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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
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Aprendiz de Utopias
José Pacheco Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
?Diferentes?
José Pacheco| 2007-03-07
A Ponte é "diferente" porque sempre acolheu alunos a quem outras escolas recusaram o direito de matrícula, expulsaram, ou de algum modo rejeitaram.
Enquanto esperava que no meu concelho fossem realizados debates sobre o que deve ser uma Carta Educativa, fui participando em debates em outros concelhos. Num debate realizado num concelho do interior, um autarca pediu-me colaboração e justificou o pedido: "Porque o professor trabalhou naquela escola diferente, não foi?"

Efectivamente, tive o privilégio de trabalhar trinta anos numa "escola diferente". E, por essa razão, depois de aposentado, vou partilhando saberes e aprendendo, um pouco por todo o país (excepto no meu concelho de residência, sabe-se lá porquê!...).

A Ponte é "diferente" porque sempre acolheu alunos a quem outras escolas recusaram o direito de matrícula, expulsaram, ou de algum modo rejeitaram. Também é "diferente" porque mantém as suas portas abertas para todos quantos queiram visitá-la, estudá-la (ou até mesmo devassá-la...) - quantas escolas abrem as suas portas, a qualquer hora de qualquer dia, para acolher estranhos?

Quando visitou a Ponte, um prestigiado educador português confidenciou-me, deveras emocionado: "Durante quase quarenta anos, fui a escolas, para estudar o modo como os alunos aprendem. Foi-me permitido observar poucas turmas e só aquelas que eram escolhidas para serem mostradas. Na maioria das escolas, somente pude falar com professores, porque não me foi permito chegar junto dos alunos. Na Ponte, são os alunos que mostram a escola a quem a visita. Aqui, pode-se falar com qualquer aluno."

Mesmo em tempos de crise, a Escola da Ponte jamais se fechou na sua concha. Aliás, é útil para quem a visita que compreenda que não há escolas perfeitas. E que a Ponte é feita de belezas e de misérias humanas. Como qualquer outra escola.

Nela, nada foi inventado. Porque em Educação, tudo está (teoricamente) inventado, procurei práticas que nos ajudassem a melhorar. Conheci muitas escolas portuguesas, onde professores que o sistema educativo não merece, me deram lições de profissionalismo e excelência. Andei por muitos países, visitando escolas, cujas práticas nos ajudaram a trabalhar com alunos "diferentes". Mas também deparei com excepções, melhor dizendo, decepções.

Há cerca de vinte anos, ouvi falar de uma escola estrangeira, considerada modelo de "integração". Quis ver, para aprender. Cheguei. Fui conduzido para um salão amplo. No meio do salão, um piano. No piano, um velho de estatura imponente (soube, depois que seria o director) tocava uma marcha. Os alunos entravam no salão, em duas filas, marchando a compasso. E lá vinham, na cauda do pelotão, os ditos alunos "diferentes". Finda a cerimónia, que me fez recordar o tempo em que eu fazia exercícios militares, os alunos voltaram às suas salas. Não me foi dado ver o que lá dentro acontecia. Fui muito recebido, bem tratado. Findo o "meeting", fui espreitando, através dos vidros (discretamente), para as salas que ladeavam o corredor que conduzia à porta, onde me despedi do simpático director. Em nenhuma das salas consegui vislumbrar a presença de um aluno "diferente". Ter-se-iam evaporado?... Já longe da vista do director, dei uma volta ao edifício e encontrei resposta - ligada por um longo corredor ao edifício principal, lá estava uma sala repleta de "diferentes". Bem longe dos "normais", que estas mazelas são como a lepra...

Numa outra ocasião, fui fazer uma palestra, a convite de uma escola. Cheguei com duas horas de antecedência sobre a dita. Aguardei na sala dos professores. Chegado o intervalo, acidentalmente, escutei conversas sobre alunos "diferentes": "Tem algum jeito, colega, que os deficientes, agora, também venham para o 2º ciclo? Puseram dois na turma a que dei aula.

Ficaram o tempo todo lá no fundo, que eu não tenho preparação para trabalhar com deficientes!"

No âmbito dos trabalhos de uma comissão encarregada de tomar conhecimento e avaliar "boas práticas", visitei várias escolas. Uma delas era conhecida por, ao que se dizia, ter desenvolvido uma "experiência pedagógica bem sucedida". O encontro da comissão com a Direcção da escola ficou marcado para a tarde. Quebrando o protocolo, eu fui até lá... de manhã. Entrei.

Ninguém me perguntou ao que ia. Presumo que me tenham tomado por um dos muitos professores da escola. Percorri espaços como quis. Da biblioteca à cantina, da reprografia ao bar, do recreio à sala dos professores... Assustei-me com a desorganização. Irritei-me com a indiferença de docentes, que testemunhavam agressões entre alunos, sem esboçar o mínimo gesto de intervir para as sanar. Desviei-me de objectos voadores, que cruzavam o ar, num polivalente imerso no caos.

Escutei inéditos impropérios, humilhações a que auxiliares foram sujeitas. Vi um pai ser recebido, de pé, no meio de um átrio, e ser repreendido, aos gritos, por uma professora (decerto a directora de turma). E vi alguns "diferentes" segregados, numa "sala de NEE". A observação ocasional cessou, a partir do momento em que uma funcionária me interpelou. Foi, a correr, chamar "a senhora presidente do directivo". A partir desse momento, vi o que me foi permitido ver...

Em nome da "inclusão", tenho visto muita aparência e muita discriminição. Ainda nem os professores foram "incluídos" e, talvez por isso, perguntem a uma mãe: "O seu filho é TDA, não é? A mãe não percebeu, claro está. E para os leigos, devo acrescentar o decifrar da sigla: "transtorno de deficite de atenção". Ou pior: "O seu filho não é fichinho, pois não? Eu acho que ele vai ser hipercinético!" E, entre a Ritalina e a mesmice de uma escola organizada para "normais", se vai mitigando a "diferença".

Dizem-me que eu venho ficando impaciente e amargo. É da velhice. Ou da indignação que sinto, quando certos prostitutos da educação esfregam as mãos de contentes, sempre que a projecto da Ponte passa por uma crise, ou corre risco de acabar. Ou porque há uma nova equipa, bem jovem, na qual acredito, uma equipa que se vê a braços com os "diferentes" que as escolas desses prostitutos rejeitam. E que começa a ter dificuldade de lhes dar resposta...
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COMENTÁRIOS DE UTILIZADORES
Originalidade
Num país marcado por quinhentos anos de Inquisição e fascismo e algumas migalhas de liberdade, a Escola da Ponte é original. Se ela não é original, claro que nada é original.
Fredeico Moro
15.03.2007
O que a diferença esconde!
Diferentes até na forma de escolher professores. Mas infelizmente, tal cancro alastra a mais escolas - contratação de profs sem o mínimo respeito por uma lista graduada a qual é o menor dos males. Já agora: em muitas das escolas por onde passei se faz bons trabalhos sem precisar do bordão da autonomia, sem precisar de um professor especialíssimo e amicíssimo. A ponte não é original nem única, no que diz respeito a trabalhar com os diferentes.
Ana Cláudia, .............
15.03.2007
incapacidade projectada
Pior ainda é quando põem o rótulo de diferentes, de portadores de deficit cognitivo, a alunos com normais capacidades de aprendizagem e os atiram para "projectos" absurdos, esses verdadeiramente incapacitantes. Algum que saia da norma está candidato a ser tramado.
Maria Eugénia Prata Pinheiro, Lisboa
13.03.2007
Pela humanidade na educação
Continua a batalhar por um mundo melhor, apesar dos contratempos, porque farto de sovinas e de pessoas que só resolvem problemas com a ponta da espingarda e com números está o mundo cheio.
Fredeico Moro
10.03.2007
Esperança
Espero que a sua semente dê um dia os frutos merecidos.Dizem-me que sou optimista.Talvez... Mas se não sonharmos e lutarmos por causas, a nossa passagem pela vida não terá muito sentido. Bem-haja.
Paula  Cação, Coimbra
08.03.2007
Escola dos diferentes
Durante anos os ditos "deficientes" foram passando (a tal integração) pelo 1º Ciclo. Recentemente, continuam a passar pelo 1º Ciclo (a tal inclusão), e esporadicamente pelos 2º e 3º Ciclos. Os professores destes níveis de ensino não sabem - e muitos não fazem o minímo de esforço para saber - lidar com essas diferenças. Aliás, os professores - individualistas por natureza - não sabem lidar até com as diferenças (nas teorias e nas práticas) dos seus próprios colegas, senão já teríamos escolas mais harmoniosas, inteligentes em que todos se norteiam no sucesso de todos os alunos. Mas o Estado tem igualmente muita culpa no cartório. Faltam muitos recursos na escola! E, por isso, andamos neste jogo do empurra, onde os professores culpam o Estado e as famílias, e vice-versa. Estasociedade hipócrita continua a incluir (nas palavras) para desprezar e excluir simultaneamente. Isto amarga qualquer pessoa...não é certamente da idade. Não se preocupe! Haja saúde!
Miguel Gameiro  Silva
07.03.2007
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