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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
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Educação
Armanda Zenhas Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQND do 3.º grupo da Escola EB 2,3 de Leça da Palmeira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
Desejos - 2009 para a escola pública
Armanda Zenhas| 2009-01-05
Eu desejo uma escola humanizada. O que é uma escola humanizada? Não vou esgotar neste artigo tudo o que uma escola assim precisa de ter, mas vou adiantar alguns aspectos essenciais...
"Nada deve ser mais importante nem mais desejável (...) do que preservar a boa disposição dos professores (...). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (...)."
"Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações."

In Ratio atque Institutio Studiorum Societatis Jesu (Século XVI)

Encontramo-nos a cinco séculos de distância deste prospecto da educação jesuíta, elucidativo do carácter das inovações pedagógicas introduzidas no séc. XVI, visto revolucionário para a pedagogia, em que os jesuítas tiveram um papel central. Por isso, começo por formular o voto de que a confiança e a alegria possam enformar de novo o espírito de entrega aos alunos que os professores continuam a demonstrar, não obstante a desvalorização de que têm sido sucessivamente alvos. Este voto é acompanhado por um outro: que a esta profissão seja reconhecida (e não apenas em palavras esporádicas, mas em medidas concretas), pelos nossos governantes e pela população em geral, a importância para a sociedade que os jesuítas (em tempos tão idos) já lhe atribuíam.

Como é o dia-a-dia de um professor, tendo em conta apenas o que se passa dentro da sala de aula? Precisa de manter disciplina e um bom ambiente de trabalho, mesmo em turmas que podem ir até 28 alunos, tendo entre eles vários com problemas graves de disciplina, outros com problemas na aprendizagem e ainda outros que, não o confessando, têm graves problemas emocionais, que condicionam a sua aprendizagem. O professor precisa de levar a sua aula preparada, mas estar pronto a flexibilizar a planificação, para responder aos imponderáveis que sempre podem surgir. Pede-se-lhe que individualize, para promover o sucesso de cada um dos seus alunos. Imaginem-se (os não professores) perante uma turma com as características descritas e pensem se tal será exequível. Acrescente-se que um professor não tem só uma turma e quase sempre não lecciona apenas uma disciplina ou um nível de escolaridade. Pensemos depois em todo o trabalho burocrático que o sufoca: as reuniões, as participações, os relatórios, a contagem das faltas e os quase diários avisos dos directores de turma a um ou mais encarregados de educação acerca das faltas dos seus educandos, os trâmites para a tomada de medidas disciplinares, etc., etc., etc....

Com este relato, os meus outros desejos poderão ser mais bem compreendidos.

Eu desejo uma escola humanizada. O que é uma escola humanizada? Não vou esgotar neste artigo tudo o que uma escola assim precisa de ter, mas vou adiantar alguns aspectos essenciais:

- Uma escola humanizada tem turmas pequenas e cada professor tem poucas turmas. Assim ele poderá individualizar mais o seu trabalho e até descobrir os tais alunos com graves problemas emocionais, familiares ou de outra ordem, que sofrem mas passam despercebidos, às vezes fazendo parte do número de alunos com dificuldades na aprendizagem, por causas não/mal diagnosticadas, por falta de dados.

- Numa escola humanizada, o professor não se perde em tarefas burocratizadas e dispõe de tempo para os seus alunos e para as respectivas famílias, identificando aqueles que têm problemas diversos a necessitar de intervenção mais individualizada, promovendo um trabalho colectivo de reflexão, delineamento, aplicação e avaliação de estratégias, com os diferentes parceiros que devem ser envolvidos em cada caso.

- Numa escola humanizada, o professor não se vê acusado/responsabilizado pelo insucesso/abandono escolar, mas encontra parceiros imprescindíveis para os evitar. Existem psicólogos em número suficiente. Há assistentes sociais para, entre outras tarefas, fazerem visitas domiciliárias às famílias, recolherem informações e promoverem formação parental. Há protocolos com instituições da comunidade que possam fornecer o apoio destes e de outros técnicos, mas com um quadro contendo um número suficiente de profissionais para darem resposta a estes pedidos das escolas e de outras instituições. Os encarregados de educação são chamados a colaborar e a assumir as suas responsabilidades.

- Numa escola humanizada há uma consciência de respeito pela multiculturalidade, que se traduz na forma como a diferença é tratada: valorizada, considerada um enriquecimento, e nunca como um obstáculo ou como algo de nefasto que se abateu sobre a tranquila escola de classe média.

- A escola humanizada é multicolor. Se a multiculturalidade pode acarretar as diferentes cores das diversas etnias, considero esse colorido incluído no ponto anterior. Aqui, refiro-me à desejável existência de diversidade de cores que, por ser tão natural, nem se nota, e que resulta de uma gestão democrática. Os coordenadores de departamento, de ciclo ou de outras estruturas são eleitos democraticamente pelos professores que vão coordenar e que, melhor que ninguém, conhecem as suas capacidades técnicas e humanas. Na gestão que se encontra a ser posta em prática pelo presente governo, o director é escolhido por uma assembleia em que muitos podem não perceber de educação, mas podem ter uma cor bem definida, e é ele que, depois, escolherá os diferentes coordenadores. E assim, poderemos vir a ter uma escola monocromática, monótona e cada vez mais burocrática, menos reflexiva, menos crítica e menos democrática.

- Numa escola humanizada há democracia e, por isso, desejo que o novo modelo de gestão, o Estatuto da Carreira Docente e o modelo de avaliação (mesmo na sua versão "simplex", que mostra a incapacidade do governo de pôr em prática o modelo mais "complex") sejam revogados. É esse o desejo da esmagadora maioria dos professores. Os alunos começaram também já a exprimir a mesma vontade. Até mesmo estruturas de pais o fizeram.

- Numa escola humanizada os alunos têm o direito a aprender. Por isso, logo que começam a ler e se manifestam as suas primeiras dificuldades, devem ser alvo de planos de apoio, em que o professor curricular trabalha em conjunto com um de apoio, estando a criança parcialmente com a turma e parcialmente com esse professor em trabalho específico virado exclusivamente para as suas necessidades. Cristalizando as dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita e passando a etapa desenvolvimental para que elas sejam resolvidas, dificilmente virão a sê-lo mais tarde. Por isso, desejo que este problema seja encarado com uma realidade e que o 1º ciclo seja alvo de uma intervenção que consista na tomada de medidas para apoiar os professores curriculares no trabalho a desenvolver com estes alunos. CEFs, Novas Oportunidades e outras medidas, não negando as vantagens que possam ter, têm também servido para muitos alunos saírem da escola com um sucesso estatístico, que não lhes garantirá um sucesso no futuro. Parece-me justo que haja diversidade de oferta no ensino e oportunidade de pessoas que deixaram a escola lá poderem regressar. O que é desejável é que levem uma verdadeira preparação para a vida, em vez de deixarem um número positivo nas estatísticas governamentais do sucesso educativo, mas permaneçam com uma formação deficitária. Não estou a desvalorizar o esforço de estudantes e de professores, que muito respeito e admiro e que mereciam mais do que aquilo que lhes é oferecido/reconhecido.

Como já vai muito longa a lista e prometi não ser exaustiva, vou terminar por aqui, desejando um 2009 mais feliz para a educação em Portugal, que tão cinzenta tem andado.
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