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Nutrição
Paula Veloso Nutricionista e autora de Dietas sem DietaDieta sem Castigo.
Nutrição e doença de Alzheimer
Paula Veloso| 2007-09-03
Numa fase avançada da doença, a alimentação compulsiva, a ingestão de objectos não comestíveis ou a recusa em comer são frequentes. Muitas vezes ignoram ou brincam com a comida em vez de a comer.
A progressão da doença de Alzheimer caracteriza-se pela perda gradual da memória, da capacidade de comunicar e, eventualmente, das capacidades físicas. O apetite e a ingestão de alimentos oscilam com as alterações de humor e o aumento da confusão e/ou depressão. Devido à deterioração física e cognitiva, a capacidade de comer e de se alimentar vai diminuindo, levando a que a perda de peso seja praticamente inevitável nas fases mais avançadas da doença, independentemente da qualidade dos cuidados prestados.

Assim, porque estes doentes sofrem muitas vezes de problemas nutricionais, pensei transmitir da forma mais pragmática possível sugestões que pudessem ajudar os cuidadores a minimizarem os referidos problemas. No site da Leonard Davis School of Gerontology da Universidade da Carolina do Sul, encontrei dicas importantes e, a partir dele, adaptei o artigo que aqui publico e com o qual desejo poder contribuir para melhorar a situação nutricional das pessoas afectadas por esta doença.

A perda de peso é o problema nutricional mais comum nos doentes de Alzheimer. As causas não são conhecidas mas estão provavelmente relacionadas com manifestações neuropsiquiátricas, tais como perda de memória, confusão, depressão, ansiedade e inquietação próprias da doença. Por sua vez, estes problemas afectam a ingestão de alimentos.

Numa fase avançada da doença, a alimentação compulsiva, a ingestão de objectos não comestíveis ou a recusa em comer são frequentes. Muitas vezes ignoram ou brincam com a comida em vez de a comer. Na última fase, são incapazes de se alimentar sozinhos e não sabem o que fazer com os alimentos quando estes são colocados na sua boca. Os primeiros sinais de regressão nos hábitos alimentares verificam-se quando o doente deixa de saber como comer. Não se lembra como usar os talheres, nem sabe mastigar bem. Mais tarde surgirão os problemas de deglutição devido à apraxia dos músculos implicados nesse movimento. Se este problema não for tratado, o paciente pode ficar desidratado devido à sua incapacidade de engolir líquidos. Pode também perder peso e ficar desnutrido, devido à dificuldade em engolir alimentos que exijam muita mastigação. Já para não falar do perigo de asfixia, se os alimentos sólidos ou líquidos passarem para a traqueia.

Causas possíveis dos problemas alimentares
1. A agitação não permite que o doente esteja quieto, tornando o acto de comer quase impossível.
2. Problemas orais, causados por próteses dentárias inadequadas, falta de dentes e/ou doenças das gengivas.
3. Algumas doenças crónicas bem como certos medicamentos podem diminuir o apetite.
4. A depressão, nas primeiras fases da demência, reduz o apetite.
5. O centro da fome no hipotálamo, responsável pelo apetite, pode tornar-se disfuncional.
6. Podem esquecer-se de comer devido à perda de memória associada às fases primárias. Quando a demência já é severa, os pacientes deixam de saber como e para que comer.
7. Alterações da visão vão normalmente piorando e podem criar mais confusão.
8. A boca seca torna a deglutição difícil e a refeição desagradável.
9. A alteração do paladar pode condicionar uma diminuição do apetite.
10. Ambientes novos ou não familiares podem causar agitação e confusão.
11. Distracções, tais como muito barulho, muita gente ou um meio agitado provocam desassossego no doente.
12. Alimentos pouco atractivos, repetidos e cozinhados sem imaginação.
13. Odores inoportunos, tais como cheiro a urina, também diminuem o apetite.
14. Muitas vezes os problemas alimentares não são causados pelo paciente mas pelo seu cuidador. A falta de paciência do cuidador pode contribuir para que o paciente não tenha vontade de comer.
15. A incapacidade de o cuidador transmitir instruções com objectividade pode confundir o doente.
16. A pressão para que coma depressa pode, obviamente, enervar o paciente e dificultar a refeição.
17. Muitas vezes a falta de vontade do paciente em cooperar pode irritar o cuidador o que, por sua vez, agravará a ansiedade e irritabilidade do paciente que poderá recusar-se a comer.

Como lidar com estas dificuldades
1. Check-ups dentários para avaliação do estado da boca e dos dentes. Dentistas de crianças são, geralmente, mais pacientes.
2. Registos precisos e actualizados da medicação podem revelar se o apetite pode estar a ser afectado por algum dos fármacos.
3. Consultar o oftalmologista se houver problemas de visão.
4. Tentar acalmar o paciente segurando-lhe na mão. Experimente uma música calma durante as refeições.
5. Reduzir barulho e distracções na sala de jantar:
- se, em família, considerar a possibilidade de o paciente comer primeiro e só depois se juntar à família;
- se numa instituição, o paciente deve estar num grupo restrito e de acordo com as suas capacidades. Indivíduos muito agitados deverão comer sozinhos.
6. Reduzir as distracções na mesa:
- remover toalhas ou "individuais";
- servir um alimento de cada vez, se necessário.

Tornar as refeições mais fáceis
? Usar taças ou chávenas em vez de pratos e maiores do que as porções de alimentos, para evitar que se entornem.
? Não utilizar utensílios de plástico por serem demasiado leves para manipular e poderem partir-se na boca.
? Servir alimentos que se possam comer com as mãos tais como pedacinhos de batata cozida, queijo, sandes, pedacinhos de frango, fruta ou vegetais, pois muitas vezes os doentes recusam sentar-se para comer.
? Os pratos com ventosa (dos bebés) podem ser úteis para evitar acidentes com a comida.
? Exemplificar o abrir da boca com "ah" se o paciente não o fizer naturalmente ou colocar um pedaço de alimento nos lábios com estímulo para abrir a boca.
? Se necessário, dar instruções verbais como "mastigue agora", "engula agora", espaçadamente.
? Exemplificar como se mastiga.
? Humedecer os alimentos com molho ou água.
? Servir alimentos macios e finamente cortados.
? Oferecer alimentos pequenos, um de cada vez, pacientemente.

Nota: Se o doente se engasga com frequência, e para evitar a asfixia, deve consultar-se o médico, para que reavalie o seu esquema alimentar.
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