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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
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Aprendiz de Utopias
José Pacheco Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
Saber ler
José Pacheco| 2007-05-14
Como era uso nessa época de privação das liberdades, o título da obra teria de despistar os meirinhos da censura. Na capa do livro estava escrito "A Caça aos Coelhos". E foram milhares os caçadores que o compraram...
Eu poderia furtar-me a reacções furibundas e insultos de certos leitores, contornando assuntos "interditos". Mas, da minha experiência de escrita "militante" (nos idos de sessenta e setenta) ficou-me este hábito de escrever o politicamente incorrecto...

Durante muitos anos, o compositor Lopes Graça foi perseguido pelos esbirros da polícia política, só por ser homem de escrever verdades. Numa das suas polémicas intervenções escritas, travou-se de razões com um tal Coelho, músico protegido pela Ditadura de Salazar. Publicou um opúsculo escrito de tal modo que chegou aos leitores sem ficar exposto aos cortes do "lápis azul". Esse opúsculo foi um êxito editorial, até ao momento em que a polícia política invadiu as instalações da editora e apreendeu o que restava dos exemplares por vender.

Como era uso nessa época de privação das liberdades, o título da obra teria de despistar os meirinhos da censura. Na capa do livro estava escrito "A Caça aos Coelhos". E foram milhares os caçadores que o compraram...

Em Portugal, jornais publicaram rankings de escolas, na cretina atitude de pretender comparar escolas com diferentes características, públicos diversos e situadas em regiões díspares. Publiquei um artigo, num jornal diário, denunciando a farsa dos rankings. A minha intenção era a de defender a dignidade das escolas que tinham ficado situadas nos últimos lugares da lista. Quando o meu artigo foi publicado, recebi de muitos professores cartas de elogio e incentivo.

Fiz publicar o mesmo artigo no jornal da minha terra como gesto de solidariedade para com uma escola que conheço e que estava situada nos últimos lugares do ranking. Decorridos alguns dias, alguns professores dessa escola passavam por mim e nem sequer um bom-dia me davam. Estranhei. Semanas depois, compreendi o que se passava: a directora dessa escola dizia que eu tinha publicado um artigo atacando a sua escola. A senhora directora leu o que não estava escrito no artigo. E foi mais longe, movendo-me um autêntico processo de intenções.

Há professores que não lêem. Outros lêem e não entendem o que lêem. E bem pior do que não saber ler é utilizar o que não se entende como arma de arremesso, fazendo crer a outros (que não leram, ou não sabem ler) intenções que o autor não teve. Uma sociedade de "grau zero de literacia" (não é só no Brasil que o analfabetismo funcional prospera), é terreno fértil para que indivíduos sem escrúpulos se recusem a discutir a realidade, a partir de outro ponto de vista que não seja o seu.

Ler é diferente de compreender. Ler pressupõe o domínio do vocabulário utilizado, da estrutura sintáctica do material escrito, do conteúdo. A atitude do leitor e os seus preconceitos, ou seu interesse relativamente ao texto lido, influenciam a interpretação. Ser leitor pressupõe ser capaz de distinguir entre factos e opiniões, captar o significado literal, as asserções directas, as asserções paralelas, as paráfrases... O domínio da linguagem pode ser afectado pela rigidez de ideias, por carência de capacidade discriminativa. Ser letrado não significa apenas saber ler e escrever, mas ser funcionalmente letrado.

As nossas escolas dispõem de excelentes profissionais, mas albergam, também, docentes cuja iliteracia nos deve inquietar. Enquanto professor de universidade, eu tive a ingrata surpresa de verificar que muitos alunos, que pretendiam ser professores (e que, hoje, o são!) eram incapazes de alinhavar uma ideia, de redigir um parágrafo sem erros ortográficos, de interpretar um texto de complexidade maior.

De que serve ocultar a realidade? Ter um canudo não faz de um licenciado uma pessoa culta. É preciso admitir uma dolorosa realidade: num país de "doutores", nem só entre o povo simples a ignorância prospera... também há "doutores" ignorantes.
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COMENTÁRIOS DE UTILIZADORES
Disfuncionalidades...
Primeiro, viva o pliticamente incorrecto, desde que despoletador de consciências. Há muito que não lia algo tão maravilhosamente simples, contudo, verdadeiro e actual. A disfuncionalidade educacional. As doutorices portuguesas em questão, para nos darem que pensar! Um óptimo artigo para todos. Desde que algumas ideias "luminosas" grassam o país, tentando fazer-nos querer e crer que assim é que está bem, é in, é fashion: o caso dos rankings disparatados e inúteis,e o "Nosso" ALLGARVE. O perigo está naqueles que sabendo ler e escrever se sabem misturar. Não constam dos dados do INE. No fundo sabem ler e escrever. Mas nao sabem compreender, entender e desenvolver... E não são (só) os de estrato social mais baixo. São, como bem refere o autor do artigo, os que detêm graus académicos acima de qualquer suspeita. "E foram milhares de caçadores que o compraram"...
António Manuel Amaral Póvoas Póvoas, Coimbra
17.05.2007
Comentário de um Pai
Já não há muitas pessoas assim ! Não estou nem nunca estive ligado ao ensino. Pertencendo à geração com mais de 40 anos, fico imensamente satisfeito por verificar que ainda há professores, referências em termos de experiência, princípios e saber. Cumprimentos
Rui Manuel Neves dos Santos Santos, Esgueira
17.05.2007
o luto
Apesar da minha curiosidade, e não obstante o livro que me recomendou estar esgotado (é bom sinal), não o incomodarei outra vez (formatei o computador e perdi o seu email). Também tem direito ao seu "descanso". Esperarei por nova edição e desejo SABER LER tudo o que lá está. Aprender ainda mais, porque só assim cresceremos pessoal e profissionalmente.
Miguel Gameiro  Silva
17.05.2007
Faz falta gente assim
Mais um artigo que leio e me faz dizer em voz alta: o país, a sociedade, a escola, precisam de mais homens como o senhor. Por favor deite a semente e rezemos para que a mesma vingue e cresça. A esperança também conta! Bem -Haja Cumprimentos
Paula  Cação, Coimbra
16.05.2007
Estou fazendo o luto
Prezado Miguel, Ao cabo de 30 anos de trabalho na Ponte, decidi aposentar-me. Estou fora de Portugal, para não cair na tentação de voltar à Ponte. Estou fazendo o luto. Quero que a nova equipa continue o projecto sem interferência deste velho professor. E que o melhore à sua maneira. Por essa razão, não sei responder à tua pergunta. Para saberes como a escola funcionava, enquanto eu fiz parte da equipa de projecto, poderás ler o livro ¿Escola da Ponte ¿ Defender a Escola Pública¿. É da Profedições. E eu não recebo direitos de autor... (Se desejares, poderemos continuar a nossa conversa através do meu email)
José Francisco Almeida Pacheco, Vila das Aves
15.05.2007
já agora
E já agora, professor José Pacheco, não se esqueça de me explicar como a Escola da Ponte funciona: que tipo de organização adoptaram; de que forma os professores ensinam e aprendem com os alunos; estarão dois ou três professores na mesma sala de aula, com grupos heterogeneos (eu sei que não existem turmas homogéneas); estará o professor só com 7-10 alunos na sala de aula (como me disse uma professora que visitou a "sua" escola); migameiro@hotmail.com
Miguel Gameiro  Silva
14.05.2007
quem diz a verdade...
Gostei imenso deste texto, porque tocou-me na mouche. Eu, que escrevo num jornal há mais de 5 anos, que também não sou politicamente correcto, que também não sou corporativista, mas que estou no meio escolar e conheço como as coisas funcionam, escrevo para despertar consciências e levo de troco, no dia-a-dia, muitos comentários "iletrados", muito disparate, baboseiras inacreditáveis, só porque o professorado, e em geral as pessoas, são incapazes de receber críticas construtivas, e sobretudo reflectir sobre pedagogia. Muitos tiraram o curso e por aí ficaram....outros (os casmurros), não obstante a formação contínua, não conseguiram (re)pensar a sua forma de estar...e nós, os denominados traidores ou loucos, não desistimos! Como diz Manuel Alegre: a mim ninguém me cala....a bem dos alunos
Miguel Gameiro  Silva
14.05.2007
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