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 | Maria Helena Ramalho Professora titular do grupo 420, na E. S. da Boa Nova (Leça da Palmeira). É licenciada em Geografia, pela U. Porto e mestre em Educação (área de Análise e Organização do Ensino), pela Universidade do Minho. Entre Setembro de 1989 e Agosto de 2007 exerceu funções docentes na FLUP na área da Didáctica da Geografia e em supervisão pedagógica. |
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| Da escola sonhada à escola (re)vivida |
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| Maria Helena Ramalho| 2008-06-17 |
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| A missão da escola pública acabará por ser a exclusão dos capazes e interessados, que provavelmente se resguardarão no privado, qual ironia da falácia da escola inclusiva. |
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A sociedade actual é problemática e controversa, pois é uma sociedade em mutação acelerada, com múltiplas incoerências e velocidades de reacção diversas. Vários dos seus desafios "invadem" a escola, transformando-a e exigindo um novo equilíbrio dinâmico que custa a estabelecer.
Missão da escola (I) É difícil a uma pessoa com meio século de vida e com um já longo percurso profissional docente identificar a missão da escola. Sabe, contudo, que a missão de hoje não é a mesma que a escola teve na época da sua infância - já não é transmitir conhecimento.
Entre muitas dúvidas, a tal cinquentenária atreve-se a sonhar com a possibilidade de a escola ter como missão a formação de cidadãos informados e conhecedores, sociáveis/civilizados, atentos e reflexivos, preparados para a mudança. Missão, desde logo e independentemente das condições propiciadas, digna dessa denominação!
Agentes educativos escolares Na escola de ontem, tal como na de hoje, os principais e quase exclusivos agentes educativos são os professores. Como tal, debrucemo-nos um pouco sobre eles - que professores temos e teremos? Que exigimos dos professores?
Actualmente, no quotidiano vivido das escolas, os problemas são múltiplos, os desafios crescentes:
Alunos - para muitos alunos, a escola tem pouco significado; para a maioria, a escola é o local onde passam mais tempo; para alguns, a escola é o palco de afirmação (pela negativa ou pela positiva); para todos, a escola é um espaço e um tempo de passagem e de vida. Globalmente, é elevada a probabilidade de existirem turmas pedagogicamente inviáveis face ao binómio dimensão/heterogeneidade interna (mais de 25 alunos, todos eles "carentes" (uns de carinho e atenção, outros de disciplina, outros de orientação, outros de...)).
Meios e mentalidades - Na era das TIC, e apesar do tão falado choque tecnológico, há escolas em que as actas continuam a ser obrigatoriamente manuscritas, em que a requisição de um computador e de um projector multimédia é uma tarefa difícil e muitas vezes infrutífera, dado que muitas salas não têm estores e algumas se encontram com as tomadas eléctricas vandalizadas, em que o velho quadro de giz é o grande aliado se o estado de tempo ajudar (caso contrário, dada a inexistência de estores, de pouco ou nada serve)...
Numa sociedade e escola "democráticas", os direitos são só dos alunos (especialmente dos "problemáticos") e os deveres exclusivos dos professores. Multiplicam-se as reuniões, infrutíferas na maioria dos casos, mas os professores acabam por ser pouco ouvidos e envolvidos.
Neste contexto, pretende-se, ou melhor, exige-se dos professores serem pais/mães, serem psicólogos, serem assistentes sociais, serem animadores socioculturais, serem entertainers, serem, eventualmente (com alguma sorte), "professores de..."! Que assustadora polivalência! Que subversão da designação profissional!
Sejamos honestos e transparentes - ninguém terá profissionalismo q.b. nesta polivalência exacerbada. Estamos a enveredar por um amadorismo imposto pelas circunstâncias e pelas políticas (de ontem e de hoje).
Reflictamos sobre o "perfil" dos professores que estão nas escolas e dos que virão a ser formados num futuro que é já hoje.
Os professores que temos são os que fizeram a sua formação inicial pautada pelo princípio "ser professor de...". Pressupunha, acima de tudo, saber a matéria a leccionar e saber como a leccionar (conhecer e aplicar uma série de teorias e metodologias didácticas e dominar conhecimentos básicos de psicologia, de currículo e de pedagogia). Os professores que temos, como a professora cinquentenária que nos inspira, são docentes que tiveram a sua formação académica base (licenciatura), uma iniciação docente mais ou menos consistente (consoante o modelo e a instituição de formação) e o seu desenvolvimento profissional feito de experiência adquirida e de formação espontânea ao longo da vida (no sentido de não estruturada e formalizada na carreira, fruto da não exigência e do não reconhecimento por parte da política educativa). Uns optaram por se empenhar na formação das crianças e dos jovens com os quais trabalhavam, por investir, por fazer formação complementar na área de saber respectiva ou em outras áreas adjacentes que consideraram relevantes para o exercício da profissão. Outros, limitaram-se a reproduzir, de forma progressivamente redutora e desvirtuante, o que prepararam na sua formação inicial e a cumprir (mais ou menos dignamente) funções várias que a escola lhes ia atribuindo. Uns e outros poderão encontrar-se hoje em situação de igualdade na carreira - serão (ou não) professores titulares.
Os professores que teremos no futuro próximo serão, por um lado, os que ainda "sobreviverão" da geração anterior e, por outro, os que venham a adquirir a sua formação inicial (ao nível do Ensino Superior) ao abrigo do Decreto-Lei n.º 43/2007.
Valerá a pena atendermos um pouco ao estabelecido no referido normativo oficial - teremos "professores de..." com menos de 50 ECTS de formação superior nessa área disciplinar. É, pois, inegável que a qualificação científica para o exercício da "docência em..." passa a ser um mero pormenor. Justificar-se-á ainda falarmos de "professor de..."? O que será esse agente educativo? Parece vir a ser alguém que adquire formação inicial multifacetada mas sem solidez suficiente em área alguma. Será isto o professor "generalista" de que se fala? Mas, então, teremos professores generalistas até ao 12.º ano! Para onde estamos a caminhar, afinal?
Os professores que teremos no futuro serão essencialmente o resultado do Estatuto da Carreira Docente dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário, publicado em Janeiro de 2007 (Decreto-Lei n.º 15/2007, de 19 de Janeiro), bem como dos diplomas subsequentes.
Certamente que todos concordamos com o expresso no preâmbulo do referido diploma e nos congratulamos com a necessidade de "promover e premiar o mérito" e "valorizar a actividade lectiva". Afinal, pretende-se "professores de..."! Pretender-se-á mesmo?
Vejamos em que condições se vai reconhecer tal mérito e valorizar a actividade lectiva:
1.º - Os avaliadores serão, desde logo, os coordenadores de departamento, que são professores titulares. Recorde-se que o 1.º Concurso para Professor Titular se alicerçou, essencialmente, no premiar do exercício de cargos, independentemente dos princípios de atribuição dos mesmos e do (des)empenho revelado. Neste contexto, o processo está, irremediavelmente, viciado à partida!
2.º - Como se pode apostar na valorização da componente lectiva quando no horário semanal de 35 horas, 25 a 27 são de trabalho na escola, restando pois entre 8 e 10 horas para trabalho individual? A "nossa" professora-referência vai tentando fazê-lo à custa dos fins-de-semana e dos serões, enfim, da abdicação de vida pessoal. Será que a missão da escola se concretiza através de verdadeiros missionários? Mas pior ainda, como continuar a consegui-lo face à teia burocrática e asfixiante que se está a esboçar em termos de Avaliação do Desempenho Docente - os trâmites são tantos e tão complexos, as solicitações e formalizações do processo tão exaustivas e sistemáticas que as tais 8 a 10 horas serão escassas só para isso. Então, quando e como se prepararão as aulas? Possivelmente, o "professor", além de missionário, terá de ser escravo e mágico.
Mas se nos debruçarmos sobre o Decreto Regulamentar n.º 2/2008, relativo à avaliação do desempenho dos docentes integrados na carreira, várias outras incongruências e perplexidades emergem. Sublinhemos uma, a título de exemplo. Na escola sonhada pode ser pertinente que os indicadores de medida tenham em conta os progressos dos resultados escolares, mas na escola vivida e quando no referido decreto regulamentar se colocam a encabeçar as prioridades dos objectivos individuais "a melhoria dos resultados escolares dos alunos" e a "redução do abandono escolar", não estaremos a abrir caminho para a perversão do sistema? Que preço estará disposta a pagar a sociedade por esta farsa avaliativa e, sobretudo, educativa? Que clivagens estaremos a criar no sistema educativo actual?
Todas estas angústias ganham outra amplitude quando vivenciadas no quotidiano das nossas escolas. Assiste-se a uma sistemática e sucessiva responsabilização de terceiros: a tutela remete para a escola a resolução/resposta aos mais variados problemas; os órgãos superiores de gestão da escola remetem-nos para os órgãos intermédios (conselhos de departamento, por exemplo); estes, por seu turno, delegam nos conselhos de turma; por último, estes, constituídos por uma panóplia de professores com interesses e sensibilidades muito diversas, sentem-se normalmente impotentes. Desde logo, quando um professor ousa sugerir uma medida menos convencional mas (aparentemente) eficaz, são-lhe colocados uma série de entraves, a maioria dos quais reveladores da efectiva ausência de autonomia do docente e da escola, em geral. Consequentemente, resta aos conselhos de turma enveredarem pela farsa - simulam-se projectos curriculares de turma que não passam de um somatório de elementos dispersos e que se vão acumulando ao longo do ano, concebem-se "planos de recuperação individuais" (para alunos em concreto) com base pré-formatada, registam-se medidas avulsas, mesmo aquelas que se sabem ser ineficazes. "Medidas"/"Estratégias" são as ocas e inconsequentes palavras de ordem a que os docentes têm de dar resposta no dia-a-dia.
Missão da escola (II) A professora cinquentenária, no seu reencontro com a realidade escolar, no acordar de um sonho muito acalentado, depara-se com o pesadelo de a missão destinada à escola vivida poder ser a de mera representação de uma farsa, em que os designados professores simulam resultados escolares favoráveis e se submetem a tudo para que os "clientes" não abandonem a escola. A missão da escola pública acabará por ser a exclusão dos capazes e interessados, que provavelmente se resguardarão no privado, qual ironia da falácia da escola inclusiva.
Mas esta professora resiste... ainda resiste - não quer aceitar a realidade do pesadelo e continua a acalentar o sonho de poder ser "professora de...", de poder "servir" os mais e os menos aptos e/ou favorecidos (em condições dignas e razoáveis), de poder dar um contributo válido à sociedade. Até quando? |
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| COMENTÁRIOS DE UTILIZADORES |
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O meu sonho
Tive o prazer de ter como supervisora pedagógica a Dr.ª Maria Helena Ramalho que muito me ensinou. E, passados seis anos da conclusão do meu estágio continuo a sonhar...apesar de alguns pesadelos!!! Sonho com uma escola onde, em primeiro lugar, seja "professora de..." e depois assistente social, psicóloga, mãe, funcionária administrativa,(...). Talvez continue a sonhar...ou talvez não. A questão - Valerá a pena lutar por este sonho? - surge-me frequentemente. No entanto, a resposta não tarda em aparecer, especialmente quando penso que me formei porque queria ser "professora de..." !!!
Cristina Alexandra Ribeiro Coelho Coelho, Valbom Gondomar
18.06.2008
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Obrigado!
Professora.
P. Alves, PSI
18.06.2008
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