Estudo mostra evolução do manual ao longo de 40 anos

Os alunos de hoje estudam por manuais mais realistas, graficamente cuidados e adaptados às necessidades de uma sociedade cada vez mais “ligada” às imagens.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Ainda se lembra do seu livro da “1.ª classe”? Um estudo do Observatório dos Recursos Educativos (ORE) mostra a evolução dos livros escolares de 1975 a 2014. Crianças e jovens estudam por livros maiores, mais cuidados graficamente e com ligações ao mundo fora da escola. Os investigadores Adalberto Dias de Carvalho e Nuno Fadigas concluíram que o formato papel não foi, nem será, destronado pelo digital.

Mais “sem preconceitos em relação às tecnologias virtuais”, como diz Dias de Carvalho, este estudo mostra a complementaridade entre recursos que se julgava quase inimigos. “O manual tornou-se em larga medida a plataforma-chave de todo um projeto de aprendizagem, tanto abre para os meios virtuais, como ao contacto com a realidade interior e exterior à sala de aula.”

A maioria das pesquisas internacionais apontam para o carácter complementar das novas tecnologias em relação ao manual em papel. Agora, este estudo - pioneiro em Portugal - vem confirmar que o papel não está nem em desuso, nem ultrapassado. “Contrariamente ao que a dada altura se acreditava, fruto de algum sensacionalismo”, explica Dias de Carvalho, investigador na área dos recursos educativos e coordenador do ORE.

Mas a conclusão de que o manual em papel está para ficar não retira mérito ao papel desempenhado pelas tecnologias virtuais, garante Dias de Carvalho: “São extremamente úteis. Se estivermos a falar do acesso a documentação, à pesquisa de informação, desde que orientada, é evidente que os meios virtuais proporcionam enormes possibilidades.”

 No entanto, vários estudos realizados sobre o modo como o nosso cérebro processa o conhecimento confirmam, segundo Dias de Carvalho, que “tratando-se de informação mais complexa, mais extensa ou densa, de forma geral, as crianças e os jovens retêm melhor essa informação se for em formato papel do que em suporte virtual”.

Além da sala de aula

O estudo agora divulgado traz à luz uma perspetiva histórica da evolução dos manuais da década de 70 até aos dias de hoje. “O manual tornou-se em larga medida a plataforma-chave de todo um projeto de aprendizagem”, confirma Dias de Carvalho. Páginas de conhecimento científico, como antes, mas que agora têm outras preocupações. Como a de apresentar as matérias de forma mais atrativa e menos expositiva.

Sem esquecer a concorrência na “corrida ao conhecimento” do mundo virtual, as editoras conseguiram tornar o livro “mais multimédia”. Como? Inicialmente com recurso ao VHS, depois ao CD-ROM, agora com ligações a plataformas de Internet. Por outro lado, a realidade fora da sala de aula, mas também fora do ecrã, assume um papel relevante nas páginas dos livros escolares, seja qual for a disciplina. Dias de Carvalho explica: “Os manuais tanto despertam para a importância do contacto com o meio - sugerem visitas a monumentos, a trabalhos em ambientes naturais -, como servem de guião aos professores e aos alunos nessas explorações, nos trabalhos e no aproveitamento formativo que deles pode ser feito.”

Mudanças gráficas

 Em 40 anos de evolução, os manuais cresceram por vezes não em número de páginas, mas em tamanho. Os autores do estudo identificaram uma nova organização dos conteúdos, mais imagens e a particularidade na apresentação da capa, “diferente de tudo o resto”. A gramagem do próprio papel teve uma grande evolução. As folhas não pesam o mesmo que pesavam há uns anos. A evolução técnica do próprio papel permite compensar assim o aumento do tamanho.

Ao nível do conteúdo, “de um tratamento estritamente formal dos assuntos, o manual passa a consagrar toda uma transposição didática daquilo que são as matérias científicas, literárias ou artísticas que constituem o cerne das várias disciplinas com que as crianças e os jovens lidam nas escolas.”

Outro aspeto que o estudo destaca é a tentativa de simplificar o conhecimento ao nível da linguagem. “Passando de um perfil estritamente expositivo, típica dos manuais para os anos 70, para outro em que se concilia o rigor científico e a preocupação com a própria motivação das aprendizagens. Também com recurso a uma linguagem adaptada aos diferentes níveis etários, fundamentada nos conhecimentos que a psicologia do desenvolvimento proporciona”, esclarece Dias de Carvalho.
Além das preocupações psicopedagógicas, outro aspeto importante foi a evolução técnica. Visível, segundo o estudo ao nível da utilização da imagem: “Não só atraente como adaptada aos assuntos que estão a ser tratados, como igualmente a introdução de caixas de destaques na organização textual do texto.” Dias de Carvalho destaca ainda a forma como “o texto não aparece todo corrido, é segmentado não só com diferentes tipos de letra, como com diferentes tipos de organização da sua apresentação”.

A importância desta “evolução gráfica”, sublinha o coordenador do ORE, percebe-se facilmente: “Torna a leitura mais acessível e atraente, ajudando o aluno na aquisição dos conhecimentos.”

É mais fácil aprender assim?
Incontornável é perceber se toda esta evolução torna o ensino mais fácil. De outro modo, o EDUCARE.PT quis perceber se foi mais difícil aos nosso pais aprender pelos livros da altura do que será para os seus netos aprender pelos atuais?

Dias de Carvalho responde que, “quando comparamos gerações, não o podemos fazer a partir das nossas motivações, mas das expectativas que cada geração teve”. Dito de outro modo: “Não podemos ignorar que vivemos numa sociedade imagética. Por isso é necessário consagrar isso nos livros, sem se diminuir a importância que tem a leitura do texto escrito em complemento dessa mesma imagem. A interação didática entre a imagem e o texto que os manuais na sua evolução condensaram muito bem.”

Mas se, por acaso, os alunos de hoje tivessem de aprender pelos livros dos anos 70, mesmo que os conteúdos científicos estivessem atuais, o resultado seria desastroso, garante o investigador do ORE. “A grande virtualidade dos manuais na sua evolução é proporcionarem o acesso à informação científica através de recursos motivacionais que asseguram e reforçam o interesse por esses mesmos conteúdos. É evidente que a utilização de manuais mais antigos por jovens atuais conduziria seguramente, na maioria dos casos à desmotivação e ao desinteresse.”

O peso nas mochilas
A mochila às costas carregada de livros é uma imagem que surge na cabeça de qualquer pai quando se fala em manuais escolares. O tema surge na ordem do dia a cada arranque do ano letivo. Dias de Carvalho defende que “o peso dos livros que as crianças têm de transportar de casa para a escola e de volta a casa não tem só a ver com os manuais, mas com a própria forma como o ensino está organizado”.

Ou seja, se o aluno tem num dia um conjunto grande de disciplinas, isso obriga-o a levar um conjunto maior de livros. Para Dias de Carvalho, talvez valesse a pena olhar para a forma como o ensino está organizado nos países do Norte da Europa. Caso da Finlândia, onde o ensino está organizado não por disciplinas, mas por temas de interesse. Isto é assuntos que suscitam trabalho de pesquisa.

Num cenário idêntico a este, prevê Dias de Carvalho, “os livros que os alunos teriam de transportar diminuíam naturalmente”. A pesar na mochila estão também livros que não deviam estar, diz o investigador. “Muitas vezes os alunos levam para a escola os cadernos de exercícios, que não são os manuais, são livros auxiliares, e que, em princípio, seriam para os alunos trabalharem em casa.”
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.