"Os professores contam" é a mensagem escolhida para este ano assinalar o Dia Mundial do Professor, instituído a 5 de Outubro pela Unesco e pela Internacional da Educação. O que é ser professor hoje em dia? A questão está em cima da mesa e a resposta não é assim tão simples. A Federação Nacional dos Sindicatos da Educação (FNE) celebra a data este sábado, 4 de Outubro, com uma jornada de reflexão das 9h30 às 17h00 no Hotel D. Luís, em Santa Clara, Coimbra. A FNE promete uma tomada de posição sobre os acontecimentos do arranque deste ano lectivo. E o encontro funciona como uma oportunidade de apontar casos concretos de erros ou virtudes do actual modelo de avaliação da classe docente. O actual inspector da Educação e o ex-secretário de Estado da Administração Educativa, Domingos Fernandes, marcam presença no debate.
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 Carla Barbosa
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"Ser professor é ser muito mais do que alguém que transmite um conjunto de saberes. Acredito que a personalidade dos adultos é o reflexo dos professores que se cruzaram com eles enquanto crianças/alunos. Actualmente, a escola é o agente de socialização por excelência. Neste sentido, ser professor acarreta muito mais responsabilidades." Carla Barbosa, de 28 anos, |
| professora contratada, enquadra assim a sua profissão. No sexto ano de trabalho, a docente de Educação Visual e Tecnológica está colocada na Escola Secundária Clara de Resende no Porto. "Não nos podemos confinar ao cumprimento do programa da disciplina, temos que dar, simultaneamente, grande ênfase às normas, valores e comportamentos. Ao professor é exigida uma acção decisiva em tudo o que diga respeito aos alunos num ambiente em constante mudança, ao qual se tem de adaptar permanentemente, num contexto de completa desresponsabilização dos encarregados de educação." |
Uma função com barreiras. "A maior de todas é a visão que a sociedade tem dos professores. Depreciam e criticam como se estes fossem uns parasitas da sociedade, como se a razão de todos os males fosse nossa. Sendo ou não professores, toda a gente sabe dar palpites sobre educação, toda a gente estudou pedagogia, todos sabem ser 'treinadores de bancada'", comenta. "O meu maior desafio é não deixar que o excesso de burocracias se sobreponha à essência da minha profissão, é não deixar que o desleixo de alguns encarregados de educação me influencie, é não deixar que a indisciplina e a falta de educação me perturbem nos meus juízos e decisões. É não perder o entusiasmo, a criatividade e a paixão com que vivo e exerço a minha profissão!", sublinha Carla Barbosa. |
A jovem professora considera que as recentes políticas educativas "têm lesado o sadio funcionamento da escola" e que a "desordem" centra-se no novo Estatuto da Carreira Docente (ECD) e na sua aplicação. "Embora o ECD traga alterações que em pouco vão contribuir para melhorar a escola, julgo que o primeiro erro surgiu com a apresentação destas alterações pelo Ministério da Educação, que o fez num tom austero, ameaçador e penalizador", lembra. "A alteração com intuito construtivo, experimental, de melhoria do funcionamento da escola teria sido melhor recebida pelos docentes. Até à entrada em vigor desse decreto-lei, os professores já trabalhavam muito para além das horas legalmente previstas. Ao contrário do que acontece em outras profissões, um professor nunca deixa de ser professor. Não sai da escola e esquece os alunos e o trabalho que está a desenvolver." Carla Barbosa coloca uma questão no meio de tantas burocracias. "Onde ficam os interesses dos alunos? A escola existe porque existem alunos, certo? Mas neste processo os alunos são um pormenor. É com isso que não posso concordar."
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 Manuel Luís Silva
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"Um professor não pode fazer um trabalho burocrático, um professor tem de ser criativo." Manuel Luís Silva, professor de História na Secundária de Santa Maria da Feira, na profissão há 29 anos, defende que ser-se docente é "sentir-se útil", ajudar a conhecer e entender o presente e dar ferramentas para perceber os desafios do futuro. Há, no entanto, obstáculos para contornar. |
O professor refere que "a herança de atraso" ao nível cultural em relação a outros países da Europa tem "condicionado enormemente o trabalho da escola". De que forma? "Exige-se mais para tentar recuperar, mas dá-se muito pouco tempo".
Manuel Luís não tem dúvidas de que o sector educativo é um dos que mais reformas têm sofrido. Nem sempre para melhor. O docente adianta que se tem assistido "a uma desvalorização pública da imagem social dos professores e do seu papel transformador da sociedade". "As políticas, por regra, visam muito mais a promoção, a propaganda e até por vezes a demagogia, e demonstram que as exigências não conduzem a uma transformação estrutural assente em medidas com objectivos claramente definidos." A experiência tem-lhe demonstrado que não vale a pena continuar se não houver vontade, gosto pela profissão, por ensinar. "É necessário melhorar a educação com o apoio entusiasmado dos professores." |
 Emília Santiago Miranda
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Para Emília Santiago Miranda, professora de Português na EB 2,3 Dr. Carlos Pinto Ferreira, Junqueira, em Vila do Conde, "os desafios superam as dificuldades". O que é ser professor hoje em dia? " Poderia dizer que é o mesmo que ser professor em qualquer outra época, no entanto hoje as exigências são mais vastas, as competências necessárias ao exercício da profissão |
mais diversificadas", responde a docente, na profissão há 32 anos, e mestre em Educação, Tecnologia Educativa, pelo Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho. "A maior dificuldade, quanto a mim, reside no facto de a escola se reproduzir a si própria o que origina uma evolução muito lenta, não compatível com as exigências do mundo e da sociedade actuais, onde os conceitos de espaço e tempo foram alterados", sublinha. E as mudanças no sector? "Todas as políticas educativas têm aspectos positivos e aspectos negativos, pelo que são contestáveis. Qualquer mudança gera reacção. Se assim não fosse, não seria mudança."
| Instabilidade e sucesso estatístico
 Isabel Ferreira
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Isabel Ferreira é professora do 1.º ciclo com variante em Educação Física no 2.º ciclo. Dá aulas há 12 anos e, neste momento, está colocada no apoio educativo no Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa, em São Pedro do Sul. "Ser professor é uma tarefa extremamente difícil. Há cada vez menos respeito pela figura do professor por parte dos
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alunos, pais e comunidade em geral." E não só. "Os alunos cada vez se interessam menos pela escola. Vêem a escola como uma obrigação e não como um desafio com interesse para ser descoberto", acrescenta.
Na sua opinião, é preciso ir ao terreno para verificar se, efectivamente, as políticas educativas têm resultados efectivos. Até porque, lembra, há situações diferentes. "Em Portugal, ainda há escolas em que um professor está a leccionar os quatro anos de escolaridade com alunos de diversos níveis dentro de cada ano de escolaridade. E o resultado da aprendizagem destas crianças é diminuto em relação às turmas só com um ano de escolaridade, logo estes professores deveriam ser avaliados de maneira diferente", defende. Turmas com muito alunos no 1.º ciclo significa dificuldades em abranger todas as crianças de igual modo "porque todos requerem demasiada atenção". "O 1.º ciclo nada tem a ver com o 2.º ou 3.º ciclos, são níveis completamente diferentes e não podemos igualá-los."
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| Isabel Ferreira considera que as crianças com dificuldades de aprendizagem não são tidas em conta pelo sistema, "são esquecidas nas políticas educativas". "Estas crianças não têm direito a nada. Mas estes alunos com um apoio mais directo, através de um professor de apoio educativo disponível com várias horas, melhoraria de certeza os seus resultados." Fica um apelo: "Pensem também nestas crianças que com mais ajudas conseguem ter um futuro mais promissor. Não podemos pensar só no sucesso estatístico, mas no futuro destas crianças que mais ajudadas terão sucesso prático". |
 António Cardoso
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É preciso vocação, gostar do que se faz e espírito de missão. Três ingredientes que António Cardoso, professor titular do departamento de Ciências e Matemática da EB 2,3 de Lourosa, Santa Maria da Feira, destaca para estar na área da educação - onde se encontra há 34 anos sem interrupção. "É uma profissão que tem de ser vista e desempenhada como uma missão". |
| "Sem a educação a sociedade não evolui", observa. Uma missão que esbarra em alguns contratempos. António Cardoso refere três. "As dificuldades em termos de limitação de materiais para o exercício pleno do cargo. Ter pouco tempo disponível para a actualização profissional. E a instabilidade, os professores não têm um lugar estável." O professor olha para as recentes mudanças no sector de forma positiva. "Houve avanços positivos para termos melhor educação", defende. António Cardoso recorda a inclusão do Inglês no 1.º ciclo, as actividades extracurriculares, os contratos plurianuais. O que, em seu entender, não está tão bem é a burocracia. "O ensino tem tido dificuldades administrativas", conclui. | |