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Armanda Zenhas Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 na Escola Básica de Leça da Palmeira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
Na leitura como na vida, a diversidade e a igualdade
Armanda Zenhas | 08-02-2012
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Não resisto a contar uma das minhas últimas aulas de Formação Cívica. Mais uma em que os 45 minutos disponíveis deixam um sabor a pouco por não permitirem uma melhor exploração dos temas ou tornarem impossível abordar alguns.
Sou diretora de uma turma de 5.º ano com meninos com necessidades educativas especiais, entre os quais dois autistas. Estes meninos têm um currículo específico individual, apenas frequentando, com a turma, algumas disciplinas de carácter mais prático, e trabalhando as outras áreas com as professoras de educação especial na Unidade de Ensino Estruturado para este tipo de alunos. Nas aulas que frequentam com a turma, as atividades que desenvolvem são preparadas pela professora da disciplina em colaboração com a de educação especial, para que, simultaneamente, sejam adequadas às suas características e promovam a sua integração na turma. O tema que propus para essa aula foi a leitura de excertos de livros de que os meninos gostassem. Deveriam escolher um excerto que provocasse curiosidade nos outros e vontade de ler o livro. Leriam essa parte do texto e explicariam por que razão gostavam do livro. Além da motivação para a leitura e de diversas competências de leitura envolvidas nesta atividade, existia a partilha, a necessidade de se colocar no lugar do outro para fazer a escolha, a preparação e execução de uma exposição pública, entre muitas outras competências e valores.

Como poderiam participar os alunos autistas? Essa era uma preocupação minha. A professora Virgínia Abade, professora de educação especial que os acompanha, tinha a resposta. Também esses meninos, à sua maneira e com as suas enormes limitações de fala, iriam contar uma história.

E foi assim que, depois de uma menina ter feito uma excelente apresentação de um livro de que gostou, um dos meninos autistas veio, com a professora Virgínia, para junto do quadro, ler a sua história. A professora começou por explicar à turma como os autistas aprendem a ler e a escrever: aprendem, inicialmente, através de um método global de palavras associado a signos gráficos do SPC (Sistema Português de Comunicação). Associam os símbolos às palavras e vice-versa, vindo a construir frases simples, pelo que não usam palavras de ligação. Por isso, a leitura seria conjunta, cabendo à professora ler as palavras de ligação. Esta colou uma folha com a história no quadro. Na folha havia uma ilustração grande e depois o texto, constituído por duas linhas paralelas. Numa havia pequenos retângulos com desenhos e palavras de ligação, formando as frases. Na outra havia outros tantos pequenos espaços retangulares para encaixar as palavras correspondentes aos desenhos, as quais estavam coladas no quadro, de forma aleatória, à volta da folha.

Iniciou-se então a leitura. O menino começou a ler em conjunto com a professora. Ele lia os desenhos e a professora as palavras de ligação, construindo as frases neste trabalho conjunto, que cativou todos os alunos, apesar da linguagem infantilizada do colega que, visivelmente, estava empenhado na tarefa. Terminada a leitura, todos romperam num aplauso uníssono e sentido, que ele agradeceu com uma vénia. Mas o menino não tinha terminado: ia agora escrever. Procurou nos retângulos dispersos pelo quadro as palavras correspondentes a cada um dos desenhos, uma de cada vez, e colou-os na folha da história, completando o texto escrito. Novo aplauso de admiração.

Mas uma surpresa ainda esperava todos nós. Depois de nova vénia de agradecimento, imperturbável, o menino foi buscar uma folha igual à que estava no quadro, mas com os desenhos e o texto completos. Começou a comparar essa folha com a do quadro: estava a autocorrigir o seu trabalho, verificando se tinha colocado as palavras nos lugares correspondentes às imagens.

Nesta aula, aprendi muito, como espero que tenham aprendido todos os alunos. Não resisti a mostrar-lhes como o colega autista fez a autocorreção do seu trabalho, sem que ninguém lho pedisse, enquanto vários deles se furtam sempre a essa atividade, tão importante para a aprendizagem, apesar de continuamente solicitados para ela. Não resisti a reforçar o esforço e a persistência do colega e da professora para que aquela leitura, que tanto nos deleitou, tivesse sido possível.

Não precisei de chamar a atenção para o facto de que "todos somos diferentes mas todos somos iguais" ou vice-versa, pois o convívio dos alunos desta turma e os projetos que têm existido têm promovido a inclusão e mostrado que "quem não caça com cão caça com gato", como se passou nesta leitura.

Foi também um milagre conseguir tanto em escassos 45 minutos. Mas pergunto: onde mais fazer uma atividade como esta senão na Formação Cívica, dado que os meninos autistas não frequentam a disciplina de Língua Portuguesa com o conjunto da turma? Alguém duvida da validade destas aprendizagens?

Nota: Dedico este texto a esta excelente turma e aos professores com quem trabalho e que todos os dias fazem milagres, dando-me razões para acreditar que, apesar de tudo, ainda vale a pena ser professora.
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