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 | José Pacheco Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação. |
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| Suicídios |
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| José Pacheco| 2010-07-20 |
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| Aos cínicos direi que onde houver turmas de alunos enfileirados em salas-celas dificilmente encontraremos resquícios de convivência. |
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Portugal, Março de 2010: um jovem e um professor suicidaram-se. Estupefactos, jornalistas e especialistas interrogam-se sobre as causas dos infaustos acontecimentos. Talvez tivessem desistido da vida porque convivência não rima com ausência e relação não rima com solidão. Talvez porque as escolas sejam arquipélagos de solidões.
A modernidade remeteu-nos para uma ética individualista. Carecemos de projectos humanos que não se coadunam com práticas escolares que ainda temos, que requerem um novo sistema ético, uma matriz axiológica clara, baseada no saber cuidar e conviver.
Diz-nos Maturana que a educação acontece na convivência, de maneira recíproca entre os que convivem. E Winnicott define o ser humano como pessoa em relação, ser singular, que não pode existir sem a presença do outro. O indivíduo-com-os-outros tem consciência do seu papel numa ordem simbólica complexa e concreta, que o protege dos efeitos mortais da uniformização. Se é verdade que o conceito de partilha está eivado de conotações moralistas, também é certo que é de partilha que se trata, da manifestação de um sentimento de partilha que rejeita atitudes de quem se julgue no direito de dar respostas a perguntas que não escutou...
Contrariando racionalidades mecanicistas, numa relação de escuta, a circulação de afectos produz novos modos de estruturação social. Não negando o potencial da razão e da reflexão, junta-lhe as emoções, os sentimentos, as intuições e as experiências de vida. A escuta, para além do seu significado metodológico, terá de ser humanamente significativa. No contexto escolar, terá de abdicar de atitudes magistrais e paternalistas, para que todos aprendam mediados pelo mundo...
Aos adeptos do pensamento único (que ainda encontro por aí...) direi ser necessário saber fazer silêncio "escutatório", fundamento do reconhecimento do outro. Direi que precisamos rever a nossa necessidade de desejar o outro conforme nossa imagem, respeitando-o numa perspectiva não-narcísica, ou seja, aquela que respeita o outro, o não-eu, o diferente de mim, aquele que não quer catequizar ninguém, que defende a liberdade de ideias e crenças, como nos avisaria Freud. Aos cínicos direi que onde houver turmas de alunos enfileirados em salas-celas dificilmente encontraremos resquícios de convivência. Que onde houver séries e aulas assentes na crença de ser possível ensinar a todos como se de um só se tratasse, enquanto o professor estiver sozinho na sala de aula, será impossível pensar em dialogia e convivencialidade.
As nossas escolas carecem de espaços de convivência reflexiva. Precisamos de compreender que pessoas são aquelas com quem partilhamos os dias, quais são as suas necessidades (educativas e outras), cuidar da pessoa do professor, para que se reveja na dignidade de pessoa humana e veja os outros como pessoas. Precisamos de exercer a consideração positiva incondicional de que falava Carl Rogers, de praticar a confirmação, no dizer de Martin Buber, ou o amor incondicional postulado pela Alice Miller.
Resta-me acreditar que os educadores podem inspirar-se nesses e em outros autores, para reconfiguração das suas práticas, para a passagem de uma profissão solitária para uma profissão solidária. Resta-me acreditar que o suicídio não é algo inevitável. Apesar de assistir ao drama de muitos professores, que morrem aos vinte e são enterrados aos sessenta...
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| COMENTÁRIOS DE UTILIZADORES |
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férias
Boas férias.
Miguel Gameiro Silva, Ponta delgada
26.07.2010
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projectos humanos
Carecemos de projectos humanos...
Tantas vezes me lembro das tuas palavras: "Sem proximidade não há relação. Sem relação não há educação."
O que mais é preciso acontecer (um suicídio colectivo!!!) para que se tome realmente consciência de que esta organização escolar é desadequada aos objectivos da própria escola.
Daniel Rocha, Castelo de Paiva
22.07.2010
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Mais exames como solução? (II)
O que interessa é que a nossa economia não produz o lucro desejável e a culpa é da escola e dos nossos professores. A distância entre mais exames e a vontade de privatizar a nossa economia (e as escolas) não é muito grande. Neste quadro podem vicejar os "iluminados" Crato e Carreira como determinantes da política educativa. Se mais exames conduzirão a maior abandono escolar, não interessa a esses senhores. O que interessa é estratificar a sociedade, sobretudo para uma sociedade como a nossa que acolhe cada vez mais filhos de emigrantes.
Fredeico Moro
21.07.2010
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Mais exames como solução? (I)
Quando o professor critica as aulas dadas a todos os alunos como se eles fossem todos iguais, tem que criticar implicitamente os exames, dado que partem do pressuposto que os alunos têm que ser todos iguais (situação em virtude da qual só se pode ensinar o totalitarismo). Um dos defensores do aumento dos exames (di-lo sem saber o que diz dado que não justifica) é o senhor Crato, que fala todos os fins-de-semana na SIC Notícias. Estes defensores do aumento dos exames como panaceia dos problemas da educação fazem-me lembrar aqueles astrónomos medievais, que aumentavam o número dos epiciclos, dado que não conseguiam conceber que era a Terra que andava à volta do Sol. Dêem-lhes mais exames ou dêem-lhes mais epiciclos são duas faces da mesma ignorância. Que a educação deve formar primeiro que tudo seres humanos de nada conta para essas pessoas. Se produtos das lojas dos chineses são feitos por presos a custo zero, não interessa para o senhor Crato e o senhor Carreira.
Fredeico Moro
21.07.2010
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um passo em frente
Escolas assim, meu caro professor Pacheco, seria um passo de gigante...imagino....uma escola em que os professores soubessem partilhar as suas práticas e ensinar em conjunto visando o bem comum....seria um passo de gigante....uma escola sem "turmas", sem "anos", "sem níveis", "sem corporativismo", em que todos aprendessem uns com os outros visando o bem comum....seria um passo de gigante....uma escola feita "para o sucesso e bem-estar de TODOS os alunos"...seria um passo de gigante....
Somente professores corajosos de "passos largos" poderão construir uma escola assim....não é necessário ser gigante....é preciso ser, simplesmente, grandioso nas ideias e sobretudo nos actos. Boas férias!
Miguel Gameiro Silva, Ponta delgada
21.07.2010
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