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Ensino Secundário: um mundo de contradições
Andreia Lobo| 2009-10-14
"Uma coisa é viver, outra é estudar." A frase, proferida por uma aluna do Ensino Secundário, espelha um sentimento emergente nas escolas.
Há uma nova cultura escolar cujas manifestações vão acontecendo no quotidiano educativo. Mais ou menos perceptíveis. Uma equipa de investigadores da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto realizou um estudo entre 2002 e 2006 onde identificou alguns traços deste fenómeno. As conclusões deste trabalho aguardam publicação em livro.

Trabalharam em várias escolas do Porto, e numa a 40 quilómetros desta cidade. Procuraram que as escolas estivessem em zonas ora mais ora menos "preservadas" do ponto de vista socioeconómico. E, entre os cerca de 400 alunos inquiridos, uma das percepções recolhidas foi a do "drama" que representa a passagem do 9.º ano para o Ensino Secundário. "É uma catástrofe porque há uma viragem súbita dos objectivos, das metodologias e da própria forma de estar", sintetiza Manuel Matos, investigador e coordenador deste estudo.

Entre as respostas que ajudaram os investigadores a perceber a transição do Ensino Básico para o Secundário, Manuel Matos, recorda uma das alunas inquiridas. Oriunda de uma zona da cidade popular, o investigador recorda a espécie de "conversão de estatuto" que a aluna foi forçada a fazer a partir do 10.º ano. Escolher novos amigos e abandonar a sua rede habitual. "Ela tinha um regime de vida terrível, mas dizia que se continuasse fiel ao seu grupo de amigos e ao seu estilo de vida nunca iria conseguir contrair hábitos que lhe permitissem tirar boas notas e entrar na Universidade", relata o investigador.

No terreno o estudo fez-se entre 2004 e 2005, e nesse período, garante Manuel Matos, a maioria dos alunos, com idades entre os 17 e os 18 anos, tinha como meta o ingresso no Ensino Superior. "Estavam muito vinculados a esta necessidade de entrar na Universidade, como se esta fosse o Abre-te Sésamo." Ou seja, uma "forma de conseguir emprego e quase fatal de ganhar a vida". Decorridos quatro anos sobre as entrevistas, o investigador acredita que "actualmente é possível que já menos alunos permaneçam vinculados a esta ideia". Até porque, adianta Manuel Matos, "a acumulação de experiências sociais já deve ter tido um efeito dissuasor".

Desilusão e desinteresse
Mas ainda no Ensino Secundário, os investigadores identificaram um outro traço desta nova cultura escolar: alunos numa fase de completa desilusão e desinteresse quanto à eficácia da escola. Entre os "desiludidos", mas que têm hipótese de permanecer na escola, fruto da falta de alternativas no mundo do trabalho, valoriza-se essencialmente a "relação social". "Aquilo a que chamam a curtição", esclarece Manuel Matos. Um sentimento fixado numa expressão bastante usada entre os alunos inquiridos: a escola é fixe, mas as aulas são uma seca! "O discurso dos alunos vai no sentido de descrever a escola como um espaço social onde vale a pena estar para gozar, viver, para socializar as relações..." Em contrapartida, diz o investigador, as aulas são tidas como "insuportáveis". "Há uma clara oposição entre o viver e o estudar", garante Manuel Matos, frisando que "quem neste contexto faz a opção de estudar é hostilizado."

Neste jogo do estudar e do viver, há ainda que ter em conta as expectativas dos pais. Uma das vertentes deste estudo quis auferir sobre a importância da família na motivação dos alunos. Curiosamente, os investigadores concluíram que é entre os alunos oriundos de zonas menos "preservadas" socioeconomicamente que mais pesam as expectativas dos pais sobre os seus estudos.

Os alunos oriundos de meios com maior "autonomia cultural", explica Manuel Matos, atribuem menos importância às expectativas dos pais. Estas interferem pouco na motivação para o estudo. "Até parece contraditório", constata o investigador, mas passível de uma explicação: Em meios mais desfavorecidos, os alunos que seguem para o Ensino Secundário serão ainda uma minoria entre a população, portanto, só os pais que realmente se preocupam é que pressionarão os filhos a seguir os estudos. Nesse sentido, as expectativas dos pais serão mais valorizadas.

Na luta contra o abandono e o insucesso escolar, "o sistema tenta oferecer uma grande diversidade de cursos, como se quisesse dizer que respeita as diferenças de cada um, mas a essa variedade corresponde uma grande diferenciação social e salarial", critica Manuel Matos. E esta é mais uma das contradições não apenas do Ensino Secundário, mas presente em todo o sistema educativo. A escola democrática é vista como uma "janela de oportunidades", mas "a experiência dos últimos tempos mostra que os diplomas já não trazem consigo nenhuma garantia de futuro".

Mas estes são apenas traços gerais de um estudo que apesar de ter chegado ao fim não está na perspectiva de Manuel Matos, de todo concluído: "Há muito trabalho por fazer, até porque o mundo estudantil é cada vez mais complicado."
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