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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
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Aprendiz de Utopias
José Pacheco Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
Os ?outros?
José Pacheco| 2007-01-31
Como diria Lorraine Moureau, um terço dos professores é muito bom, um terço pode ficar bom, um terço deve mudar de profissão. Chamemos aos primeiros aquilo que são: professores. Designemos os segundos por quase-professores. Os outros serão... "os outros".
Questionaram-me: Por que expões a Ponte deste modo? Porque considero necessário partilhar com outros professores as grandezas e as misérias da nossa profissão, o que, no dizer de Miguel Guerra, é "um modo de reavivar o compromisso com as pessoas e com a acção educativa, que consiste em ajudá-las a ser mais felizes". O conhecimento das experiências vividas na Ponte poderá ajudar os professores a ultrapassarem decepções.

Como diria Lorraine Moureau, um terço dos professores é muito bom, um terço pode ficar bom, um terço deve mudar de profissão. Chamemos aos primeiros aquilo que são: professores. Designemos os segundos por quase-professores. Os outros serão... "os outros".

Um professor contou-me o sucedido numa reunião de conselho pedagógico, quando propôs que se alargasse a toda a escola um projecto que dera óptimos resultados no seu departamento. O terço dos professores apoiou. O terço dos quase-professores quedou-se num silêncio expectante. Os "outros" pronunciaram-se: Ó colega, isso até pode resultar. Mas, se der bons resultados, poderá ter de se estender ao resto da escola. E nós sabemos que isso dá trabalho. Vamos ter muita gente contra nós. Na votação, os quase-professores aliaram-se aos "outros", e o projecto foi inviabilizado.

Apesar de a Ponte ter conquistado o direito de escolher os seus professores, alguns "outros" conseguiram introduzir-se na escola. Instalaram-se, enquistaram-se, degradaram o sistema de relações, fomentaram o aparecimento de guetos, espalharam insinuações com que conseguiram deteriorar laços afectivos. Assumiram atitudes contrárias ao exercício da autonomia, da solidariedade e da responsabilidade, fragilizando esses esteios da cultura da escola. Tiveram tempo para explorar a insegurança dos quase-professores e de os manipular. Criaram o cenário ideal para destruir a imagem dos professores mais conscientes e leais ao projecto. As reuniões foram colonizadas por assuntos de natureza administrativa, esvaziando-se de pedagogia. Quando se sentiram em maioria, os "outros" (por vezes, apoiados pelos quase-professores) chegaram mesmo a pôr em causa princípios do projecto a que (livremente!) tinham aderido, no que contaram com o beneplácito de pedagogos de gabinete e a conivência de titulares de cargos políticos.

A Ponte avisa os que são professores, como, há séculos, Pestalozzi avisava: "Não sonhes com uma obra acabada. Momentos de extrema elevação se alternam com horas de desordem, de desgostos e de preocupações". Ao longo de dezenas de anos, conheci professores que acreditaram nas boas intenções dos poderes e na solidariedade dos seus pares de profissão. Vi esses professores fazerem maravilhas com os seus alunos, acreditando ser possível melhorar as escolas. Assisti às suas tentativas de sensibilização dos quase-professores. Vi os seus projectos serem destruídos pelo cinismo e a maldade dos "outros". Vi as suas vidas serem destruídas.

Nos debates públicos, predomina a tendência "politicamente correcta" de ocultar a existência do que Lorraine Moureau designou pelo terço de professores que deve mudar de profissão. Pero que los hay, los hay... E serão, talvez, os maiores responsáveis pela degradação do estatuto da nobre profissão de professor e pela obsolescência da Escola.
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COMENTÁRIOS DE UTILIZADORES
Terços bons e terços maus
Acho muito bem que protestem na Escola da Ponte, como nas outras, contra o novo Estatuto. Afinal, também vão sofrer as suas consequências. Eu apenas constatei a coincidência de números, entre os "Titulares" do governo e os "bons professores" de J. Pacheco. Quanto à Ponte, parece-me estar escrito, preto no branco, que não só os professores que aí queiram trabalhar, como os próprios enc. de educação, devem comprometer-se, por escrito, com o cumprimento do projecto educativo vigente. Isto não é excluir outros projectos? Mesmo estando animados das melhores intenções, o que quero crer, os mentores deste projecto dão a si próprios o direito de atirar à cara do primeiro crítico que lhes apareça que ele assumiu um compromisso que não lhe dá o direito de querer "destruir o projecto"!
António Duarte, Coimbra
05.02.2007
Modernaça ou nem por isso...
Falei em "pedagogia modernaça" tentando sintetizar um conjunto de teorias e práticas que têm vindo a ser adoptadas (os saberes do aluno, as competências, as NAC's, as TIC's...) com resultados porventura aquém da "modernidade" e da superioridade moral que os seus propositores e defensores invocam. Note que acho fundamental a diversidade de ideias e correntes na pedagogia, que para mim será sempre uma "praxis" e não uma pomposa "ciência da educação".
António Duarte, Coimbra
05.02.2007
cont.
Tivemos também uma maioria completamente amorfa: gramofones de disco riscado, da qual, nem nome, nem face, nem matéria se safam sob o pó do esquecimento. Para nossa subsistência viviamos a galhofa à boca baixa com "colegas de carteira". E finalmente, tivemos os algozes, os torcionários e abusadores do poder, a malta da caneta vermelha, que não se esquecem pelo pior motivo: não vá um dia a vingança se nos apresentar de bandeja...( são de má memória). Justificam-se, é certo, falando de competência, de abnegação, de sacrificio e de subjugação...Tristes: Daqui ninguém sai vivo! Deixem os alunos falar que tal maralha é logo chamada por onde deve: pelos nomes!
João Miguel Vaz Ribeiro
02.02.2007
os nossos professores
Não li Moureau. Fui aluno. Sei que isto de um comandar o estar de muitos tem um nome: ditadura. Tudo ali à vontade da temperança de um só. "-Bico calado que só falo para quem quero e só fala quem eu quero! Quando quero, Como quero e Do que quero! Que há para quem valha a pena, e há quem não ande aqui a fazer nada..." Permite-se pois, ainda hoje, que as crianças sejam condicionadas anos a fio nesse ritual monárquico, nesse simulacro ditadurial que são a norma das práticas de ensino\aprendizagem. O adulto no palanque arregala os olhos, dita, e os alunos na geral "bdecem", calam e escrevem. Todos tivemos, enfim, com sorte, uma mão cheia de professores alheados dos mecanismos de imposição, repressão. Deles tomámos o gosto de uma dada matéria, a fundo, por honra de seu respeito para connosco.
João Miguel Vaz Ribeiro
02.02.2007
Pois...
A culpa é sempre dos outros!
Contratado de Longa Duração, Validade: longos anos
02.02.2007
Mera curiosidade
Peço ao António Duarte que me esclareça: O que é a "pedagogia modernaça" e onde se manifesta (na prática!)? conhece alguma escola que tenha defrontado os desmandos ministeriais (como o disparate dos "titulares") de modo mais intenso do que a Ponte? E que projectos a Ponte "excluiu"? Gostaria que fosse conciso nas respostas, se quiser fazer o favor de as dar. Obrigado (dedicarei uma crónica futura ao "missionarismo"...)
José Francisco Almeida Pacheco, Vila das Aves
02.02.2007
Já entendi tudo!
Foi por escutar as sábias palavras aqui do professor que o Ministério decidiu que só um terço dos professores pode aceder a "titular". Continua a revoltar-me, apesar de vir de longe, esta aliança (aparentemente contranatura) entre a pedagogia modernaça e o economicismo de direita. E também não me parece que o professor deva ser esta espécie de missionário laico que J. Pacheco defende. Acho que num ensino de qualidade cabem diferentes tipos de métodos e de professores, porque é a enfrentar a diversidade (e a adversidade) que nos preparamos para a vida. E projectos que, ao contrário da Ponte, não excluam outros projectos...
António Duarte, Coimbra
02.02.2007
que maravilha! O mundo....
...está salvo! Com gente tão erudita, com citações tão oportunas, tão estudadas e memorizadas, com a pretensão do ser o que os outros não são, eu sou os outros não! eu sou, eu existo e sou mais...Eu acho que os outros acham mas não devem achar! Gente tão recta mas tão provocante porque sábia! Que capacidade! Os seus alunos ficam sempre abismados!!! de onde caíram estes ET´s?
António Manuel Marques, guarda
02.02.2007
Pluralidade
A pluralidade de formas de organizar a escola pública impôem a observação de outras escolas e outros modelos organizacionais. Além do mais, gostaria de ver aqui debater o contrato de autononmia da escola da ponte, justamente por ser ainda, supomho, o único. Não será ele a negação do passado da própria escola?
luis ferreira ferreira
02.02.2007
Os outros
Meu caro José Pacheco: Como sabes, quando alguém diz mal de professores, é um inimigo; quando um professor diz mal de professores, é um traidor. A isto chama-se corporativismo. Nunca gostei disso, quanto mais não seja pelas más companhias. Mostra o que sabes, diz o que pensas. Começa a ficar claro quais são as solidariedades de muitos professores - pelo menos de 1/3 deles... Abraço.
Paulo Pais
01.02.2007
Não são os mais competentes...
Não são os mais competentes, os mais cumpridores e os mais entusiastas, nem os mais utópicos, os que dão a vida e a camisola pela causa, que poderão ser incluídos no milagroso "um terço". Outras razões mais altas se levantam: o amiguismo, a filiação no partido certo, o cinismo e a "boca fechada" poderão ser a chave do sucesso. Também o "mal-dizer", as invejas e o destronar o colega, para poder "emergir o medíocre eu" poderão estar na ordem do dia. O mal deste sistema é que coloca professores contra professores. Quem usa as armas mais baixas é que ganha. Coitados dos que acreditam, dos ingénuos, dos eternos aprendizes de utopias, não será deles o pódio.
Gaspar , Para lá do monte
01.02.2007
Cada vez mais
A Ponte é minha conhecida e direi a todos os que a criticam que, se a trato por tu é porque a conheço por dentro. Façam como eu e muitos outros (não confundir designações) fizemos, vão até lá, olhem, observem, comentem e concluam. O prof. Pacheco (assim o chamo porque o considero o único professor que tive em 18 anos de instrução) sempre gostou de provocar e ainda bem que assim o faz, pois foram as suas provocações que me abriram os olhos que hoje encaram com um profundo sentimento de tristeza os relatos que me chegam de várias escolas. É ver alguns encorajadores do Ministério, de pasta na mão, percorrendo os corredores das escolas, a escutarem às portas, como agentes de alguma secreta, para depois irem imediatamente contar as novidades ao "presidente". Parece-me que antes de avançarmos para a autonomia, é urgente a limpeza dos "outros" e dos "quase outros" das escolas. Pensemos e aguardemos...
Pedro Costa
01.02.2007
Precisamos "cativar" um terço
Meu caro colega José Pacheco, caríssimo mestre da arte de saber criar situações de aprendizagem. Como o compreendo, como sinto o seu texto como se fosse meu!!!! Como sinto dor que isto possa estar a acontecer! Mas acontece aí e em outros lugares. Porquê? Quem ama esta arte, os alunos, quem ama este mundo que quer ajudar a que seja cada vez melhor com pessoas mais realizadas pessoalmente e mais felizes, só pode entristecer-se com a distorção de projectos que por amor se foram construindo. Há muitos professores consigo e comigo. precisamos "cativar" o outro terço.
luisa maria diego  lisboa, oeiras
01.02.2007
Às voltas com...
... quem seriam efectivamente "os outros", recordei-me de um filme de Alejandro Amenábar, com Nicole Kidman como principal protagonista, chamado The Others. Aí, "os outros" eram os vivos... Confesso-me baralhado!
P. Alves, PSI
01.02.2007
Eu sabia...
... que essa de "um terço" da nossa senhora do ME (não confundir com a outra Nossa Senhora, por favor!) tinha sido inspirada algures. Sim, sim, de onde veio acreditaram tratar-se de matemática pura? Não, meus amigos, houve afinal uma fonte inspiradora. Ora aí está, Lorraine Moureau. Depois desta só mesmo o Terço (é mesmo o Terço, não confundir com ¿um terço¿), é que de ¿achista¿, passei a ¿outro¿¿ ¿axo¿ que vou regressar à incompletude de Gödel, para decifrar se estou a ser promovido ou despromovido; vá-se lá saber a qual terço (desta vez não é Terço) pertenço!
P. Alves, PSI
31.01.2007
Será um dom?
Um terço deveria mudar de vida? Suponho que o colega terá a chave mágica para detectar os "intrusos". Suponho que é um dom raro (http://educar.wordpress.com).
Paulo Guinote, Quinta do Anjo
31.01.2007
O ME não diria melhor!
Há que categorizar os docentes e inseri-los em patamares mediante processos e critérios obscuros. Assim, de facto, justifica-se o novo ECD. O problema reside no facto de alguns reivindicarem para si o direito de julgar, avaliando docentes como "outros". Quem lhes deu o poder? Quem avalia os avaliadores?
Ana Cláudia, .............
31.01.2007
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