O que pensam os diretores das escolas das provas de aferição?

O ministro da Educação esteve por todo o país em reuniões com diretores de Agrupamentos de Escolas para tirar dúvidas sobre o novo modelo de avaliação. O EDUCARE.PT falou com alguns dos presentes nos encontros e resume aqui o que pensam das mudanças.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
¿Maria José Ascensão, diretora do Agrupamento de Escolas Rodrigues de Freitas, Porto.
A “generalidade” dos professores concordam com o fim dos exames no 4.º e 6.º anos, garante Maria José Ascensão, diretora do Agrupamento de Escolas Rodrigues de Freitas, Porto. “Não acrescentavam nada de significativo em termos das aprendizagens dos alunos”.

Pior: “Aconteciam numa época em que traziam muito transtorno ao normal funcionamento das escolas. E faziam com que a partir da realização dos exames, em maio, os alunos e os professores sentissem que aquele já não era um tempo significativo, porque o essencial já estava feito que era o exame.”

Aferir “faz sentido
Segundo as novas regras, os alunos passam a fazer provas de aferição no 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade. Os exames do 4.º e 6.º ano tinham um peso de 30% na classificação final. As novas provas não contam para a nota. Ainda assim, Ascensão reconhece que “a realização de provas de aferição faz sentido”. Apenas um senão: teme que a aplicação da medida a meio do ano letivo cause alguma instabilidade nas escolas.

Afinal, para que servem as provas? “O sistema tem que ter mecanismos de regulação que também sejam úteis para as escolas tirarem daí elementos. E que lhes permitam melhorar as suas práticas e balizar-se no contexto dos resultados globais do sistema.” Agora, a aferição deixa de estar confinada às “disciplinas nucleares”, como fazia questão de nomear o anterior ministério, ou seja, o Português e a Matemática.

Mas se “faz sentido” avaliar a meio do ciclo, para fazer uma monitorização intermédia do estado das aprendizagens, “continua a fazer sentido, e uma coisa não invalida a outra, aferir no final do ciclo”. Para perceber se aquele ciclo cumpriu ou não a sua missão. “Se não, o 2.º ciclo culpa o 1.º, o 3.º culpa o 2.º e andamos nisto”, critica a diretora afirmando, por outro lado, que “a verdadeira articulação interciclos e intraciclos é um trabalho que ainda precisa de ser desenvolvido”.

Valorizar as provas
Outro problema será convencer os intervenientes sobre a importância da aferição. “Nem as famílias, nem os professores, nem os alunos encaram da mesma forma um exame ou uma prova de aferição”. Por isso, aconselha, “importa fazer uma ação pedagógica para valorizar a prova demonstrando que ela é útil e tem de ser levada a sério.”

Outra questão que importa fazer no seio da comunidade educativa será até que ponto ainda se justificam tantos ciclos? Ascensão recorda que esta divisão foi determinada historicamente. “Agora com uma escolaridade de 12 anos será que é preciso haver três ciclos no ensino básico? Não poderíamos ter apenas dois ciclos, cada um deles mais longo e avaliá-los no meio e no fim?”

Menos medidas avulsas

Ascensão é mais uma diretora a pedir que, antes de qualquer decisão, o ME faça uma “reflexão séria e serena com todos os intervenientes no processo”. “De decisões avulsas e precipitadas está a história da educação cheia.”A ideia de que é necessário um pacto em educação ganha cada vez mais força. “Se não chegarmos a um amplo consenso nacional a esse nível, vamos andar sempre ao sabor de modas e é isso que não podemos aceitar.”

Telmo Soares, diretor do Agrupamento de Escolas Manuel Teixeira Gomes, em Portimão.

Marcou presença na reunião que o ministro Tiago Brandão fez no Algarve e vê a mudança da avaliação apenas “como uma questão política”. Telmo Soares, diretor do Agrupamento de Escolas Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, lamenta no entanto que algumas entidades consultivas do ME, como o Conselho das Escolas, não tivessem sido ouvidas.

Como tantos outros professores, esta convencido que “se a medida fosse apresentada este ano como proposta para o próximo ano letivo faria maior sentido”. O momento poderá não ter sido o ideal, mas “esta é uma questão política”, insiste. A possibilidade de aferir sobre os conhecimentos dos alunos a meio do ciclo parece-lhe todavia vantajosa: “Pode permitir à escola adotar medidas que levem a redução da reprovação, desse ponto de vista fará sentido.”

Avaliar não é aferir
A questão é incontornável: Com a instituição dos exames nacionais, o ministério de Nuno Crato não queria também combater o insucesso escolar? Mas a resposta não é preta, nem branca. “A realização de exames permitia não uma aferição, mas um maior enfoque das escolas, professores e alunos no sentido de melhorar as aprendizagens. Utilizar só as provas de aferição poderá não atingir o objetivo de maior sucesso escolar.”

Ou seja, mesmo entre os docentes que concordam com a realização das provas de aferição, persiste a suspeita que a existência de exames a contar para a nota levava os alunos a um maior compromisso. Ainda que a percentagem de 30% sobre a nota final fosse relativamente pequena. Originando a reprovação apenas em situações excecionais. “Se calhar, havia um maior empenho de todos para esse sucesso. Assim, vamos ver a aplicação da medida e o efeito que tem no futuro. Neste momento também é complicado estar a dizer que é melhor um ou outro.”

Síntese dos modelos
O excessivo foco no exame, em prejuízo das aprendizagens, foi sendo um dos argumentos mais usados pelos defensores do fim da avaliação no 4.º e no 6.º ano. O ministro Tiago Brandão vem agora dar razão a esse argumento. “A questão tem alguma validade, não há dúvidas que os alunos, os professores e os próprios encarregados de educação estavam focados para atingir o objetivo no exame, deixando para trás outras aprendizagens que são importantes”, constata Soares.

Mas é tudo uma questão de equilíbrio entre propostas, diz o diretor, defendendo uma síntese dos dois modelos. “Ter esta aferição e simultaneamente o exame no final dos vários ciclos. Ou então só no final do 6.º e do 9.º ano, fazendo cair o exame do 4.º ano, pois aí a aferição seria suficiente.”

Versar não apenas a Matemática e o Português, diz Soares, foi uma melhoria em relação ao anterior modelo: “A verdade é que se estava a desprezar todos os outros conhecimentos e competências que os alunos adquiriam no ciclo. Mas também aceito que se entenda essas duas disciplinas como nucleares.”

António Duarte, diretor do Agrupamento de Escolas de Canidelo, em Vila Nova de Gaia.
A possibilidade de após a prova as escolas poderem promover planos de melhoria representa “um passo em frente”, congratula-se António Duarte, diretor do Agrupamento de Escolas de Canidelo, em Vila Nova de Gaia.

“A virtualidade deste projeto é permitir perceber as dificuldades dos alunos para ainda nesse ciclo encontrar as medidas adequadas para promover o sucesso.” E, desta forma, sedimentar o que até agora parece ter faltado no ensino: uma “cultura de prevenção”.

Valorizar ideias
Uma das características do novo modelo é dar prioridade à avaliação formativa em detrimento da sumativa. Ou seja, não avalia “de régua e esquadro”. Porquê? No conjunto dos conhecimentos há muito mais que a matéria dada na escola. “Os conteúdos e as competências que os alunos vão adquirindo vão sendo acrescentados a um currículo oculto e a habilidades que eles vão concretizando no dia a dia”, explica Duarte.

Significa “que não podemos ter uma visão da avaliação contabilística, do deve haver, onde o aluno é medido e classificado”. Pelo contrário: “A avaliação deve valorizar o aluno pelo instituir de ideias que vai assimilando com o tempo”. Duarte está seguro que, ao instituir a aferição no 2.º, 5.º e no 8.º anos, é precisamente o que o atual modelo vai permitir.“Os professores vão perceber quais são as reais dificuldades do aluno e encontrar respostas credíveis para melhorar o seu percurso escolar.”

Sem críticas a apontar
No anterior modelo, critica: “Nem todos os alunos do 4.º, 6.º ou 9.º anos se sentiam habilitados para realizar a prova, porque nem todos têm as mesmas competências.” Uma falha que, segundo o diretor, contribuía para agravar as diferenças sociais e económicas que já influenciam o sucesso escolar.

“Exigir a um aluno do 4.º ano que atinja determinadas metas, quando vem de uma família desestruturada, comparado com um aluno que provém de um meio culturalmente acima da média não é nivelar [o ensino] por cima, nem promover uma educação igual para todos.”

Depois de ter ouvido o ministro definir a sua visão sobre a educação, de o ter ouvido garantir que todas as áreas do currículo iriam ser valorizadas, Duarte não tem críticas a pontar: “Este modelo é muito mais credível e mais próximo de todos os alunos.”

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP) e diretor do Agrupamento de Escolas Costa Matos, em Vila Nova de Gaia.
Ouviu com agrado o ministro Tiago Brandão anunciar a intenção de criar uma “espécie de simplex na educação” com o objetivo de modernizar e desburocratizar os serviços nas escolas. E acabar com o imenso papel que invade o trabalho dos diretores de turma, coordenadores de departamento, diretores de escola.

Uma reivindicação antiga de professores e diretores. “Se for levada à prática esta medida é muito bem-vinda”, garante Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP) e diretor do Agrupamento de Escolas Costa Matos, em Vila Nova de Gaia. “Mas muitas vezes não basta ter boas intenções”, acrescenta, lembrando que “desburocratizar o serviço nas escolas era também um objetivo de Nuno Crato que não foi atingido, pelo contrário.”

As diferenças
Mais sucesso escolar e melhor ensino eram também metas do anterior ministério de Nuno Crato. O que vai fazer o ministro Tiago Brandão de diferente? “Em relação à melhoria das aprendizagens, focou muito o trabalho dos professores na procura de soluções eficazes”, responde Lima.

O modelo de avaliação está focado em dar aos docentes a possibilidade de, através das provas no 2.º, 5.º e 8.º anos, detetar e intervir atempadamente na melhoria das aprendizagens. O presidente da ANDAEP diz que a ideia “é positiva”, “se permitir prevenir ou remediar situações que estejam menos bem”. Mas a experiência como diretor dita que mantenha algumas reservas: “Vamos esperar que assim aconteça”.

Cabe à escola a solução
Sobre como será a intervenção, após a deteção das dificuldades, Filinto Lima ficou com a impressão que caberá a cada estabelecimento de ensino a “solução do problema”. “De acordo com os resultados [das provas] as escolas vão perceber que mecanismos pôr em prática. Poderão ser mais aulas de apoio, a coadjuvação em contexto de sala de aula ou outro tipo de medidas.”

Ainda assim, o presidente da ANDAEP confidencia que alguns diretores receiam que pais e alunos desvalorizem a prova por visar apenas a aferição. “Compete aos professores e aos pais – como o ministro explicou – mostrar aos alunos que se devem esforçar porque apesar de a prova não se destinar a avaliar, é importante para perceber se atingiram ou não as competências que se queria que atingissem. ”

Pacto na educação  

Durante a reunião com Tiago Brandão, Filinto Lima foi uma das vozes que insistiram na necessidade de estabelecer, seja qual for o partido no poder, um compromisso de regime em matéria de educação.

O apelo que não caiu em saco roto: “O ministro concorda. Mas eu tenho pouca esperança de que possa vir a existir um pacto na educação porque os partidos de Esquerda e os de Direita não se entendem”. Concretizar políticas educativas que perdurem no tempo seria apenas possível com uma mudança drástica, prevê Lima: “Só vejo uma solução, é mudar a Constituição da República Portuguesa que diz que a legislatura de um Governo são quatro anos. Mude-se para oito ”.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.