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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
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Ensinar fora de Portugal
Sara R. Oliveira| 2009-07-08
Deixaram o país através de concursos promovidos pelo Ministério da Educação ou ao abrigo de programas de cooperação. As dificuldades ultrapassam-se e os horizontes alargam-se. São professores, leccionam no estrangeiro e aprendem com os alunos diferentes culturas e novas brincadeiras.
Maria Teresa Soares chegou à Alemanha em Outubro de 2001, ainda esteve alguns anos na Suíça, na área consular de Zurique, até que voltou novamente à Alemanha. É professora de Línguas do 2.º ciclo e sempre foi colocada por concurso através do Ministério da Educação. Ainda tentou dar aulas no Reino Unido, mas no ano em que concorreu não havia vagas disponíveis. "A decisão de dar aulas no estrangeiro deve-se ao facto de querer praticar mais as duas línguas do meu curso, inglês e alemão, e também a uma certa curiosidade de saber como seria viver num país estrangeiro", revela.

Agora já sabe o que é ensinar a longa distância de casa. Ensinar Português no estrangeiro significa ensinar Língua e Cultura Portuguesas, que abrange leitura, escrita, interpretação de textos, gramática básica, História e Geografia de Portugal. Maria Teresa tem 70 alunos a seu cargo, do 1.º ao 9.º anos, além de dois pequenos grupos de crianças lusodescendentes que aprendem Português como língua estrangeira, uma vez que os conhecimentos a esse nível são considerados fracos. "Estar longe de casa não foi grande problema. Sou natural de Sintra e já tinha dado aulas em Ferreira de Castelo Rodrigo, Cacém, Póvoa de Varzim, Porto e Funchal."

Mudanças significam coisas para descobrir. "O que me surpreendeu foi o modo de ensinar, devido a ter turmas mistas - por vezes três ou mais níveis de ensino juntos -, e não ter materiais apropriados para este tipo de ensino - usávamos, e ainda usamos, os livros escolares de Portugal - e ainda dar aulas a alunos pequenitos, do 1.º ciclo", adianta. "Também foi novo - e menos agradável - o facto de ensinar cada dia da semana numa escola diferente, portanto, ter de fazer várias deslocações, muitas vezes a localidades bastante afastadas", acrescenta.

Maria Teresa fica contente quando o esforço é compensado. E pode sê-lo de várias formas. "O que me dá mais alegria no meu trabalho é, claro, ver os meus alunos fazerem progressos, serem capazes de se exprimir oralmente e por escrito num português correcto, interessarem-se pela cultura portuguesa, quererem ler livros de escritores portugueses, e ver como mantêm bem vivos os contactos com a família e os amigos em Portugal", confessa. Ensinar crianças pequenas abriu-lhe os horizontes como professora. Leccionar a sua língua materna como língua estrangeira também. "E também foi positivo o contacto com os portugueses no estrangeiro, os pais dos meus alunos, e constatar, com satisfação, a importância dada às aulas de Português dos seus filhos." Depois da saída de Portugal, começou a interessar-se e a estar mais atenta à problemática da emigração.

Mas nem tudo foram facilidades. Encontrar casa foi uma dor de cabeça, os inquilinos estrangeiros não eram bem vistos por alguns senhorios. "E os professores que vinham para o estrangeiro não tinham, como hoje também não têm, nenhuma ajuda da parte das embaixadas ou consulados para a sua instalação. Nessa altura, como, lamentavelmente, ainda hoje, recebemos a lista das escolas onde vamos leccionar, as moradas das mesmas, e pronto. Tudo o resto é connosco. Se tivermos sorte, poderemos ter alguma ajuda da parte de pais de alunos ou colegas." Maria Teresa sentiu na pele o que é ser professora de um outro país. "Evidentemente, houve também problemas causados por directores de escola. Trabalhamos em salas cedidas pelas entidades do país de acolhimento e encontrei contínuos e professores alemães ou suíços um pouco xenófobos que se achavam no direito de me tratar como inferior - atitudes que infelizmente ainda hoje encontramos, embora mais raramente". "Nunca foi possível ter contacto, de igual para igual, com professores alemães. Fiz porém várias amizades com colegas italianos, gregos, espanhóis e turcos que ensinavam nos mesmos moldes", confessa.

Nuno Marques Pereira está a dar aulas de Inglês no Instituto Superior Politécnico de São Tomé e, ao mesmo tempo, tem nas mãos um projecto para formação de professores santomenses, através da Cooperação Portuguesa. A mudança é recente. Antes disso, deu aulas na Escola Portuguesa de Luanda durante cerca de ano. Em Angola, teve a seu cargo uma turma de 24 alunos do 1.º ciclo e deu aulas de Inglês a duas turmas de 60 alunos do 2.º ciclo. "Todas estas minhas saídas foram por iniciativa própria, sem ajuda alguma por parte do Ministério, visto que a escola portuguesa faz contratação ?local', apesar de estar como escola pública no Diário da República tem gestão privada a cargo da Cooperativa Portuguesa de Ensino em Angola (CPEA)."

No próximo ano lectivo, Nuno Marques espera também dar aulas na Escola Portuguesa de São Tomé, que se prepara para aumentar a sua capacidade que, neste momento, se restringe a duas salas, uma para o 1.º e 2.º anos, outra para o 3.º e 4.º anos. O professor explica como é ser docente em Luanda e em São Tomé. "As principais dificuldades nesta saída de casa é, sem dúvida, a família porque estamos num continente diferente e não podemos viajar para passar uns dias em casa, como acontece na Europa com as viagens low cost".

"Em Angola, especificamente em Luanda, as dificuldades são muitas em termos de transporte, casa, quando não se tem quaisquer apoios da entidade patronal, já que Luanda é uma das cidades mais caras do mundo neste momento, mas o ritmo da cidade desperta em mim sentimentos contraditórios, de amor/ódio." "O pó, os engarrafamentos, - que ninguém que não conheça a realidade acredita - que podem pôr-nos num trajecto que poderia demorar 10 minutos, a demorar uma, duas horas... são coisas que despertam esses sentimentos."

Mas acabou por sair de Angola. "Em Luanda, na Escola Portuguesa, o melhor são os alunos e pais, o pior é o ambiente de interesses instalados na escola, como em toda a Luanda. E, por isso, demiti-me desta escola. É um péssimo exemplo de escola portuguesa que, curiosamente, é a única que não tem qualquer tipo de ligação ao Ministério da Educação, apenas no paralelismo pedagógico", explica.

Nuno Marques ainda está a habituar-se ao ritmo de São Tomé. Mas já há sentimentos agarrados à pele. "As crianças são fantásticas e aprendemos coisas novas, das culturas destes países ou brincadeiras de portugueses que para estes países vieram viver." "A maior alegria é a mistura de culturas que estes países proporcionam e um ambiente de normalidade que existe. Aqui, nestes locais de ensino, não há cor de pele, essa ?coisa' que ainda se discute. Mais uma razão para o cliché: o futuro é das crianças."
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COMENTÁRIOS
Emigrar = alargar horizontes
"Ensinar fora de Portugal" tema bastante interessante e que tem muito que se lhe diga... Sou professora licenciada do 1º CEB, trabalhei em Portugal até que surgiu a oportunidade de vir trabalhar para uma escola na cidade de Londres. Vim para cá em 2006 e devo dizer que foi o passo mais acertado que tomei. Aqui, ao contrário do que muitas pessoas pensam, os salários não são assim tão bons mas pelo menos sei que permanecerei nesta escola sem ter que recorrer a qualquer tipo de concurso. A própria escola, devido ao elevadíssimo nº de crianças falantes de português, achou que para bem destas deveria colocar ao dispôr o ensino da Língua Portuguesa. Felizmente as turmas estão cheias... inclusivé algumas crianças inglesas têm também vontade em aprender o português. Para terminar devo salientar que esta escola não tem qualquer apoio do governo português. Para aqueles que não têm colocação em Portugal: Arrisquem no estrangeiro... ao início n é fácil mas vão ver q vale a pena. Boa sorte
Zélia Sofia Lopes Jesus, LONDRES
09.07.2009
Concurso EPE
Sem querer tirar mérito à professora Maria Teresa Soares, que certamente se preparou da melhor forma para exercer o cargo de professora de Português como língua estrangeira, sempre achei curioso que o Ministério da Educação, através das regras do concurso do EPE, permitisse que um professor licenciado em duas línguas estrangeiras, como o caso apresentado, i.e. Inglês e Alemão, fosse contratado para ensinar Português, para o qual não possui formação, e, mais significativo, impedisse um professor licenciado em, por exemplo, Português, ou Português-Inglês, de concorrer para as zonas consulares de França, Alemanhã ou Suíça, caso este não apresentasse um comprovativo do conhecimento da língua local (no meu caso em particular, nem me valeu o diploma do ensino secundário, que certifica o nível 6 de Francês. Parece-me que o próprio ME desacredita, desta forma, a sua competência enquanto certificador de habilitações).Pergunto eu, qual deveria ser a habilitação mais relevante para este concurso?
Inês V. F., Braga
08.07.2009
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