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| Missionários na escola |
| Andreia Lobo| 2009-04-08 |
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| Premiado com o galardão de Mérito Integração 2008 pelo Ministério da Educação, José Rocheta avisa que o professor actual precisa de ter "algum espírito de missão" para superar os desafios do quotidiano escolar. |
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Recebeu o prémio de Mérito Integração pelo esforço desenvolvido na resposta aos problemas do insucesso e abandono escolar de jovens problemáticos que frequentam o agrupamento. Contudo, José Rocheta sublinha ser "simplesmente o rosto de trabalho de equipa de professores e funcionários que dão o melhor de si para atenuar e ultrapassar os problemas que surgem diariamente."
Estende os louros do prémio a todos, sobretudo a José Diamantino Biscaia, presidente do Conselho Executivo, "um grande timoneiro que não se limita a gerir a escola dentro dos seus muros". E a quem José Rocheta não poupa elogios: "Um homem que, permanentemente, estimula e mantém a ligação da escola com o exterior e que quer dar a todos os jovens, independentemente da sua etnia, nacionalidade ou condição social, o melhor para as suas vidas."
José Rocheta, professor de Educação Tecnológica na Escola Básica com Ensino Secundário Dr. Azevedo Neves na Damaia, em entrevista ao EDUCARE.PT, insiste que a escola deve estreitar a ligação com as famílias. "Ser um bom professor numa zona difícil implica conhecer e compreender cada um dos seus alunos, ou seja, os seus problemas e os seus interesses", afirma. Fala da realidade que conhece com o empenho de quem quer fazer a diferença. E de quem está disposto a garantir que a escola seja realmente para todos. "Temos jovens excelentes e com fortes e múltiplas apetências. Que merecem que lhes sejam proporcionadas as melhores condições para virem a ser cidadãos de pleno direito independentemente da sua origem."
EDUCARE.PT: Fala-se muito de um certo desinteresse dos jovens pela escola... é comum a frase "a escola é fixe, as aulas é que são uma seca". Que leitura faz deste tipo de atitude face à escola? José Rocheta: Penso que a compreensão dos problemas e dos interesses dos jovens é parte da solução positiva da maioria dos problemas de ensino-aprendizagem na escola portuguesa de hoje. A esmagadora maioria dos jovens problemáticos na Escola Dr. Azevedo Neves - é sobre esta que me pronuncio porque é a que melhor conheço - são adolescentes sem regras e valores. São sobretudo jovens com origem em famílias desestruturadas que têm feito percursos de vida precocemente autónomos e frequentemente atribulados. Foram de pequeninos entregues à "ama" ou ao infantário e, com a passagem para o ensino básico, parece que a obrigação de educar passou unicamente para o professor ou até para a funcionária auxiliar.
Progressivamente a criança, depois adolescente, vai ficando sozinha, entregue à escola e aos seus pares. A família também se vai afastando. O jovem começa a ter comportamentos inadequados e a ser absentista. A família, quando verdadeiramente existe, só toma conhecimento já o ano escolar vai a mais de metade e pouco há a fazer. No ano seguinte o jovem continua em "liberdade total" porque pesa, sobretudo na "consciência da família", algum sentimento de culpa. E nessa liberdade o jovem faz mais do mesmo. A situação tende a repetir-se. É este o resultado da falta de acompanhamento a que estão votados estes jovens. A escola de hoje é para todos. E a maioria dos adolescentes estão actualmente pouco empenhados nas suas aprendizagens escolares (felizmente há excepções). Eles próprios dizem: "Vou para a escola para estar com os meus amigos."
E: O que pode a escola fazer pelos alunos, no sentido de os cativar para as aprendizagens? JR: Defendo que as escolas devem diversificar as suas ofertas educativas e formativas quer a nível dos cursos para prosseguimento de estudos quer através dos Cursos de Educação e Formação (CEF) ou cursos profissionais. Mas, sobretudo, o que cada escola privilegiar, para além de ir ao encontro dos interesses dos jovens, também deve potenciar a ligação com o meio, com a comunidade e com as famílias e, em particular no caso de cursos profissionalizantes, com o empresariado da região.
E: Como convence um aluno na iminência de abandonar a escola a não o fazer? JR: Se tenho conhecimento que um jovem pretende abandonar a escola procuro conhecê-lo e compreendê-lo. Procuro também conhecer a família. É óbvio que uma situação de abandono ou de elevado absentismo indicia que algo estará certamente errado. Conhecida a natureza do problema é encaminhado para o Serviço de Psicologia e Orientação Escolar (SPO) ou para a Unidade de Inserção na Vida Activa (UNIVA). Mas nunca deixo de o acompanhar. Existem muitas experiências [deste tipo de casos], como é fácil de adivinhar. Ficam, no entanto, no domínio privado. Também por respeito aos alunos.
E: Este esforço merece mérito, mas não pode estar só dependente da disponibilidade de um professor... JR: O absentismo, o abandono e o insucesso escolares, a par da formação profissional dos nossos jovens, são situações que nos preocupam muito. Eu sou simplesmente o rosto de um trabalho de equipa de professores e funcionários que dão de si o melhor para atenuar e ultrapassar os problemas que surgem diariamente. O professor José Diamantino Biscaia criou algumas equipas para trabalhar cada uma das vertentes "da escola portuguesa" que considerou mais importantes. E foi ele que me propôs a promoção efectiva da ligação da escola com as famílias. A realização deste objectivo trouxe um conhecimento mais real da vida dos nossos jovens e vimo-nos na obrigação de intervir muito para além do contexto da sala de aula. É o que fazemos para concretizar o Projecto Educativo de Escola, numa das suas vertentes, estreitar a ligação da escola às famílias e à autarquia, sem descurar o interesse dos jovens quer quanto aos cursos para prosseguimento de estudos, quer quanto à sua preparação para a vida activa.
E: Qual o maior desafio que se coloca à escola em termos pedagógicos, mas também sociais? JR: Respondo a esta questão na perspectiva do que considero actualmente ser professor. Em primeiro lugar, como em todas as profissões, é preciso gostar do local onde se está e do que se faz. Depois, atrevo-me a dizer, é necessário algum espírito de missão para se conseguir suplantar as cada vez mais acentuadas dificuldades com que o professor de hoje se depara no seu dia-a-dia. Para além de ser uma profissão de elevado desgaste psicológico diário em que se assina a presença várias vezes ao dia; em que estamos constantemente a ser observados e contestados pelos jovens; em que devemos manter permanentemente actualizados os nossos conhecimentos; em que temos que "competir" com outros intervenientes no ensino, quer interiores à escola, quer exteriores; ser professor é uma profissão que carece de definições claras quanto aos objectivos e metas a atingir, adaptadas ao local geográfico em que se exerce a profissão e aos jovens com quem se trabalha.
Para além de tudo isto, ser um bom professor numa zona difícil implica ainda conhecer e compreender cada um dos seus alunos, ou seja, os seus problemas e os seus interesses. Assim, a escola tem de organizar-se no sentido de, conhecendo a comunidade educativa e o meio envolvente, ir ao encontro das expectativas e interesses dos jovens que a frequentam.
E: Como vê a questão da avaliação de professores? JR: É uma situação natural. Os professores sempre foram avaliados. Os processos é que foram diferentes ao longo dos anos. O que se passa actualmente é que antes de implementar um novo processo decidiu-se dividir os professores em duas categorias. Parece-me que esta divisão trouxe algumas injustiças que provocaram o afastamento, através da aposentação precoce, de alguns docentes e a contestação dos que ficaram.
E: Este prémio serve-lhe de motivação para continuar o seu trabalho? JR: Este prémio de mérito na área da integração, que muito me honra e orgulha, estimula-me a continuar, mas as melhores recompensas são os cumprimentos e as palavras de incentivo que frequentemente recebo de antigos alunos. Um dia estava às compras na baixa lisboeta quando ouço, vindo não sei de onde, "Professor Rochita! Professor Rochita!" . Olho em redor e vejo, dentro de uma ambulância em movimento, um jovem com um microfone na mão a chamar-me. Era um jovem bombeiro que me queria apresentar ao seu chefe, que se encontrava no carro com ele, e que ali deu vivo testemunho do quanto estava reconhecido por eu lhe ter dedicado algum tempo e trabalho. Tinha sido meu aluno há cinco ou seis anos atrás, era algo rebelde e muito absentista. Um jovem que na escola levava outros atrás de si e que acompanhei até fazer o 9.º ano.
E: É preciso acreditar nestes jovens "problemáticos"? JR: Temos jovens excelentes, com fortes e múltiplas apetências. E que merecem que lhes sejam proporcionadas as melhores condições para virem a ser cidadãos de pleno direito independentemente da sua origem. Mas para isso é também necessário acompanhá-los. Eu acompanho-os em tudo para que seja solicitado: nos estudos, na formação profissional, na legalização e até na ida ao médico.
E: Que qualidades vê em si que possam ter sido distinguidas? JR: Sobretudo a determinação e a teimosia.
As escolhas de... José Rocheta
Citação "No ensino não se fazem reformas sem os professores", de Veiga Simão
Livro Sentimento de Si, de António Damásio
Música "Another brick in the wall", Pink Floyd
Político José Sócrates
Viagem Visitar Jamie Olivier e o seu restaurante "Fifteen".
Memória de infância O primeiro dia na escola primária.
Sonho por realizar Ver a Escola Dr. Azevedo Neves, de portas abertas, ser frequentada, em simultâneo, por crianças do pré-escolar e por "jovens" da terceira idade. | |
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