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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
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Crónicas
Albano Estrela Professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), nasceu no Porto em 1933. Autor de variadíssimos trabalhos na área das Ciências da Educação, tem-se dedicado, nos últimos anos, à literatura de ficção, nomeadamente ao conto e à crónica ("O Mapa dos Sabores", "Crónicas de Um Portuense Arrependido", "As Memórias que Salazar Não Escreveu", "E Se o Mal Existisse Mesmo?", entre outros).
Questões de Pedagogia ? III
Albano Estrela| 2010-01-21
Era pelo saber que se instituía o estatuto de mestre. Saber que é sinónimo de competência. E, o que era ainda mais espantoso, era também pelo saber que se organizava a vida da classe. Saber, fim último de tudo e de todos.

Saber e Competição na Pedagogia Tradicional

Em crónica anterior, referi-me à autoridade enquanto princípio estruturante do ensino tradicional. Autoridade que, em termos de prática educativa, assumia a forma de autoritarismo, expresso tanto no controlo disciplinar dos alunos, como nos métodos de ensino. Os castigos, geralmente ministrados em sala de aula, constituíam a expressão mais evidente do poder autoritário do professor. Castigos decorrentes de desvios às normas de conduta, previamente definidas pela instituição ou pelo professor; castigos a sancionarem carências no "aproveitamento", no "rendimento escolar"; castigos de ordem física, de ordem moral; castigos por vezes de grande violência, de acordo com a gravidade da "falta cometida" pelo educando.

A autoridade do professor advinha-lhe do seu estatuto de condutor privilegiado, quando não, único dos seus educandos.
Condutor moral e social; condutor do seu acesso ao saber. Condutor de poder absoluto: a sua palavra ("magister dixit") é da ordem do impositivo, não podendo sofrer a mais pequena das contestações.

Era pelo saber que se instituía o estatuto de mestre. Saber que é sinónimo de competência. E, o que era ainda mais espantoso, era também pelo saber que se organizava a vida da classe. Os melhores alunos (isto é, os mais sabedores) sentavam-se nas carteiras da frente, os piores nas últimas. As relações entre o professor e os alunos e as relações entre os alunos eram mediadas pelo saber. Saber, fim último de tudo e de todos. Para o alcançar, não se fazia economia de meios, toda uma parafernália de estímulos e de inibições era abundante e continuamente utilizada, mormente sob a forma de elogios e de sanções. A grande alavanca para fazer mover esse mundo complexo, que era a classe tradicional, tinha um nome: competição. Não a competição espontânea que existe em quem é jovem, mas uma competição organizada, orientada pelo professor, pela instituição. A competição que punha os educandos em confronto entre si, que criava clivagens, cisões entre indivíduos e grupos, a competição que estimulava a rivalidade e a inveja. Exemplo fragrante do que acabo de dizer é a
Manhã Submersa de Vergílio Ferreira, obra na qual se descrevem as mais variadas situações de competição. De entre elas, avulta a descrição de uma sabatina entre dois grupos de uma mesma classe. O que Vergílio Ferreira nos relata ter-se-ia passado nos anos vinte do século passado e teria como cenário o Seminário do Fundão. Mas não é preciso irmos tão longe: os célebres quadros de honra dos nossos liceus, existentes até ao 25 de Abril de 1974, expressam bem esta situação.

Para não tornar mais pesado este texto, prefiro deixar para a próxima crónica algumas outras características da pedagogia tradicional - pedagogia tão longínqua e ainda tão próxima de nós...


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Então na próxima crónica, senhor professor, se fizer favor, responda-me a uma dúvida: Porque é que se eu for professor de Português ou Matemática não devo seriar os meus alunos pelos resultados de um teste, mas se for professor de Educação Física e fizer uma lista com as classificações dos mesmos alunos numa prova de atletismo, já ninguém me critica?
António Duarte, Coimbra
27.01.2010
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