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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
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Entrevistas
"Não entendo o fim da gestão democrática das escolas"
Sara R. Oliveira| 2009-10-21
Maria do Rosário Gama, directora da Secundária Infanta D. Maria de Coimbra, defende a substituição do modelo de avaliação. Esteve nas manifestações e considera que o Governo tem feito "orelhas moucas" às reivindicações dos professores.
Admite que é difícil implementar um modelo de avaliação adequado a cada realidade, mas defende que quem ensina deve ser avaliado. Maria do Rosário Gama, directora da Secundária Infanta D. Maria de Coimbra, sustenta que qualquer processo avaliativo deverá ser precedido de mudanças no modelo de formação dos professores.

Há mágoa pela política educativa e é o "autismo da equipa ministerial" que mais lhe dói. "O ataque sistemático aos professores causou uma vaga de aposentações, grande parte delas com reformas penalizadas, e aos que ficaram causou desânimo, frustração, cansaço e injustiças."
 
É contra a divulgação dos rankings em bruto, sem o devido tratamento. Acredita que há bons professores em todas as escolas e um abaixo-assinado levou a candidatar-se a directora da secundária de Coimbra, como forma "de minimizar a falta de democracia que preside à escolha do director". Maria do Rosário Gama confessa que não tem sonhos, mas sim projectos que luta para que sejam concretizados.

EDUCARE.PT: Nunca escondeu o descontentamento em relação ao modelo de avaliação. O que contesta neste método?
Maria do Rosário Gama: A principal contestação remeto-a para a divisão da carreira docente em titulares e professores, quer pela artificialidade da divisão, quer pelo concurso de acesso a titular, escandaloso ao pontuar os cargos desempenhados nos últimos sete anos de carreira. Estes cargos foram atribuídos muitas vezes (tal como agora o são) para completar horários e não pelo perfil do professor, o que fez com que passassem a titulares pessoas a quem os colegas não reconhecem qualidade para serem avaliadores.
 
Por outro lado, e ainda antes do "simplex", os resultados dos alunos serem tidos em conta na avaliação dos professores poderia ter como consequência uma inflação de notas, não correspondendo ao verdadeiro conhecimento adquirido. Ou professores que leccionassem uma turma em que no ano anterior as notas tivessem sido inflacionadas, seriam prejudicados se quisessem repor uma avaliação rigorosa. Acontece ainda que os professores, cujos alunos tivessem exames, estariam em desigualdade de circunstâncias, na comparação das suas classificações com as obtidas em exame, relativamente aos professores (a maioria) cujos alunos não têm disciplinas com exame nacional. Com o "simplex", e a possibilidade de aulas assistidas serem "a pedido" do avaliado, perverte-se todo o sistema de avaliação, uma vez que deixa de fora a actividade mais importante do professor que é dar aulas.

E: Afirmou que o modelo é "burocrático e gerador de injustiças e de conflitos". De que forma os docentes devem ser avaliados?
MRG:
É difícil responder à questão. O historial tem mostrado como é difícil implementar um modelo de avaliação adequado a realidades diferentes em diferentes países e mesmo no nosso país. De qualquer modo, nenhum sistema de ensino pode prescindir de um modelo de avaliação. Penso que serão os técnicos da Educação que deverão apresentar modelos, de modo a promover a qualidade do ensino, sem que isso implique para o professor um estado de permanente angústia.
 
O professor tem que encarar a avaliação de um modo natural e não a constante sujeição a um processo de avaliação bienal que, dessa forma, produz o efeito contrário. De quatro em quatro anos, coincidentes com os anos escolares e não com os anos civis, parece-me ser o período mínimo para a avaliação. Qualquer processo de avaliação deverá ser precedido por mudanças significativas no modelo de formação dos professores, nomeadamente a formação inicial; deve ser essencialmente formativo; deve apostar fortemente na formação em exercício; deve ser definido um processo menos burocrático, com regras bem definidas, uniformizadas, que tenham em conta não a quantificação das actividades do professor mas a qualidade das mesmas. Os avaliadores devem ter formação específica para desempenhar essa função e a avaliação deve ser acompanhada por uma avaliação das escolas. Enfim, este modelo é muito mau, deve ser substituído por outro.

E: "Não podia assistir quieta à destruição da escola pública, só porque sou do PS." A frase pertence-lhe. O que mais lhe doeu e dói na política educativa do Governo?
MRG: O permanente autismo da equipa ministerial que fez "orelhas moucas" às justas reivindicações dos professores, assumidas por 120 mil em grandiosas manifestações, em que estive presente e onde era bem claro o desespero e a raiva pelo desprezo a que fomos votados. De salientar que o ataque sistemático aos professores causou uma vaga de aposentações, grande parte delas com reformas penalizadas, e aos que ficaram causou desânimo, frustração, cansaço e injustiças, muitas delas irremediáveis.

E: Estatuto da Carreira Docente, Estatuto do Aluno: o que se perdeu e o que se ganhou?
MRG: Muitos outros foram os documentos que perturbaram e perturbam a vida dos alunos e das escolas nomeadamente o Estatuto do Aluno que, apesar das estatísticas do Ministério anunciarem que houve um abaixamento no número de faltas, na realidade só quem não está na escolas e acompanha o seu dia-a-dia é que pode acreditar neste "abaixamento extraordinário". Perguntar-se-á: não é verdade que as faltas baixaram 22,5% relativamente ao ano passado? Resposta: Meia - verdade, baixaram os registos das faltas, não baixaram as faltas. O Estatuto do Aluno explica esse abaixamento? Resposta: Meia - verdade, os alunos continuam a faltar mas desde que façam a prova de recuperação as faltas voltam à "estaca zero" e só servem para efeitos estatísticos! E as provas de recuperação podem suceder-se indefinidamente se os alunos forem aprovando nas respectivas provas que o professor terá que elaborar quando o aluno atinge o limite de faltas.

Caso concreto: um aluno do Ensino Secundário, 10.º ano, tem duas vezes por semana aula de Português. Independentemente da natureza das faltas, sempre que este aluno atinge seis faltas - ou tratando-se exclusivamente de faltas injustificadas atinja quatro - devem-lhe ser aplicadas medidas correctivas para, logo que estas tenham sido avaliadas, ser sujeito a uma prova de recuperação. Se fizer a prova de recuperação e tiver aproveitamento, as faltas, seja qual for a sua natureza, só são contabilizadas para efeitos estatísticos. E novo ciclo de faltas se pode iniciar...

Suponhamos agora que este aluno chegava atrasado às aulas e o professor lhe marcava falta, como fazia habitualmente. Três situações podem ocorrer: ou marca as faltas de atraso e passa o ano a fazer provas de recuperação (afinal o aluno só não assistiu a 10 minutos de aula), ou não marca as faltas por atraso de cinco minutos e amanhã o atraso é de 10 minutos e depois de 15 porque o aluno sabe que não terá consequências, ou, finalmente, o menos expectável é que o aluno deixe de chegar atrasado.

Outra situação: o aluno normalmente malcomportado tem naquele dia um comportamento incorrecto com o professor, na sequência de uma recriminação. Três casos se podem dar: ou o professor manda o aluno para fora da sala com uma tarefa para cumprir e marca falta (como era hábito fazer), ou não marca falta e o aluno tem muitos mais comportamentos incorrectos porque não é penalizado ou, o que não é expectável no imediato, passa a ter comportamentos correctos.

Nem todos os alunos atingem o limite de faltas ao mesmo tempo. O que significa que o professor, para além das actividades normais de preparação de aulas, de elaboração de testes formativos e sumativos, tem que fazer tantas provas de recuperação quantas os alunos que forem atingindo o limite de faltas. Um professor de Português, com componente lectiva de 22 horas, se tiver turmas do 10.º ano terá que ter, no mínimo, cinco turmas, se cada turma tiver 28 alunos (máximo permitido por lei) este professor tem 140 alunos. Se tiver dois ou três que resolvam faltar e entrar no esquema das provas de recuperação, veja-se se é viável o professor marcar faltas por atraso ou por mau comportamento!

E: A Infanta D. Maria foi a primeira escola pública do ranking do ano passado. Como se chega a esta posição?
MRG:
Relativamente aos rankings, sou absolutamente contra esta divulgação "em bruto", sem o tratamento que as escolas, professores e alunos merecem. Na Secundária Infanta D. Maria, há professores de tanta qualidade como há nas restantes escolas do país e também há professores menos bons, exactamente como noutras escolas. Esta escola tem sido procurada por alunos com expectativas elevadas e com forte determinação para entrada em cursos em que as notas de acesso são elevadas e, por isso, a qualidade dos alunos é, de um modo geral, boa. A escola tem bons horários e disponibiliza apoios em todas as disciplinas. O meio socioeconómicamente-cultural de proveniência dos alunos é médio/alto, o que lhes confere, à partida, uma gama de conhecimentos e vivências que contribuem também para os bons resultados.

E: Vai continuar como presidente do conselho executivo ou tem outros planos?
MRG: Concorri a directora na sequência de um abaixo-assinado em que 90% dos professores fizeram um apelo para que me candidatasse. Considerei isso uma prova de confiança e um modo de minimizar a falta de democracia que preside à escolha do director. O Conselho Geral Transitório aceitou a minha candidatura e fui nomeada directora. Devo dizer que não entendo o fim da gestão democrática das escolas, quando o próprio programa do PS previa a opção entre gestão unipessoal e gestão partilhada. Houve grandes lideranças com os conselhos executivos, confirmadas pelo modo como as escolas foram correspondendo sempre à produção legislativa dos últimos tempos, que foram responsáveis por profundas transformações nas escolas.


As escolhas de... Maria do Rosário Gama

Uma citação
"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o oprimem",
de Bertolt Brecht.

Um livro

"Animal moribundo" de Philipp Roth.

Uma música
"Dance Me To the End of Love" de Leonard Cohen.

Um autor
Philipp Roth.

Um político
Nacional: Manuel Alegre. Estrangeiro: Obama.

Uma viagem
Amazónia em Agosto de 2003.

Uma memória de infância
As brincadeiras com as minhas duas irmãs mais novas (uma já faleceu) em que eu fazia sempre de professora...
e elas tinham muita paciência para me "aturar".

Um sonho por realizar
Não tenho sonhos: faço projectos e luto pela sua realização.
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