Ciclo Pais, Mães e Companhia abre com conferência sobre autorregulação

“Como ensinar as crianças a autorregular a sua aprendizagem” foi a primeira de oito conferências do ciclo Pais, Mães e Companhia 2016 que pretende ajudar as famílias na difícil tarefa de educar.
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Isabel (nome fictício) é uma mãe preocupada. O filho de 8 anos é “trapalhão”. Não tem motivação para o estudo. A letra é “gatafunhada”. Risca em vez de apagar. “O caderno está rasurado e sem apresentação.” Chovem reclamações quando a mãe o obriga a refazer os trabalhos de casa que vêm mal feitos do ATL. “Não quero que ele seja extraordinário, nem que tire 100% a tudo”, desabafa Isabel, “só quero que ele aprenda o básico”. Como se aprende a aprender? A resposta interroga muitos pais. “Aprender implica esforço. Ao nível da compreensão de conteúdos, da sua reprodução por palavras próprias e da realização de exercícios para transferir as aprendizagens para novos contextos”, explica Ana Salgado, investigadora da Universidade do Minho, psicóloga em contexto escolar e especialista na área da autorregulação. Foi a primeira convidada da iniciativa Pais, Mães e Companhia 2016, promovida pela divisão de educação da Câmara Municipal de Valongo no Fórum de Ermesinde.

Sejam crianças ou adolescentes, é possível ensinar aos alunos a aprender por si próprios. A isto se chama autorregulação das aprendizagens. Ser capaz de saber que tarefas lhe são pedidas. Que materiais são necessários para a sua execução. E o tempo previsto de realização. Parece conversa de adultos? A verdade é que lembram premissas sobre organização e rentabilização do tempo que também podem ser úteis aos pais. “Não podemos querer que os nossos filhos façam o que nós não fazemos. As crianças aprendem muito com os exemplos”, garante Ana Salgado.

Quebrar o “ciclo vicioso”
Por detrás do insucesso escolar há muitas vezes um “ciclo vicioso” que importa romper, diz a psicóloga. Se a criança acumula experiências negativas, convence-se de que não é capaz. Quando a estes problemas se soma a falta de conhecimentos-base, torna-se difícil aos pais encontrar argumentos que motivem os educandos. Nos adolescentes a desmotivação é um problema para muitos pais. Joana (nome fictício) já não sabe o que dizer ao filho de 15 anos: “É difícil fazê-lo estudar quando ele me diz que não vale a pena porque vai ficar no desemprego e vai ter de emigrar.”

“Não há receitas”, desilude Ana Salgado, mas “há estratégias para mostrar aos jovens outros caminhos”: “Alguma orientação vocacional para ajudar a descobrir um curso que agrade e depois definir objetivos, poderá fazer com que a motivação aumente.” Mas desengane-se quem está confiante que basta a motivação para atingir resultados positivos na escola. “É importante ter práticas pedagógicas com uma intenção por trás”, acrescenta a investigadora. E competências tão simples como saber qual a forma mais eficaz de sublinhar um texto ou fazer um resumo.

Modelo PLEA
Seria o sonho de qualquer pai um filho que passasse horas a estudar. Na realidade, como esclarece Ana Salgado, “não aprende mais quem estuda mais, mas quem estuda melhor”. Como se troca a quantidade pela qualidade? Aplicando um modelo de autorregulação criado por investigadores da Universidade do Minho, o PLEA, cuja sigla resume três conceitos-chave, a saber: planificar, executar e avaliar.

Saber quanto tempo tem de estudar, se utiliza o manual ou se o professor gosta mais que leiam os apontamentos do caderno. Conseguir avaliar quais os recursos à sua disposição, sejam eles os pais ou os livros. São competências que se podem ir treinando desde o pré-escolar, garante Ana Salgado, envolvendo as crianças em atividades concretas. Por exemplo, ajudando a mãe a fazer uma lista de compras ou até a fazer uma receita do livro de culinária. O objetivo é “pôr a criança a pensar como faria, como resolveria determinada tarefa, planear com ela à medida que se vai executando e no final avaliar o que foi feito”, explica a psicóloga.

Treinar a autorregulação pode ser tão simples quanto desenhar. Imagine-se uma criança que quer fazer um desenho. A mãe pode perguntar que lápis pretende usar: os de cor ou os de cera? Com esta ação dá à criança a possibilidade de refletir sobre a tarefa que vai empreender. Pode-se ainda tentar saber a quem a criança vai querer dar o desenho: ao pai, ao avô? Vai guardá-lo para si? quando o desenho estiver acabado basta olhar para a folha e perguntar: Há algum aspeto no desenho que podias ter feito melhor?

Estudo autónomo ou apoiado
Conseguir que a criança ou o jovem seja capaz de estudar e alcançar as suas metas de forma autónoma não significa a ausência de apoio. Pelo contrário, sublinha Ana Salgado: “Não se pode querer que uma criança faça os trabalhos de casa sozinha sem que tenha previamente adquirido uma rotina de saber o que fazer.” Cabe aos pais orientar as crianças para essa rotina. Ver com ela o que vai precisar e o tempo que vai demorar. “Esta regulação externa é necessária até a criança conseguir a regulação interna.”

Valorizar o esforço, não envergonhar a criança pelos seus maus resultados em público, não dar as respostas às dúvidas todas, mas ajudar a criança ou o jovem a desenvolver as competências para encontrar as soluções, foram mais alguns conselhos que Ana Salgado deixou aos pais lançando um apelo: “Deem o vosso melhor e peçam ajuda quando acharem que não são capazes!”


Pais e mães à procura de respostas
Muitos dilemas afetam pais e mães na tentativa de dar o melhor de si aos filhos. A pensar em preocupações que vão desde o bullying até às questões de género, passando pelos problemas de sono, a iniciativa Pais, Mães e Companhia 2016” reúne especialistas em diversas áreas para ajudar quem educa a desenvolver competências coparentais. As sessões realizam-se ao longo deste ano no Fórum Cultural de Ermesinde, às 10h30.

O programa acontece ao longo de todo o ano e inclui várias sessões temáticas: “Mindfulness para crianças: conversas com pais” a 21 de fevereiro; “Aaaaaatchim… Chegou a estação das alergias” a 13 de março; “ Não estás sozinh@! Como prevenir e combater o bullying” a 10 de abril; “Geração XXL – Obesidade e excesso de peso em crianças e adolescentes” a 8 de maio; “Dormir sozinh@, sem chucha e sem fralda! Há um momento certo?” a 5 de junho; “Orientação sexual e identidade de género: um assunto de família” a 9 de outubro; “Há muitos mundos no mundo: desenvolvimento tardio vs. perturbações de desenvolvimento em crianças” a 13 de novembro; “A mão que embala o berço – prevenir e evitar as perturbações do sono nas crianças” a 4 de dezembro.

A entrada é gratuita, mas requer inscrição na Divisão de Educação da Câmara Municipal de Valongo, responsável pela organização, até às 17h00 da sexta-feira que antecede a realização da sessão. Podem ser feitas através do telefone 224 227 900 ou do endereço eletrónico iniciativas.educacao@cm-valongo.com.
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