Rosa Montero, escritora e jornalista espanhola de referência, fala-nos, em número recente da revista dominical de
El País, de um livro que acabara de ler, "Atrapados en el hielo", de Caroline Alexander. Obra que relata uma epopeia célebre de uma trintena de tripulantes que, nos inícios do século XX, naufragaram nos mares gelados da Antárctida e por lá andaram perdidos durante 22 meses. Tinham como missão proceder ao levantamento geográfico daquele continente, mas um Inverno mais do que rigoroso impediu-os de chegar a terra firme. Com o barco encalhado, andaram a saltar de bloco em bloco de gelo, sempre no receio de serem engolidos pelas águas geladas. Os três botes que conseguiram salvar do naufrágio permitiram-lhes chegar, finalmente, a uma ilha deserta, inóspita, onde encontraram água e um providencial provimento alimentar de focas e pinguins.
Como é que conseguiram resistir durante esses dois anos a temperaturas inferiores a 40 graus negativos, sem roupas nem alimentos minimamente adequados? Talvez por uma só razão: a sua determinação em sobreviverem, alicerçada no ânimo e na disciplina que o chefe da missão lhes soube incutir. Se a expedição não serviu para alargar o conhecimento geográfico, permitiu algo bem mais importante: a testagem da capacidade humana de sobrevivência em condições tão adversas quanto as do Pólo Sul. De sobrevivência em grupo, note-se.
Mas o mais espantoso ainda estava para vir. Encontrados por uma expedição de socorro, desfeito o grupo, regressado cada um dos protagonistas à sua condição de cidadão comum, os azares começaram a apoquentá-los: ou se meteram em situações confusas, tanto do ponto de vista pessoal, como de ordem profissional, ou, então, mergulharam no alcoolismo, no jogo, em suma, em vidas de dissolução, de decadência física e moral. E a autora do artigo, Rosa Montero, interroga-se sobre o que se teria passado: aqueles 22 meses teriam esgotado a sua capacidade de autocontrolo? Ou seria mais fácil comportarem-se como heróis durante um certo tempo, do que manterem-se "em pé" durante toda a vida? Enfim, talvez "viver com dignidade toda uma existência seja, na realidade, a maior das proezas" que um ser humano pode realizar, acrescenta Rosa Montero.
Sim, sem dúvida que todas essas "explicações" terão a sua razão de ser, mas eu alvitro, ainda, uma outra: quem experimentou construir a sua vida quotidiana a partir da solidariedade que se estabelece dentro do grupo de pertença, não tem muitas possibilidades de sobreviver, se separado desse grupo for.
Quais as conclusões que se poderão tirar para a nossa sobrevivência enquanto educadores em tempo de crise? Tantas e tão variadas que competirá a cada um de nós descobri-las e... praticá-las - em grupo, no nosso grupo de pertença!
|