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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
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Crónicas
Albano Estrela Professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), nasceu no Porto em 1933. Autor de variadíssimos trabalhos na área das Ciências da Educação, tem-se dedicado, nos últimos anos, à literatura de ficção, nomeadamente ao conto e à crónica ("O Mapa dos Sabores", "Crónicas de Um Portuense Arrependido", "As Memórias que Salazar Não Escreveu", "E Se o Mal Existisse Mesmo?", entre outros).
Questões de Pedagogia ? IV
Albano Estrela| 2010-02-03
A avaliação do ensino tradicional repousa num mecanismo extremamente simples: compete ao aluno reproduzir o que o professor lhe ensinou. Será bom ou mau aluno consoante o seu desempenho nessa tarefa de "devolução" do que "é" do professor.
Análise, Formalismo e Memorização na Pedagogia Tradicional

Nas últimas crónicas, iniciei a caracterização da pedagogia tradicional em aspectos que considerei essenciais. Hoje, vou tentar explicar (dentro dos limites que uma crónica destas impõe) a importância da análise, do formalismo e da memorização na estruturação do ensino tradicional.

Do simples ao complexo, eis o princípio que vai servir de fundamento à organização do ensino e, portanto, à pedagogia que o concretiza. Segundo um conceito tradicional, o espírito da criança não estaria apto para apreender o complexo, por isso, impunha-se, ao adulto, proceder a uma série de análises simplificadoras que decompusessem o todo em partes, isto é, nos seus elementos mais simples e, gradualmente, os fosse "fornecendo" à criança, a fim de esta ir construindo o seu conhecimento - sempre sob a orientação do professor, do educador.

Esta é a perspectiva tradicional, vigente ao longo de séculos, que confere ao adulto o papel de definir o que a criança deve aprender e, acima de tudo, como o deve fazer. Em última instância, estamos perante uma teoria do conhecimento assente numa definição lógica dos processos de acesso ao saber. Longe estamos, ainda, das grandes descobertas da psicologia da primeira metade do século XX, que demonstraram que o todo é apreendido antes das partes e que não se reduz ao somatório dessas mesmas partes. Enfim, estamos, ainda, em pleno reino da logicidade do adulto, o qual determina o modo de trabalho pedagógico do aluno, ao considerar que este só pode atingir o complexo partindo do simples e do seu encadeamento, segundo uma determinada progressividade, que lhe é imposta.

As classificações, as nomenclaturas, são a expressão mais evidente do que acabo de referir. Pretende-se, deste modo, organizar um ensino eminentemente dedutivo. Ou, para sermos mais claros, um ensino aparentemente dedutivo, na medida em que todo o esquema dedutivo é veiculado pelo professor, que o impõe aos alunos. Dedução meramente formal, confinada à verbalização do ensinante.

A decomposição do conhecimento em elementos tem, também, como finalidade facilitar a sua memorização por parte do aluno. Memorização do que o professor diz. Os encadeamentos são os do professor, organizados segundo a lógica de análise por ele definida. O que o aluno memoriza é, ao fim e ao cabo, o logicismo do seu mestre.

A avaliação do ensino tradicional decorre e insere-se no que foi dito, na medida em que repousa num mecanismo extremamente simples: compete ao aluno reproduzir o que o professor lhe ensinou. Será bom ou mau aluno consoante o seu desempenho nessa tarefa de "devolução" do que "é" do professor. Por sua vez, o professor só poderá ser considerado um bom professor se obtiver uma boa "devolução" dos seus alunos. Os dois - aluno e professor - estão presos numa mesma armadilha, que tem um pólo no "ensino" e outro na "aprendizagem", portanto, na memorização do que foi ensinado.

Dentro desta perspectiva de apresentação dos aspectos mais relevantes da pedagogia ao longo dos séculos XIX e XX, tratarei, nas próximas crónicas, da grande revolução que teve início nas primeiras décadas do século XX. Com estes escritos, não pretendo assumir uma postura historicista, mas, sim, mostrar os mecanismos que estão subjacentes às grandes correntes da pedagogia, a partir das estruturas e das dinâmicas da escola e da sala de aula. Evidentemente que, para além dessa pretensão, oculta-se uma outra: levar os colegas mais novos a tomarem consciência do que existe de tradicional nas atitudes e nas práticas de hoje tantas vezes ainda imbuídas de resquícios do passado...


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