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 | Albano Estrela Professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), nasceu no Porto em 1933. Autor de variadíssimos trabalhos na área das Ciências da Educação, tem-se dedicado, nos últimos anos, à literatura de ficção, nomeadamente ao conto e à crónica ("O Mapa dos Sabores", "Crónicas de Um Portuense Arrependido", "As Memórias que Salazar Não Escreveu", "E Se o Mal Existisse Mesmo?", entre outros). |
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| Questões de Pedagogia ? V |
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| Albano Estrela| 2010-03-02 |
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| Mas não são apenas os factores humanos que condicionam a educação, os factores de ordem material também desempenham um papel importante no seu método de educação. Montessori criou um mundo de objectos, "à dimensão" da criança. |
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| A Escola Montessoriana É nos princípios do século XX que se publica na Europa a primeira obra de pedagogia científica (1909). A autora é uma médica e psicóloga italiana, Maria Montessori. A obra de Montessori assenta na observação objectiva de crianças em situação escolar e constitui o principal suporte da investigação científica em pedagogia, que se irá desenvolver ao longo do século.
"Um dia, encontrei, no terraço, crianças que tinham transportado, para aí, mesas e cadeiras, como para instalarem uma escola ao ar livre. Havia algumas que brincavam ao sol; outras permaneciam sentadas em círculo, à volta de mesas cheias de escritos e quadros de esmeril; à sombra duma chaminé, a orientadora, sentada, tendo nos joelhos uma caixa comprida e estreita, cheia de bilhetinhos e na qual mergulhava uma multidão de mãozitas... Um outro grupo estava muito ocupado a ler, abrindo e dobrando, sem cessar, os bilhetes. `Talvez não me acredite - diz-me a orientadora - mas há bem uma hora que estou aqui, e eles ainda acham pouco.' Fizemos a experiência de levar, para o terraço, bolas e bonecas, supondo que, assim, distrairíamos a sua atenção, mas sem nenhum resultado: as crianças continuaram a ler - as futilidades desapareciam ao lado da alegria de saber."
(Maria Montessori, Pédagogie Scientifique)
Este texto de Montessori expressa com precisão a atitude da autora em relação ao aluno e à escola. Maria Montessori é a primeira investigadora a utilizar uma observação isenta de preconceitos, o que lhe permite "descobrir a criança", até aí oculta, oculta ao adulto em geral e ao educador em particular.
É habitual afirmar-se que Montessori coloca a criança no centro do acto educativo, o que só em parte é exacto. Se o ponto de partida é a observação da criança em situação, o processo educativo assenta na utilização sistemática de "ambientes educativos" - humanos e materiais - que visam a criação de situações "programadas" de aprendizagem, que "libertam" a criança dos espartilhos que lhe impunha a escola tradicional, a "escola do adulto".
"O ambiente do adulto não é ambiente de vida para a criança, mas sobretudo uma acumulação de obstáculos que a fazem desenvolver defesas, adaptações deformantes, em que se torna vítima de sugestões. A partir desta realidade exterior, foi estudada a psicologia da criança e ponderadas as características para sobre elas se construírem as bases da educação. A psicologia infantil deve, pois, ser radicalmente reexaminada. Por todas as razões apontadas, cada resposta estranha da criança corresponde a um enigma que deve ser decifrado, cada capricho constitui o aspecto exterior de algo profundo que não se pode interpretar como conflito superficial, defensivo, contra um ambiente inadequado, mas como expressão de uma característica superior, essencial, que procura manifestar-se. É como se uma tempestade, uma borrasca, impedisse o espírito da criança de, saindo do seu oculto refúgio, surgir no exterior."
(Maria Montessori, L'enfant) Mas não são apenas os factores humanos que condicionam a educação, os factores de ordem material também desempenham um papel importante no seu método de educação. Montessori criou um mundo de objectos, "à dimensão" da criança. Mobiliário, objectos e utensílios vários, até casas de banho, enfim, tudo é feito de acordo com o tamanho e as capacidades da criança, a fim de que não se lhe deparem obstáculos que dificultem a sua inserção no ambiente escolar. Maria Montessori realiza a máxima de Rousseau de que a criança não é um homúnculo, um homem em miniatura, mas um ser com vida psíquica própria, em crescimento continuado, em ordem a tornar-se um adulto - um ser que deve ser amado, respeitado e educado. O material de pedagogia propriamente dito deve desempenhar essa função de acordo com o nível etário de cada criança, a fim de que o seu "crescimento" se proceda nas melhores condições possíveis. Material pedagógico-didáctico de acentuado sentido lúdico, adequado ao "período sensível" em que a criança se encontra.
Convirá ainda referir que não é só na observação e na construção de um aparato pedagógico de ordem material que o seu método se alicerça. As "Casas das Crianças", que cria em substituição da escola tradicional, orientam-se por valores morais, que ela colhe na mensagem do Novo Testamento - Montessori preconiza a criação do "Homem Novo" de que nos fala a mensagem cristã, a partir de uma prática educativa de ruptura com a escola tradicional, em que vivia encerrado desde criança. É nesse sentido que se deve compreender o conceito de liberdade de que fala:
"[Em cada educando] há uma criança desconhecida, um ser vivo sequestrado, que é necessário libertar. Esta é a primeira tarefa urgente da educação e libertar é, neste sentido, conhecer, descobrir o ignorado."
(Maria Montessori, L'enfant)
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