no 1.º ciclo.

E: Porquê?
LM:
Vários estudos revelam o papel importantíssimo dos professores do 1.º ciclo na vida dos alunos. Ensinar no 1.º ciclo requer mestria e arte. E todos os professores querem que os alunos aprendam ao máximo. Mas a experiência foi-nos mostrando que muitas vezes - sem nenhuma intenção prévia - o professor ficava tão preocupado com os alunos de baixo rendimento escolar que se detinha mais nesses e os de alto rendimento escolar não progrediam quanto deviam. Havia sempre uma parte do grupo que podia ficar prejudicada. No projeto Fénix o objetivo sempre foi que os alunos andassem todos, daí surgiu esta dinâmica de arrumar e desarrumar as turmas.

E: Como é que isso é feito?
LM:
No 1.º ciclo, no máximo de seis horas semanais, os alunos que apresentam baixo rendimento escolar saem da sala de aula com o professor titular. Os outros ficam na sala de aula com o professor do apoio. Este é o Eixo I. Se me dizem que esta situação implica mais recursos porque é preciso mais um professor, damos outra solução prevista no Eixo II: dois professores do mesmo ano podem decidir que naquela semana precisam de trabalhar bem os conteúdos A e B e dividir as turmas. Uns alunos trabalham com um professor e os outros com o outro e depois cruzam. Assim, o agrupamento dos alunos por pares é dinâmico e de acordo com o conteúdo curricular. Posteriormente, regressam às turmas de origem. Não há segregação definitiva por nível, mas sim uma separação temporária para consolidar conteúdos e aprendizagens.

E: É mais vantajoso deixar o professor do apoio com os alunos sem dificuldades?
LM:
Quando o professor de apoio entra na sala e fica com o grupo de alunos que acompanhou os conteúdos e trabalha bem e tem alto ou médio rendimento escolar, pode trabalhar com eles a aprendizagem por projecto, sendo este espaço dedicado à criatividade e a uma aprendizagem mais ativa.

Por outro lado, o professor titular sabe cirurgicamente que tipo de estratégias deve desenvolver e que conteúdos deve consolidar com os alunos do ninho.

E: A “desarrumação” das turmas causa mais transtorno a partir do 1.º ciclo?
LM:
Não causa transtorno nenhum desde que haja recursos. O modelo consiste sempre em ter um professor na sala, ao mesmo tempo que o professor titular ou da disciplina está com um grupo mais pequeno num outro espaço fora da sala de aula, a trabalhar de uma forma mais dirigida e personalizada.

E: Pode ser aplicado em todos os ciclos?
LM:
Até no ensino secundário ou na universidade, desde que existam recursos.

E: Alguma vez aconteceu chegar a uma escola que queria o projeto e perceber que não era possível implementá-lo?
LM:
Não. As escolas têm muito potencial. Os professores têm muito mais potencial dentro de si do que julgam. Mas é preciso uma cultura de reconhecimento das pessoas. Para o conseguir estamos sempre a pedir aos professores, na nossa página do Facebook, para exporem os seus trabalhos, sem receios!

E: O que mudaria na organização do tempo de ensino? Aulas de 45 minutos ou de 90 minutos?
LM:
O tempo de aprendizagem e o ritmo não são iguais para todas as crianças, não sei porque as aulas hão de durar 45 minutos ou 90 minutos? Quer dizer, 90 minutos podem ser saturantes ou muito interessantes para algumas disciplinas. Se, por exemplo, tiverem uma parte mais teórica ou mais prática. Mas tudo depende muito da escola, dos professores. O problema é se o professor faz uma aula expositiva de 90 minutos. Se os adultos não gostavam, imagine-se as crianças. Mas se nesse tempo o professor conseguir criar interação, trabalho prático ou fazer uma aprendizagem por projeto e comprometer os alunos, os 90 minutos passam depressa.

Não sou fundamentalista ao ponto de dizer que aulas de 90 minutos são insuportáveis. Uma professora do 1.º ciclo está a manhã inteira sempre com os mesmos alunos. E ninguém sabe se ela está a dar 90 minutos ou mais de Português. Até pode dar 100 minutos, desde que as crianças estejam apaixonadíssimas pelo que estão a aprender e se tudo leva um fio condutor, fantástico! Mas se na hora seguinte decide que vai dar menos tempo porque aquilo que vai trabalhar tem um conteúdo mais prático, também é aceitável. Cada escola tem de trilhar o seu caminho. Mas primeiro parar para pensar e perceber o que quer fazer.

E: Se tivesse de prescrever alguma receita ao sistema educativo, qual seria?
LM:
As escolas têm de pensar que os seus clientes são os alunos e os pais. Se são desinteressados a escola vai ter de os conquistar, de os fidelizar e obter resultados positivos! A escola tem de ter a liberdade de se organizar como entender face à população que recebe. O que não pode é isto servir de argumento para que os alunos reprovem ou fiquem pelo caminho. Não se podem justificar as reprovações com o facto de os pais não valorizarem a escola ou as crianças estarem desmotivadas... Se é fácil? Não! Mas é possível. E os professores sabem fazer tudo isso muito bem feito, foi para isso que estudaram tantos anos.

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