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 | Luís Filipe Torgal Professor de História na Escola secundária de Oliveira do Hospital; Mestre em História Económica e Social Contemporânea. |
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| A escola pública e o fordismo |
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| Luís Filipe Torgal| 2008-10-20 |
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| A nova escola pública é hoje uma empresa gerida por muitos tecnocratas alinhados com a actual ordem política e equipada por operários que se desejam amanuenses servis e catequizados na alegada única ideologia vigente. |
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A escola pública morreu, enquanto espaço democrático multifacetado (e idealista) de instrução científica e artística e de formação cívica - já o proclamei aqui algumas vezes. Foi abruptamente estilhaçada pelo maremoto das desconexas e demagógicas ordenações socratistas de 2008: novo estatuto do aluno, nova lei sobre o ensino especial, novo regulamento de avaliação de desempenho docente e novo modelo de gestão escolar. Foi desacreditada pela propaganda do Ministério e da ministra que a tutelam e caiu em desgraça junto da opinião pública. Foi tomada por demasiados candidatos a futuros directores escolares embevecidos pelos decálogos de José Sócrates e inebriados pelas cartilhas sobre as dinâmicas de gestão empresarial no mundo neoliberal - afinal, as mesmas cartilhas que agora puseram o mundo à beira do caos. Foi pervertida pela imposição, por parte do Ministério da Educação, de um sistema burocrático kafkiano que visa obrigar os professores a fabricarem um sucesso educativo ilusório. Foi adulterada por alguns professores pragmáticos ou desprovidos de consciência crítica, os quais exibem a sua diligente e refinada burocracia como arma de arremesso para camuflar as suas limitações científicas, pedagógicas e culturais. E, neste momento, quando estão a constituir-se nas escolas os conselhos gerais transitórios, está a ser vítima de um já previsível mas intolerável processo de politização (no sentido mais pejorativo da palavra). Tal processo é dirigido por forças que em muitos casos se mantiveram durante anos alheados dos grandes problemas das escolas, mas que na actual conjuntura encaram estas instituições (outrora) educativas como tribunas privilegiadas para servirem maquiavélicos interesses de poder pessoal e/ou de carácter político-partidário.
A nova escola pública que está a emergir é uma farsa. Tornou-se um território deveras movediço, onde reina uma desmedida conflitualidade (e competitividade) social e política e uma grotesca e insuperável contradição entre os conceitos de "escola inclusiva" e de "pedagogia diferenciada". Nesta instituição naufragaram, entretanto, num conspurcado lamaçal, os nobres ideais instrutivos e formativos. O prodigioso computador portátil "Magalhães", ofertado em grande escala, numa operação de marketing à americana, a alunos do 1.º ciclo que cada vez sabem menos de Português ou Matemática e utilizam os computadores somente para simples divertimento, é, de resto, o mais recente exemplo do sentido irreal e burlesco das prioridades deste sistema educativo.
A nova escola pública é hoje uma empresa gerida por muitos tecnocratas alinhados com a actual ordem política, e equipada por operários que se desejam amanuenses servis e catequizados na alegada única ideologia vigente (a qual - agora já todos o sabemos - se encontra manifestamente em crise de final de ciclo). A verdadeira função desta espécie de mal engendrada e desalmada linha de montagem é produzir, automaticamente, em massa, de forma acelerada, e a baixos custos, duvidosos produtos estandardizados. Esta nova escola é, afinal, um hino ao velho fordismo. O tal sistema aplicado por Henry Ford em 1908 que venerou o dinheiro como deus supremo do Homo sapiens sapiens e que projectou um mundo sublime, onde o Homem é castrado da sua capacidade cognitiva e coagido a demitir-se das suas quotidianas obrigações familiares bem como de outros cívicos desígnios sociais em nome do lucro desenfreado (de uns poucos), da sobrevivência, do consumismo e do hedonismo desregrados. Aquele sistema perfeito superiormente ironizado por Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) ou por Charlie Chaplin (Tempos Modernos), nos anos 30 do século XX, que está agora no epicentro de mais um superlativo "tsunami" económico e financeiro de consequências imprevisíveis para a humanidade; "tsunami" esse cujas causas são reincidentes e estão bem diagnosticadas. Enfim, aquele implacável sistema materialista mecanicista e "darwinista", que hoje transcende o sector secundário para atingir muitos serviços do sector terciário, e cujo modo de vida o escritor americano de ascendência portuguesa John dos Passos também satirizou, numa obra datada dos mesmos anos 30 (O Grande Capital), com estas antológicas palavras: "quinze minutos para almoçar, três para ir à casa de banho; por toda a parte a aceleração taylorizada: baixar, ajustar o berbequim, acertar a porca, apertar o parafuso. Baixar-ajustar o berbequim-acertar a porca-apertar o parafuso. Baixarajustaroberbequimacertaraporcaapertaroparafuso, até que a última parcela de vida tenha sido aspirada pela produção e que os operários voltem à noite a casa, trémulos, lívidos e completamente extenuados".
"Porreiro pá!" Mas, pá, será esta a escola e o mundo que nós desejamos para os nossos alunos, para os nossos filhos?
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| COMENTÁRIOS DE UTILIZADORES |
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Educação à la Capitalismo
Gostei muito do texto. Os meus sinceros e humildes parabéns!
O mau de toda esta campanha eleitoral, opss.. propaganda, opss, enganei-me mais uma vez. Agora é que é: todas estas acções para facilitar o ensino e o progresso das nossas crianças está a resultar num belo processo de estupidificação. O Magalhães representa muito bem os nossos alunos: ou se actualizam ou vão caem no esquecimento. Entenda-se por actualização não o processo de formação e crescimento do individuo, mas antes o processo pelo qual nos sujeitamos à exploração capitalista e à desmoralização das nossas consciências, ou então morremos à fome! Esta forma de escravidão é bem pior que a nossa anterior forma!
Educação tal como eu acredito, isto é, emancipação do sujeito, é, infelizmente, uma ilusão. É que nem utopia é...(!)
O pior ainda me parece ser a escolha que temos ao actual governo. Seja quem quer que esteja no poder, as asneiras e filosofias fordistas e tayloristas serão as mesmas. E nós é que pagamos!
Cumprimento
Frederico Marques, Vila Nova de Famalicão
22.10.2008
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retrato pessimista
Não tenho dúvidas de que tem razão em algumas coisas que diz. Parece que hoje em dia se quer formar as pessoas à "pressão", tipo imperial, pessoas essas que outrora a escola elitista não permitiu. Actualmente, penso que se quer dotar os individuos de ferramentas essenciais, e isso é muito importante nesta conhecida aprendizagen ao longo da vida, porém esse propósito tem sido feito, ao que me parece, de um modo economicista e facilitista. É sabido que Portugal está muitíssimo atrasado em relação a outros países europeus em termos de educação, e a meu ver, a recuperação só pode ser feita - e deverá ser feita - com qualidade e rigor. Caso contrário estamos a teatralizar. Adoro teatro mas cenas tristes já eu estou farto
Miguel Gameiro Silva, Ponta delgada
20.10.2008
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