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Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010
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Aprendiz de Utopias
José Pacheco Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
A segunda morte de Anísio
José Pacheco| 2010-06-15
Em Caetité, encontrei uma secretaria de educação feita de boa gente e com muita vontade de melhorar. Mas não resisti a perguntar: O que há de Anísio nas escolas de Caetité? Qual o legado de Anísio, que se faça presente nas práticas escolares? Respondeu-me um embaraçado silêncio.
O primeiro parágrafo do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova reza assim: "Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da educação. Nem mesmo os de caráter econômico lhe podem disputar a primazia nos planos de reconstrução nacional." Decorria o ano de 1932. Entre os signatários do Manifesto estava Anísio Teixeira.

Em 2010, fui ao sertão baiano à procura do que resta desse insigne brasileiro. Acolheram-me na casa que foi sua. Mostraram-me o leito em que dormia, o berço que se presume ter sido o seu, livros e objectos vulgares, que foram tocados pelas mãos de um génio. À saída, detive-me junto a uma das derradeiras fotos de Anísio - está na melhor companhia a que um educador pode aspirar: crianças.

Em Caetité, encontrei uma secretaria de educação feita de boa gente e com muita vontade de melhorar. Mas não resisti a perguntar: O que há de Anísio nas escolas de Caetité? Qual o legado de Anísio, que se faça presente nas práticas escolares? Respondeu-me um embaraçado silêncio.

Apercebo-me de que os professores brasileiros conhecem Anísio somente de nome. Quase nada terão lido do muito que escreveu. Conhecem Freire de meia dúzia de leituras mal digeridas. Ornamentam projectos de escola com citações dos mestres, mas não os cultivam nas salas de aula. Na formação, adquiriram vagos contributos de ilustres pedagogos estrangeiros, mas não conhecem a obra de Eurípedes e nunca ouviram falar de Lauro ou de Agostinho.

Foram muitas as horas de viagem pelas estradas do interior da Bahia, vendo garrafas e latas arremessadas por energúmenos, que dirigiam automóveis, ultrapassando em curvas.

No rádio do carro, quase tudo era lixo - na terra de Caymi, Caetano e Bethânia, nem uma só vez escutei as suas vozes. Os anúncios mais escutados falavam de mensalidades reduzidas na compra de electrodomésticos e na matrícula em escolas. O nome mais escutado na rádio foi o de um deputado - coronelismo versão século XXI. A caminho de Caetité, passei por Brumado. Ali, na margem do São Francisco, o povo sofre de... falta de água. O que terá tudo isto a ver com a Educação e com o Anísio Teixeira?...

Procurei na cidade uma lápide ou um busto que evocasse Anísio. Não encontrei. A única estátua de Caetité é de alguém que ainda está vivo e cujos méritos desconheço.

Mistério e silêncio encobriram as circunstâncias da morte de Anísio. Consta que foi encontrado em posição fetal, entre as molas do fosso de um elevador, sem vestígios de com elas ter colidido, numa presumível queda... Talvez com marcas de agressão. Talvez... Mas estávamos em 1971 e questionar esses tenebrosos tempos ainda é tabu. Ao que parece, sepultaram-no sem que as conclusões de qualquer inquérito fossem dadas à luz. E a luz que Anísio lançou sobre a Educação do Brasil também se extinguiu com ele. Anísio morreu duas vezes.

Cito o mestre: "O professor prelecionava, marcava a seguir a lição e tomava-a no dia seguinte. Os livros eram feitos adrede, em lições. Os programas determinavam o período para se vencerem tais e tais lições. Exames que verificavam se os livros ficaram aprendidos, condicionavam as promoções (...). Ora essa escola (...) é inadequada para a situação em que nos achamos." - Anísio fazia a crítica da Escola do passado, em... 1934.

O tempo aliou-se à incúria dos homens para apagá-lo da memória dos educadores brasileiros. Memória não é feita de inócuas homenagens, mas no fazer jus à sua vida de incansável lutador por uma educação que não aquela que, decorridos quase quarenta anos sobre a sua morte, infelizmente, ainda temos.


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COMENTÁRIOS DE UTILIZADORES
da teoria à prática
As ideias desses "iluminados", "românticos", ficam na parte das vezes nas teses de mestrado, obrigam-nos a estudar as suas teorias durante a formação inicial mas não nos deixam aplicar...enfim...por comodismo, por falta de coragem, por falta de recursos materiais e humanos nas escolas, eles acabam por se tornarem "desconhecidos"...
Miguel Gameiro  Silva, Ponta delgada
16.06.2010
A história repete-se
Se os professores brasileiros não sabem quem foi Anísio Teixeira (sobretudo os da Bahia), os portugueses também não sabem quem foi Agostinho da Silva. Mas pior do que isso: pergunte a Nuno Crato, a Guilherme Valente ou às juventudes nacionalistas quem foi Anísio Teixeira e eles chamar-lhe-ão romântico e construtivista porque ele afirmou que "o mestre deve perder para sempre a ideia de que lhe cabe qualquer soberania sobre o pensamento do seu discípulo. Dê-lhe oportunidade para pensar e julgar por si".
Fredeico Moro
16.06.2010
da teoria à prática
"Ornamentam projectos de escola com citações dos mestres, mas não os cultivam nas salas de aula". Há vinte anos, na minha formação inicial, estudei todos esses "lunáticos" das Pedagogias Activas, mas no estágio não me deixaram aplicar as suas "teorias". Bem tentei, mas o "taylorismo" vingou. Libertei as correntes logo no primeiro ano de serviço, mas depressa apercebi-me de que estava isolado. Preferi enveredar por um ensino especial, mais individualizado, mais discreto. Muitos professores, tal como eu, investiram no seu desenvolvimento profissional, elaborando teses de mestrado com citações desses "lunáticos", mas na sala de aula nada disso foi aplicado. Talvez por segurança, ou comodismo, ou porventura por falta de coragem... A idade e a minha formação levou-me a assumir que nunca mais me vergaria às pressões sociais, e, por isso, coloquei em prática essas "teorias lunáticas". Com sucesso, diga-se! Acabarei, assim, a minha carreira, quiçá daqui a vinte anos, de consciência tranquila.
Miguel Gameiro  Silva, Ponta delgada
15.06.2010
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